Capítulo 2 Espiralando
Brad apertou-a mais nos braços, com o coração se partindo. Quando ela ligou, ele quase perdeu a cabeça. Nada assustava a irmãzinha dele. Ela não era feita assim. Exalava uma confiança imprudente e tinha uma boca à altura. Ele já tinha visto Nicky arrumar briga com brutamontes do hóquei três vezes maiores do que ela. Ele se sentou num pulo na cama ao som baixo da voz dela, lutando para sair por entre lágrimas. Medo e adrenalina correndo nas veias. Com a fala entrecortada por soluços, ele só conseguiu entender por alto o que tinha acontecido. O namorado tinha encostado nela e ela queria voltar para casa.
Ele tinha vontade de pegar um avião e resolver aquilo. De encontrar o homem em quem a irmãzinha dele tinha confiado a ponto de morar junto. Que tinha tratado ela como lixo. Ele esbarrou em Gage quando estava indo em direção à porta. O olhar escuro e perigoso nos olhos de Gage disse a Brad que ele já sabia o que estava acontecendo.
Cia alcançou os dois antes que chegassem à porta. Bloqueou a saída com o próprio corpo. Argumentou, com lógica, que Nicky já estaria no avião de volta quando eles ao menos chegassem lá, e que eles iam querer estar ali quando ela chegasse. Não numa cela. Claro que ela tinha razão.
— Tô aqui, garota — Brad murmurou no ouvido dela. — Você conseguiu sair de lá bem? — perguntou baixo.
Nicky assentiu, puxando um ar trêmulo, se recompondo. Ele colocou os pés dela de volta no chão e a afastou um pouco para olhar seu rosto.
— Você tá… bem? — perguntou, segurando o rosto dela entre as mãos.
Nicky assentiu de novo, respirando fundo. Brad enxugou as lágrimas dela com os polegares antes de beijar sua testa.
— Eu tô… bem. Tô bem — Nicky garantiu, limpando a garganta e passando as palmas das mãos pelos olhos.
— Vamos. A Cia tá no carro com o pequeno e eles provavelmente estão prestes a se matar — disse Brad, jogando o braço sobre os ombros dela e guiando-a em direção à saída.
Nicky lançou um olhar rápido para Gage, envergonhada e se sentindo exposta. Os olhos dele estavam escuros quando encontraram os dela, uma emoção que ela não soube identificar nublando-os; o músculo do maxilar tremia de tão cerrado. Sem dizer uma palavra, ele se abaixou e pegou a bolsa de dança dela, jogando a alça sobre o ombro. Depois tomou a mão dela na dele e apertou de leve, mantendo-a segura enquanto saíam do prédio.
Cia já tinha saído do carro, deixando a porta do motorista escancarada, correndo para encontrá-los no segundo em que os viu. Nicky e Cia nem sempre tinham sido amigas. Quatro anos de diferença e opostas socialmente. Se não fosse por aquele primeiro encontro que Nicky teve com Brad, provavelmente nunca teriam se aproximado. Mas bateram de cara, de imediato. Duas faces da mesma moeda, nunca tiveram um momento constrangedor. Uma se alimentava da energia da outra como só duas mulheres conseguem fazer, falando ao mesmo tempo com energia suficiente para drenar uma sala inteira de gente.
Cia ainda estava de scrubs e, de algum jeito, ainda parecia fresca e cheia de disposição depois de um plantão de doze horas no pronto-socorro. O cabelo castanho com mechas douradas continuava preso, liso, numa trança francesa na parte de trás da cabeça. Os olhos castanhos brilhavam enquanto examinavam o rosto de Nicky. Ver Cia não fez Nicky desabar. Deu energia a ela.
Ela se afastou de Brad e Gage ao encontrar Cia; as duas se agarraram pelas mãos, falando as duas ao mesmo tempo, numa velocidade que só outra mulher conseguiria acompanhar. Na curta caminhada de volta até o carro, elas falaram de tudo. De como achavam que a outra estava bonita. Do tamanho do babaca que o Jeremy era. Do quanto era uma merda o Nicky ter que sair de Nova York. De quanta fofoca Cia tinha pra contar do hospital. E de como Remy era exatamente igual à Tia Nic. Nicky respirou de verdade pela primeira vez desde que tinha entrado naquele quarto. Ela estava em casa.
Já era tarde, e Nicky não conseguia dormir. O quarto novo dela estava vazio. Cia tinha feito o melhor que pôde com tão pouco tempo. Nicky tinha cobertores confortáveis, uma toalha, itens básicos de higiene. Remy tinha deixado um dinossauro de plástico que rugia quando apertava o botão nas costas, para espantar pesadelos. Mas, fora isso, estava vazio. Sem qualquer personalidade. Um cômodo pouco usado da casa, com só o básico. Cama, abajur, cômoda. Deitada ali, com a camiseta emprestada que cheirava ao irmão, a realidade do que tinha acontecido pesou ao redor dela.
Tudo pelo que ela vinha trabalhando desde os doze anos estava em Nova York. Quatro anos na Juilliard. Um ano inteiro treinando e se preparando para uma apresentação que agora não aconteceria. Acabou. Ela não tinha nada. Tinha deixado tudo para trás. A carreira, as roupas, os sapatos, as fotos. As pantufas felpudas preferidas. Tudo. Ela teria que reconstruir tudo. As lágrimas já pressionavam o fundo dos olhos quando o celular fez um plim, anunciando uma mensagem; a luz da tela brilhou forte no quarto escuro.
Ryker:
Você tá bem?
Nicky olhou ao redor do quarto escuro, desconfiada. Pensando se o quarto estava grampeado ou se ele tinha escondido alguma câmera naquele espaço vazio que ela simplesmente não tinha visto. Não era possível ele conhecer ela tão bem assim, era? Será que ele simplesmente sabia que ela estava deitada no escuro, no meio da noite, se afundando em autopiedade? Prestes a entrar numa espiral.
Ryker:
Nic?
Nicky:
Tô bem
Ryker:
Tem certeza?
Nicky:
Não
Eu não tenho nada
Meu treinador tá em NY
Vou perder a apresentação
Ryker:
Nic
Nicky:
Vou ficar presa fazendo freela
Fazendo comercial de pasta de dente
Ou pior
Dançando num pole num clube.
Ryker:
Você não vai dançar num clube
Você compra coisas novas
Um treinador novo
Você rala pra caralho e consegue sua audição
Nicky:
Não seja racional
Ryker:
Você tem razão
As coisas se foram
Os sonhos foram esmagados
O mundo acabou
Você tá destinada a virar stripper
Nicky:
Cala a boca
Idiota
Minhas fotos
Minhas pantufas felpudas preferidas
Ryker:
Respira
Eu vou cuidar disso
Nicky:
Como?
Ryker:
Você só precisa confiar em mim
Nicky:
Eu confio
Senti sua falta
…
…
Gage
Eu também senti sua falta, Gatinha.
Nicky largou o celular, as lágrimas esquecidas, substituídas por uma bolha de felicidade na qual ela preferia não pensar demais. Ela tinha sentido muita falta dele. Eles nunca tinham perdido contato, mas à distância não era a mesma coisa que do outro lado do corredor. Ele sempre a trazia de volta pro chão. Quando ela tinha um dia ruim, precisava de um ânimo, precisava de um choque de realidade, ela mandava mensagem pro Gage. Ele conseguia fazê-la sorrir, consertar o humor de merda dela e empurrá-la de volta pro lugar.
Ela tinha mandado mensagem pra ele bem antes de ligar pro Brad. Só o nome dele. Duas da manhã, ele na cama com outra garota, e ele respondeu antes mesmo de Brad atender. Com Brad no ouvido, Gage ajudou a acalmá-la por mensagem para que ela conseguisse contar ao Brad o que tinha acontecido. Colocar ela num avião. Trazer ela pra casa. Deus, como ela tinha sentido falta dele.
