Capítulo 3 Novas manhãs
“Ai, tia Nic!” O grito de guerra de Remy ecoou no cérebro de Nicky, entupido de algodão, um instante antes de o corpinho minúsculo aterrissar em cima dela com um baque firme. Nicky soltou um “oof”. Abrindo um olho devagar, ficou cara a cara com Remy. Ela estava tão perto que os cílios das duas se tocaram.
— Você tá acordada? — Remy perguntou num sussurro teatral, os olhos cintilando de empolgação.
— Tô super acordada. — disse Nicky, com a voz pesada de sono.
Na verdade, ela estava de ressaca pra caralho. Os olhos pareciam cheios de areia. O cérebro, espremido num torno. Elas nunca deveriam ter aberto aquela terceira garrafa de vinho.
— Você quer ir a pé pra escola comigo? — Remy sussurrou, empurrando o cabelo do rosto de Nicky com a palma da mão úmida. Por que a mão dela estava úmida?
— Com certeza. — Nicky disse, resmungando quando Remy quicou em cima dela de animação. A menina de sete anos saltou da cama e saiu correndo do quarto tão rápido quanto tinha entrado. Nicky rolou para fora da cama, esticando os braços bem acima da cabeça com um bocejo.
— Caramba, garota. — Gage disse, apreciativo, soltando um assobio baixo da porta aberta.
Nicky estava bonita pra caramba logo de manhã. O cabelo caindo bagunçado pelas costas, o rosto limpo de maquiagem, as bochechas rosadas de sono. Ela usava uma calça de pijama com desenhos do que pareciam hamsters por toda parte e uma regata que mal era decente sem sutiã.
— Ah, por favor. — Nicky revirou os olhos, baixando os braços; as palmas bateram nas coxas. Ela se sentia como se tivesse sido atropelada por um caminhão. Pegando um moletom, foi até ele descalça.
— Pelo jeito as compras foram boas. — Gage zombou, olhando em volta do quarto.
As compras tinham sido boas. Guardar as roupas novas... bem... tinha tido vinho. Nicky lembrava vagamente de um desfile de moda. Elas tinham conseguido tirar cada peça de roupa e cada sapato das sacolas e caixas. Aparentemente, tinham jogado tudo como confete, pelo jeito desleixado como estava espalhado pelo quarto.
— Tinha vinho demais. — Nicky choramingou e, agarrando a camisa dele com a mão fechada, deixou a testa cair pesada no peito de Gage.
Rindo, Gage passou a mão pela cabeça dela, enfiando os dedos no cabelo para massagear o couro cabeludo, num gesto tranquilizador. Um suspiro baixinho escapou de Nicky, e ela relaxou contra ele, envolvendo a cintura dele com os braços. Ela era quente e macia, e o corpo dele reagiu. Os músculos se retesaram, endurecendo de desejo. Porra.
O que ele estava fazendo? Não podia ficar tão perto dela. Tão perto que conseguia sentir o cheiro do cabelo dela. Olhando para o teto, ele xingou em silêncio. Queria empurrá-la de volta para o quarto. Deitá-la na cama e dar um jeito naquela ressaca de um jeito que beneficiaria os dois.
Remy salvou a situação. Ela explodiu de volta no corredor, saindo do quarto, e bateu com o corpo nas pernas deles. Envolveu os dois num abraço coletivo. Olhando para cima, a energia irradiava dela; os pés saltitavam, incapazes de ficar parados.
— Tia Nic, você tá pronta? — Remy perguntou.
— Meu Deus, eu tô prontíssima. — Nicky disse, dramática. Ela deixou Remy arrastá-la pelo corredor, pela mão. Gage passou as mãos pelo cabelo, olhando para o teto. Mas que porra.
Nicky seguiu Remy até a cozinha, fazendo uma careta para as luzes fortes. Brad já estava no balcão, fazendo café. O cheiro quente e rico preenchia o ar, delicioso. Cia estava sentada no balcão, largada sobre a bancada, tão miserável quanto Nicky se sentia. A maquiagem de ontem borrada sob os olhos, o rabo de cavalo da noite passada torto e quase se desfazendo.
— Mãe! — Remy gemeu, numa mistura de exasperação e vergonha, subindo no banco ao lado dela.
— Tô acordada. — Cia resmungou, murmurando, sem se mexer. Remy revirou os olhos e puxou a tigela de cereal para mais perto.
Nicky se arrastou até onde Brad estendia uma caneca fumegante para ela. Envolvendo a caneca com as duas mãos, deu um gole agradecido. Encostada no balcão ao lado dele, manteve a caneca perto da boca, os olhos fechados. Inspirou o aroma enquanto esperava a cafeína fazer efeito.
— Vocês conseguiram dormir? — Brad perguntou com um sorrisinho, puxando de leve as pontas do cabelo dela. Nicky só grunhiu, mantendo sua posição de oração aos deuses do café.
“Vocês estão com cara de quem morreu.” Remy anunciou, a voz cheia de julgamento e Fruit Loops. Cia virou a cabeça, lançando um olhar de canto para a filha.
“Eu me sinto morta.” Nicky murmurou para dentro da caneca.
“Você podia pelo menos pentear o cabelo.” Remy disse, toda cheia de si. “Eu não posso ser vista com umas bagunças dessas. Eu tenho uma reputação pra manter, sabia.” Remy jogou o cabelo por cima do ombro, toda atrevida.
“Que tipo de reputação você pode ter? Você tem sete anos.” Cia resmungou, encarando-a.
“Uma que não inclui ir pra escola com gente sem-teto.” Remy rebateu. Brad e Nicky riram baixinho. Brad prendeu os lábios entre os dentes para segurar a risada quando Cia lançou um olhar para eles.
“Ah, é mesmo.” Cia disse, com um tom perigoso na voz.
“Uhum”, Remy cantarolou, “e vocês dois parecem que dormiram na calçada.” A boca de Cia se abriu, chocada com a quantidade de atitude que a menina exalava.
“Okê!” Brad prolongou, dando um passo à frente e puxando o olhar feio de Cia da direção da filha para cravá-lo nele. “Rem, vai pegar sua mochila, já está quase na hora de vocês irem.”
“Tá bom, papai!” Remy respondeu animada, descendo do banquinho num pulo e saindo correndo da sala.
“Eu te culpo por essa insolência.” Cia fez uma careta, apontando para ele.
“Amor, fala sério. Você se olhou no espelho?” Brad disse, seco, sorrindo para ela. Cia se levantou devagar do banquinho e saiu da sala com o nariz empinado.
“Então... você não quer mais sexo, tipo, nunca mais?” Nicky riu para dentro da caneca de café. Brad amassou o rosto, imitando-a com sons ininteligíveis, e deu um empurrãozinho de leve no ombro dela.
“O que você vai fazer hoje?” ele perguntou.
“Tenho que ir pro estúdio e fazer audição hoje.” Nicky respondeu, mal-humorada. Não acreditava que tinha que fazer audição.
“Eles estão te fazendo fazer audição?” ele perguntou, surpreso.
Nicky tinha passado os últimos cinco anos em Nova York construindo sua carreira profissional na dança. Formada na Juilliard com Bacharelado em Belas-Artes, entre os dez melhores da turma. Depois, treinando com o Coach Randal na Ailey Dance School, se preparando para a entrevista de emprego numa companhia de dança profissional. Ela deveria poder escolher qualquer escola de dança em Denver.
“Tem algum tipo de rivalidade entre o Coach Randal e a Coach Hannah.” Nicky suspirou. Tomando outro gole de café, ela girou os ombros e olhou de lado quando Gage entrou. Ele parecia tenso, o maxilar travado, os olhos cor de avelã turvos.
“Você pode fazer sua própria coreografia preparada, como fez pra Juilliard?” Brad perguntou, observando Gage com curiosidade. Ele atravessou a sala, os olhos fixos em Nicky como se ela fosse a única pessoa ali. Os ombros estavam rígidos, a cabeça inclinada para trás, fazendo-o parecer ainda mais alto do que seus 1,90. Ele a avaliou devagar enquanto se aproximava, predatório.
“Infelizmente, não.” Nicky suspirou, sem perceber que estava sendo caçada. “Ela vai me dar as instruções mais rápidas do mundo pra uma dança que eu nunca fiz e depois ver se eu quebro a cara.” Nicky revirou os olhos. Ela se endireitou quando Gage parou bem na frente dela, invadindo seu espaço. Nicky inclinou a cabeça para trás para encará-lo, desconfiada. O que ele estava fazendo?
A mão de Gage foi até o quadril dela quando ele esticou o braço atrás dela para pegar uma caneca. Ele estava tão perto que roçou nela ao se mover. Os olhos dele se prenderam aos dela com intensidade, o verde e o castanho lutando por dominância. Nicky não conseguia respirar com o calor que a atravessou. A mão dele no quadril dela parecia um carvão em brasa, marcando a pele. Arrepios se espalharam, e ela estremeceu.
“Você dá conta disso?” Gage perguntou, a voz baixa e sugestiva o bastante para Nicky não ter certeza se ele falava da audição... ou dele.
Ela ficou hipnotizada pela excitação que enchia os olhos dele. O olhar dele percorreu o rosto dela, parando quando chegou à boca. As pupilas se dilataram; a língua dele passou distraída pelo lábio superior antes de ele voltar a encará-la. Ele esfregou o polegar na pele exposta acima do elástico da cintura da calça de pijama dela. Devagar, sensual.
O ar ficou preso na garganta dela, e sua boca se abriu. Os lábios dele se curvaram num sorriso masculino. Arrogante e satisfeito. O suficiente para apagar o tesão dela e acender irritação. A expressão suave e vidrada no rosto dela endureceu, virando uma carranca.
“Eu dou conta de qualquer coisa.” Nicky lembrou. Fingindo que não ouviu o tom rouco da própria voz, ela deu um soco no estômago dele.
