Capítulo 1
Ele devia ser minha saída, mas era ele quem vinha me empurrando para o abismo esse tempo todo.
Eu costumava achar que o Carter era a única coisa boa naquele inferno de colégio. Ele me defendia quando a turma inteira zombava da minha gagueira. Ele me dava uma jaqueta limpa quando enchiam o meu armário com ratos mortos.
Por causa dele, eu abri mão do meu sonho de entrar numa Ivy League, aceitando de bom grado me contentar com alguma universidade estadual medíocre.
Até aquela sexta-feira, do lado de fora do vestiário, quando ouvi ele se gabando para os colegas de time e para a líder das cheerleaders — a mesma garota que tinha comandado a campanha para me torturar — sobre a “conquista” dele, no tom mais casual do mundo.
No fim das contas, eu era só o prêmio da aposta doentia deles.
Naquele instante, tudo em que eu acreditava estilhaçou.
Eu não chorei. Eu não gritei. Só mudei minha inscrição para a faculdade em silêncio e, então, no auge do triunfo deles, eu observei, com olhos frios, enquanto eles se destruíam.
BAM—
A porta de metal do armário bateu com força ao fechar.
Eu estava escondida na última cabine, no fundo, com a camisa de treino do Carter agarrada nas mãos. Ainda cheirava a suor e grama cortada.
Eu só queria surpreendê-lo — colocar a camisa limpa no armário dele antes do treino. Mas passos inundaram o vestiário e, de repente, eu não conseguia me mexer.
A voz do Carter. Os colegas dele. E a Chloe, capitã das cheerleaders.
— Carter, você não vai mesmo levar aquela aberração gaga pra State com você, vai? — A voz da Chloe era pura doçura e veneno. — Meu Deus, ontem ela mal conseguia soltar três palavras. Parecia que eu estava vendo alguém ter um derrame.
O riso explodiu ao redor dela.
Eu parei de respirar.
Aquele era o meu namorado. O cara que tinha me tirado de dentro de uma cabine do banheiro no primeiro ano quando a Jenny Marks me encurralou. Que mandou todo mundo me deixar em paz, porra.
Eu esperei ele calar a boca deles, como sempre fazia.
Em vez disso, ouvi o clique de um isqueiro. Depois a risada dele — baixa, fácil.
— E por que não levar ela? Vocês não entendem. — A voz do Carter tinha aquela confiança preguiçosa que antes me fazia sentir segura. — Garotas como ela — quebradas, sem família — são os alvos mais fáceis do mundo.
Alguma coisa dentro do meu peito rachou.
— É só dar um pouquinho de atenção que ela faz qualquer merda que você quiser. — Ele soltou a fumaça. Eu conseguia imaginá-lo encostado nos armários, com aquele sorriso convencido na cara.
— Lembram mês passado, quando vocês, seus babacas, apostaram comigo que eu não conseguia deixar ela totalmente na minha? Ela literalmente tirou a candidatura antecipada pra Cornell. Porra, Cornell. Só pra me seguir pra State.
— Mano, você só gosta de pagar de herói — alguém disse.
Carter riu ainda mais.
— Herói? Não. Eu só tô matando tempo até ela fazer dezoito. Namoradinha de treino, tá ligado? E, de qualquer jeito, ela morreria sem mim.
“Namoradinha de treino.”
As palavras atravessaram minhas costelas como um soco.
Meu estômago revirou. O chão pareceu inclinar.
Eu escorreguei pela porta de metal gelada, as pernas cedendo de vez. As lágrimas vieram tão rápido que eu não consegui segurar.
Eu pressionei as duas mãos sobre a boca, apavorada de fazer qualquer som.
Lágrimas quentes escorriam por entre meus dedos. Meu corpo inteiro tremia em soluços silenciosos — daquele tipo que te despedaça por dentro.
A gagueira que ele supostamente tinha “curado” voltou com tudo. Minha mandíbula tremia. Meu peito arfava.
Todas as lembranças boas se despedaçaram de uma vez. Ele segurando minha mão no corredor. Ele me defendendo dos meus valentões. Ele dizendo Eu sempre vou te proteger.
Tudo aquilo — mentira.
Ele não estava me protegendo. Estava me treinando.
Eu era o entretenimento dele. Sua aposta. Sua rodada de treino antes da coisa real.
E eu tinha acreditado em cada palavra de merda durante um ano inteiro.
As vozes desapareceram. Os passos se afastaram. O vestiário ficou em silêncio.
Não sei por quanto tempo fiquei caída naquele chão.
O sinal tocou. De algum jeito, eu me levantei.
O espelho do banheiro mostrava um desastre — olhos vermelhos e inchados, rímel borrado por toda parte, o rosto manchado de tanto chorar. Mas meus olhos pareciam mortos.
Fiquei encarando a camisa do uniforme nas minhas mãos. Número 7. Eu a tinha passado de manhã, obcecada com cada vinco.
Joguei no lixo.
A aula de matemática já tinha começado quando escorreguei para o meu lugar no fundo da sala. Meu celular vibrou na mesma hora.
Carter: [Bebê, usa aquele vestido preto justo hoje à noite na festa. Aquele que eu comprei pra você. Te amo.]
Fiquei olhando para a tela.
No mês passado, uma mensagem dessas teria feito o meu dia. Eu teria passado uma hora na frente do espelho, tentando me sentir bem naquele vestido dois números menor, que mostrava pele demais, que me deixava desconfortável. Mas ele tinha dito você fica tão gostosa com isso, então eu usei.
Agora, olhando para aquelas duas palavras — te amo — eu não sentia nada além de uma clareza fria.
Não respondi.
Abri o Common App.
Cada tela que carregava parecia arrancar um curativo.
Lá estava: State University. A faculdade que Carter escolheu porque o GPA dele era uma porcaria e o futebol era a única chance que ele tinha.
A gente vai dividir um apartamento, ele tinha dito, com os olhos tão sinceros que eu acreditei. Só eu e você. Eu vou cuidar de você.
Então eu me diminuí. Fiquei mais quieta. Desisti das faculdades que o meu GPA 4.2 poderia ter me levado a alcançar. Porque ele me pediu.
Meu cursor foi até o botão de excluir.
Não hesitei.
Excluir.
State University sumiu da minha lista de inscrições.
Digitei “Columbia University”. Depois “Yale University”.
Minhas redações já estavam escritas — aquelas sobre superar o trauma, sobre encontrar minha voz. Sobre ser mais do que o meu passado.
Elas deviam ser mentiras que eu contava para entrar na faculdade de segurança do Carter.
No fim das contas, eram verdadeiras.
Cliquei em Enviar nas duas inscrições.
Um texto verde apareceu: Inscrição enviada com sucesso.
Fiquei encarando aquelas palavras por três segundos.
Então desliguei o celular completamente e o enfiei no fundo da mochila.
Acabou.
Sem confronto. Sem cena dramática. Sem explicação.
A garota que teria feito qualquer coisa por Carter Reed — que teria ido para qualquer lugar com ele, acreditado em qualquer coisa — tinha ido embora.
Ela morreu no chão daquele vestiário.
E eu não ia trazê-la de volta.
