Capítulo 2

A cantina de terça-feira fedia a gordura de pizza barata e a uma algazarra de doer os ouvidos.

Eu estava comendo quando Carter largou a bandeja com força na minha mesa. Não perguntou se podia sentar. Nunca perguntava.

A primeira coisa que ele fez foi raspar os pedaços de cenoura cozida do prato dele no meu, o plástico barato arranhando e soltando um som áspero.

— Onde diabos você estava ontem à noite? — Ele nem olhou para mim, espetando com agressividade um pedaço de frango. — Te mandei quatro mensagens. Fiquei plantado na casa do Tyler feito um completo idiota.

Ontem, meu coração teria dado um salto.

Eu teria gaguejado desculpas, inventado alguma desculpa sobre enxaqueca ou uma emergência na família, qualquer coisa para desfazer aquela ruga entre as sobrancelhas dele.

Mas hoje eu só fiquei vendo ele mastigar. Aquele filtro patético da paixão tinha se estilhaçado. Sem ele, ele era só um homem das cavernas com um garfo.

— Ué, ficou muda agora? — Os dedos engordurados dele estalaram, impacientes, na frente do meu rosto. — Trabalho de Governo. Passa pra cá. Não me faz pedir duas vezes. O técnico disse que, se eu não entregar até as três, eu fico no banco.

Ele estendeu a mão, aberta e exigente, esperando que eu fizesse o que sempre fazia — enfiar a mão na mochila na hora, puxar a redação pronta e entregar como se fosse uma oferenda.

Olhei para a mão vazia dele e depois levantei o olhar, encarando a expressão irritada.

— Não fiz.

Baixo, mas firme. Nem uma gaguejada.

Carter congelou, o garfo suspenso no ar. Por uma fração de segundo, uma confusão genuína atravessou o rosto dele, como se uma cadeira tivesse começado a falar do nada.

— Repete isso? — A voz dele desceu para aquele tom ameaçador. O tom que ele usava sempre que queria me lembrar “quem mandava”.

Alguns caras ali perto pararam de conversar, prontos para assistir ao show.

Antes que eu pudesse responder, uma onda de perfume de baunilha engoliu o cheiro de pizza.

Chloe surgiu do nada, se acomodando no colo do Carter enquanto pegava uma batata frita do meu prato.

— Ah, Carter, não seja tão duro. — Ela me olhou como se eu fosse alguma coisa grudada no sapato dela. — Olha o cerebrinho dela dando pane. “D-d-d-desculpa, Carter, eu v-v-vou pegar pra você agora mesmo.”

Ela exagerou nos tiques do rosto, imitando a minha antiga gagueira. A risada explodiu ao redor. Até a mesa ao lado se virou para ver o espetáculo.

Carter não fez nada para impedir. Em vez disso, abriu um sorriso de canto e apertou a cintura dela, brincalhão.

— É isso que faz ela ser tão divertida. — Carter olhou para mim como se eu fosse um bichinho, estendendo a mão para dar uns tapinhas na minha bochecha. — Tá bom, Eve, para com esse teatrinho de difícil.

— Agora, me entrega o trabalho e pede desculpa pra Chloe. Aí talvez eu deixe você continuar sentando comigo no almoço.

Ele esperava o de sempre — eu, com os olhos vermelhos e quebrada por dentro, esmagando minha dignidade para implorar pelo perdão dele.

Eu olhei para a mão dele se aproximando e não senti nada além de repulsa.

Recostei na cadeira, desviando do toque.

— Eu pareço que tô brincando? — Encarei os olhos dele sem desviar, a voz reta e fria. — Seu trabalho? Problema seu. Acabou.

Antes que ele pudesse reagir, peguei minha bandeja e me levantei, caminhando com calma em direção ao lugar de devolver as bandejas.

Carter veio atrás, furioso, tentando agarrar meu braço. Eu simplesmente soltei a bandeja.

SPLASH—

Meio prato de cenouras cozidas ensopadas de molho de salada caiu certinho na lixeira, e a água suja respingou nos tênis de edição limitada de dois mil dólares dele.

— Vadia! Você ficou maluca?! — Atrás de mim, os xingamentos enfurecidos do Carter explodiram, seguidos pelo estrondo de uma cadeira chutada.

Pela primeira vez, eu nem me dei ao trabalho de olhar para trás.

Humilhado em público daquele jeito, era óbvio que Carter não ia conseguir engolir o orgulho.

Horas depois, no estacionamento, ele já estava encostado na sua picape Ford, à espera.

Ao me ver chegando, deu um passo calculado à frente e usou a própria altura para bloquear meu caminho, enquanto fazia piada em voz alta com Chloe, ao lado dele:

— Fim de semana na casa do lago? Claro, só nós dois — vai ser demais.

Ele estava esperando eu parar, esperando o ciúme me quebrar, esperando que eu me agarrasse à manga dele e implorasse para ele me levar junto.

Mas, antes que a sombra dele caísse sobre mim, tirei meus fones do bolso e encaixei nos ouvidos bem na frente dele, aumentando o volume no máximo.

Eu nem olhei para ele. Não diminui o passo. Só passei por ele pelo vão estreito, tratando ele, a caminhonete e a Chloe como se fossem invisíveis.

— Eve! Para!

Mesmo com a música estourando, eu conseguia ouvir ele perdendo a linha atrás de mim, aparentemente socando a porta do carro.

Eu nem pisquei. Só continuei andando em direção ao ponto de ônibus.

Ele achava que ninguém mais ia me querer. Era hora de ele aprender — eu tinha terminado de ficar levando o lixo para fora.

De volta à casa da família que me hospedava, tranquei a porta do meu quarto e puxei debaixo da cama um saco de lixo preto.

O colar de “cristal” barato que Carter tinha me dado, o vestido justo e decotado que ele tinha me obrigado a usar, aqueles cartões manipuladores que só diziam “o que você faria sem mim”...

Joguei tudo dentro do saco. A cada coisa descartada, as correntes em volta do meu coração afrouxavam um pouco mais.

Abri meu notebook e encontrei e-mails de Columbia e Yale quietinhos na minha caixa de entrada — comprovantes de confirmação de inscrição.

Eu tinha mantido um GPA de 4,2 esse tempo todo. Se eu não tivesse alimentado o ego patético dele, abrindo mão voluntariamente da admissão antecipada em Cornell para ir atrás dele, eu já estaria lá.

Ding—

A tela do meu celular acendeu.

Carter tinha postado uma foto no grupo. Ele e Chloe comendo hambúrgueres numa lanchonete de fast-food, com a legenda: [Tem gente que não sabe valorizar coisa boa. Pelo menos eu reconheço qualidade quando vejo.]

Embaixo, uma sequência de comentários incitando. Ele estava tentando me forçar a ceder.

Sorri de canto, gelada, e saí do grupo.

Ele achava que eu ainda estava sob o controle dele, ainda sofrendo na guerra fria dele.

Na realidade, eu já tinha apagado as universidades estaduais da minha lista de inscrição e passado no triturador aquele desenho idiota do “nosso futuro apartamento na casa do lago”.

Enquanto o rangido áspero do triturador ecoava, uma nova notificação de e-mail apareceu no canto da tela.

Remetente: Escritório de Admissões da Universidade Columbia.

Prendi a respiração e cliquei. Não era uma resposta automática — era um convite para uma entrevista presencial com um ex-aluno da Ivy League.

Antes que eu conseguisse ler os detalhes específicos da entrevista, meu celular — abandonado no pé da cama — acendeu de novo.

Carter.

Ser rejeitado duas vezes claramente o tinha enfurecido, mas o ego inflado dele fazia até as tentativas de reconciliação soarem como ordens:

[Me encontra no corredor principal amanhã de manhã. Sobre o baile — chega de atitude. Hora de conversar.]

Olhei para o convite da entrevista da Ivy League na tela, depois para aquela mensagem que parecia uma convocação para um bichinho de estimação.

O baile.

Era a etapa final da aposta de vestiário dele de “me quebrar completamente”.

Ele queria bancar o herói na frente da escola inteira? Me conceder a “honra” de ser o par dele no baile, como se eu fosse um caso de caridade?

Um sorriso frio entortou meus lábios quando eu virei o celular com a tela para baixo em cima da mesa.

Já que ele queria tanto a atenção da escola inteira, eu não me importava de ajudar a derrubar o palco com as minhas próprias mãos.

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