Capítulo 4

Nove horas da noite seguinte, as pesadas portas duplas do ginásio se erguiam diante de mim, com um grave tão poderoso que vibrava pelas solas dos meus saltos.

Olhei para o celular dentro da minha clutch.

A tela mostrava uma dúzia de mensagens cada vez mais frenéticas que Carter tinha mandado na última hora. A essa altura, ele provavelmente já tinha descoberto que eu o deixara plantado e estava vindo para cá a toda velocidade, furioso.

“Te vejo amanhã”, respondi por mensagem. Mas nunca disse que chegaria como um acessório obediente no banco do passageiro do carro dele.

Pressionei as duas palmas contra as portas do ginásio e as empurrei.

A música ensurdecedora continuava pulsando, mas, no instante em que entrei, o falatório perto da entrada morreu quase imediatamente.

Sem franja pesada. Sem os ombros curvados de sempre. Segurando a bolsa preta que guardava minha carta de aceitação, encarei de frente os olhares atônitos e desci as escadas com perfeita compostura.

O vestido preto constelado brilhava sob os lustres de cristal. Vários suspiros agudos cortaram a multidão.

Eu mal tinha descido dois degraus quando as portas atrás de mim — ainda nem totalmente fechadas — foram puxadas de repente, com violência, pelo lado de fora.

PÁ.

Os painéis pesados bateram contra as paredes, o estrondo furioso alto o bastante para cortar até a linha de baixo da música.

Todos os olhos no salão saíram de mim e se voltaram para quem quer que tivesse feito aquela entrada.

Carter.

Ele devia ter passado uma hora inteira buzinando na frente da minha casa feito um idiota antes de perceber que eu tinha passado a perna nele.

Seu ar habitual de intocável tinha sumido. O cabelo estava despenteado, a gravata-borboleta torta, o peito arfando — ele parecia um cachorro raivoso mal contendo a própria fúria.

Os olhos injetados de sangue vasculharam o salão freneticamente até se fixarem em mim.

No instante em que nossos olhares se encontraram, ele congelou no alto da escada.

Mesmo por trás da raiva, percebi o lampejo involuntário de admiração na expressão dele.

Mas durou menos de um segundo. No momento em que percebeu que a garota radiante diante dele não só tinha feito dele um idiota, como também não estava usando o vestido que ele gentilmente cedeu, ele perdeu completamente o controle.

Desceu os degraus feito um touro, fechou a distância entre nós e prendeu a mão no meu pulso.

— Você passou a porra da perna em mim?!

O rosto dele estava lívido, o hálito quente contra a minha orelha enquanto rosnava entre os dentes. — Fiquei esperando do lado de fora feito um imbecil por uma hora! Além de me dar o bolo, você ignorou tudo o que eu disse?! Pra quem diabos você se arrumou assim?!

Olhei friamente para os dedos afundados no meu pulso e puxei o braço de volta.

— Para mim mesma.

A mão de Carter ficou suspensa no ar, imóvel, enquanto a expressão dele ficava mais feia a cada segundo.

— Carter, por que você está desperdiçando energia com ela? — Chloe se aproximou, os saltos estalando no chão, e se agarrou ao braço dele.

Ela passou o olhar pelo meu vestido de cima a baixo, com a voz escorrendo veneno calculado. — Provavelmente é só uma imitação alugada. Você pode embrulhar lixo em papel dourado — continua sendo lixo. Olha, ela nem consegue mais formar uma frase completa.

Algumas risadas cruéis se espalharam entre os espectadores.

Carter agarrou aquela deixa como se fosse uma boia, voltando instantaneamente ao seu sorrisinho condescendente.

— Exatamente. — Ele zombou. — Eve, não pense que trocar de roupa muda o fato de que você só consegue sobreviver se agarrando em mim. Você...

Eu ri.

Um som baixo, desdenhoso, que fez as palavras morrerem na garganta dele.

Em vez de dignificar aquela provocação patética com uma resposta, eu os olhei da forma como alguém observaria cães treinados fazendo truques, depois me virei e fui até a mesa de bebidas.

Tratá-lo como se ele não existisse o feriu mais do que qualquer tapa jamais poderia.

— Ótimo... — a voz de Carter ficou venenosa atrás de mim. — Continua com essa encenação. Vamos ver quanto tempo leva até você implorar por mim.

Meia hora depois, o baile chegou ao seu tradicional momento de “anúncios”.

Desesperado para retomar o controle, Carter empurrou Chloe para o lado, invadiu o palco e arrancou o microfone das mãos do DJ.

—Todo mundo!

A voz dele ecoou pelo ginásio enquanto os olhos varriam a multidão, cravando-se em mim. Seus lábios se curvaram num sorriso maldoso—

Era óbvio: ele via aquela declaração pública como a oportunidade perfeita para me esmagar de novo sob o salto e arrancar minha submissão.

Lá embaixo, Chloe entendeu o recado e puxou a torcida, liderando a plateia em gritos entusiasmados.

Carter tirou do bolso uma caixinha de veludo barata e a abriu com um floreio teatral. Dentro, havia um anel de compromisso vagabundo, desses de prateleira promocional.

—Eve. —Ele falou ao microfone com aquele tom conhecido de pena condescendente. —Eu sei que você se arrumou hoje pra fazer birra. Mesmo gaguejando, mesmo não sendo nada sem mim, eu não sou o tipo de cara que abandona alguém que precisa dele.

Risos cruéis se espalharam pela plateia.

—Eu decidi levar você comigo pra Estadual. —Ele abriu os braços, como um deus benevolente concedendo graça. —Sobe aqui. Coloca esse anel. Desde que você peça desculpas e se comporte, ainda pode ficar ao meu lado.

Os colegas do futebol imediatamente explodiram em assobios e uivos, cantando:

—Diz sim! Diz sim!

Sob o olhar triunfante de Carter, todo mundo esperou.

Eles presumiam que, sob uma pressão pública tão esmagadora, eu voltaria ao meu papel—engatinharia até aquele palco com gratidão chorosa e uma humildade patética.

Mas eu não voltei.

Fiquei completamente imóvel, coluna reta, um sorriso de deboche brincando nos meus lábios.

Quando a confusão começou a substituir a presunção nos rostos da plateia, eu caminhei em direção ao palco com passos medidos, deliberados.

Vendo-me me aproximar, os olhos de Carter brilharam com a arrogância de um vencedor. Ele estendeu o anel barato na minha direção.

Eu não peguei.

Em vez disso, diante da escola inteira, abri o zíper da minha clutch preta e tirei um papel dobrado com capricho. Então o desdobrei.

A carta de aprovação da Universidade Columbia. O brasão e o selo vermelho pareciam arder sob as luzes do palco.

—Desculpa. —Estendi a mão, arranquei o microfone da mão de Carter e deixei minha voz atravessar as caixas de som gigantes.

Clara. Fria. Sem uma única gaguejada.

—Eu não vou pra uma estadual qualquer.

—Eu já aceitei a admissão antecipada na Universidade Columbia.

O ginásio inteiro mergulhou num silêncio de morte.

A expressão triunfante de Carter se despedaçou em mil pedaços. As pupilas dele se dilataram violentamente, e o olhar se fixou no papel na minha mão como se ele estivesse encarando algo mortal.

—De onde você tira essa porra— —Ele avançou, tentando arrancar a carta, pânico e fúria se contorcendo nos olhos. —Você se inscreveu pelas minhas costas?! Não tem como você ter entrado em Columbia!

Com as mentiras expostas, a máscara do príncipe do campus finalmente rachou, revelando a criança desequilibrada que acabara de perder o brinquedo favorito.

Eu recuei com suavidade, escapando do agarrão desesperado.

Vendo-o se desmanchar—dignidade destruída, completamente fora de si—eu senti a última sombra se levantar do meu peito.

Ergui o microfone. Meu olhar passou por Chloe, cujo rosto tinha ficado lívido, antes de pousar friamente nas feições contorcidas de Carter.

Cada palavra soou como uma martelada:

—Carter, você nunca planejou ir pra mesma faculdade que eu. Você só queria manter uma gaga sem voz debaixo do seu dedo pra sempre—pra alimentar essa sua viagenzinha de poder patética.

Joguei o microfone de lado.

—Mas eu terminei com os seus joguinhos.

Sem perder o ritmo, virei as costas pra ele e desci do palco.

Eu mal tinha dado um passo quando um rugido enlouquecido rasgou o ginásio, seguido imediatamente por gritos da multidão.

—Sua vadia—você não vai a lugar nenhum!!!

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