Capítulo 5
Ivy
O gelo bate nos altos vitrais da Biblioteca Northvale, mas o calor da lareira impede que o frio entre. Agora que a semana de provas finais acabou, isso significa silêncio. Os milhares de estudantes que antes viviam enterrados nos livros se foram, e a biblioteca está vazia.
Sento atrás do balcão principal, mantendo os olhos no salão. Uma fortaleza de livros que precisam ser guardados me cerca. Eu os escaneio um de cada vez, colocando-os com cuidado no carrinho para serem devolvidos às estantes. Meu celular descarregou há horas, mas mesmo assim mantenho os fones nos ouvidos. Eles me fazem parecer ocupada.
Não os ouço se aproximarem, mas os sinto. O ar muda ao meu redor, e três aromas diferentes se infiltram entre as pilhas de livros. Minha mão para no ar, pairando sobre a capa do próximo livro.
Ergo os olhos.
Cole vem primeiro, com o casaco grosso fechado até a metade e a neve ainda derretendo em seu cabelo. Jaxon se apoia no balcão, usando um moletom preto e luvas de couro, ainda úmido por causa do trajeto de moto. Elias está um pouco atrás deles, com as mãos nos bolsos do casaco de lã cinza-escuro. Seu olhar é frio e indecifrável.
Os três me encaram.
— Posso ajudar vocês? — pergunto, minha voz baixa, mas firme.
Cole sorri de leve.
— Estamos aqui por sua causa.
Jaxon solta um assobio baixo.
— Então é aqui que você se esconde.
Elias não sorri nem um pouco.
— Você está atrasada com seu relatório de química.
Meu pulso martela de um jeito desconfortável.
— Por que vocês estão aqui?
Cole coloca um café sobre o balcão.
— Imaginei que você precisaria de combustível.
Aproximo o copo do nariz. É exatamente o meu pedido.
— Eu não... Como você sabia como eu tomo café?
— Observação — Elias responde, sem expressão.
Olho de um para o outro.
— Observação.
Jaxon contorna o balcão e puxa uma cadeira para se sentar ao meu lado.
— Acho que todos nós somos bons nisso. Você tem esbarrado com todos nós. Já está começando a parecer destino.
Lanço um olhar feio para a proximidade dele.
— Eu não acredito em destino.
— Isso não significa que ele não seja real — diz Cole suavemente.
Agora eles estão perto demais, cercando meu balcão como uma alcateia rodeando o próprio centro. Meus olhos percorrem a biblioteca, procurando alguém, qualquer pessoa que intervenha e os pare, mas está vazia. O calor sobe pelo meu pescoço, e eu me encolho na cadeira.
— Vocês não podem simplesmente entrar aqui — começo. — Eu estou trabalhando.
Jaxon olha em volta pela biblioteca.
— Não tem ninguém aqui.
Meus dedos se fecham em torno do leitor, e lanço um olhar fulminante na direção dele.
— Eu preciso recolocar todos esses livros nas estantes. Estou trabalhando.
Eles trocam um olhar entre si que eu não entendo, então Cole toma a palavra.
— Vou esperar aqui até seu turno acabar e depois vou te levar para casa.
Uma risada nervosa borbulha no meu peito.
— Não vai, não.
Elias se afasta da estante.
— Isso não é opcional, Ivy.
— Escutem aqui — retruco. — Não sei como consegui chamar a atenção de um de vocês, muito menos dos três, mas posso garantir que não estou interessada... em nenhum de vocês.
Jaxon faz cara feia, apoiando os pés sobre a mesa, o que me rende outro olhar fulminante da minha parte. “Eu já te disse, querida. É o destino.”
Dou um tapa na bota dele, tirando-a da mesa, e fecho os punhos ao lado do corpo. “Eu já te disse que não acredito em destino.”
Cole sorri de lado. “Que pena. Nós acreditamos.”
Um gemido de frustração sobe do meu peito enquanto empurro o carrinho de livros que precisam voltar às estantes pelos corredores. Eu tinha alimentado a esperança tola de que eles me deixariam em paz, mas sinto que estão me seguindo. Todos eles. E esses livros pertencem ao fundo da biblioteca, onde as luzes não funcionam.
Olho por cima do ombro e vejo os três andando lado a lado, tornando qualquer fuga impossível. O carrinho bate numa mesa e tomba de lado. “Merda.”
Cole corre para me ajudar, enquanto Elias começa a recolocar os livros nas estantes. Jaxon se senta na mesa, fazendo qualquer coisa, menos ajudar. Seus olhos verdes acompanham cada um dos meus movimentos, e isso me deixa desconfortável. O calor sobe pelo meu pescoço e se instala nas minhas bochechas.
“Você fica fofa quando cora.”
Solto um gritinho diante do elogio. “Ninguém nunca me chamou de fofa antes.”
Jaxon se inclina para mais perto de mim, me cobrindo com sua sombra. “Chamou, sim, só que nunca na sua cara.”
Com os braços cheios de livros, pulo de pé e desapareço entre as estantes. Eu esperava ter um momento para respirar sem eles me encarando, mas acabo batendo direto em Elias. Os livros caem dos meus braços, e eu quase vou junto. Braços fortes envolvem minha cintura, me mantendo em pé.
Meu peito bate contra o dele, e tenho certeza de que minhas bochechas estão em chamas. Apoio as mãos no corpo dele e me afasto. Ele me solta com um brilho de diversão nos olhos.
“Espero que você tenha guardado aqueles direito.” Tento soar irritada, mas me atrapalho com as palavras.
Ele afasta uma mecha de cabelo do meu rosto. “Eu sei ler números.”
“Você não precisa me ajudar”, sussurro. “Eu preciso de alguma coisa para passar o tempo.”
Cole aparece entre as estantes. “Nós gostamos de ajudar.”
“Eu não”, Jaxon grita de algum outro lugar da biblioteca.
Elias, Cole e eu trabalhamos em silêncio até terminar o meu serviço. Murmuro meus agradecimentos várias vezes e imploro que eles vão embora. Quando terminamos, encontro Jaxon sentado à mesa com um livro nas mãos.
“Anatomia de Lobisomens e Humanos”, sussurro ao ler o título.
Ele bate o livro na mesa, e há a imagem de uma mulher nua nas páginas. “Isso aqui não é preciso.”
Arranco o livro das mãos dele. “Posso te garantir que é.”
De brincadeira, ele inclina a cabeça para o lado. “Podemos comparar anotações, se você quiser.”
“Eu não estudo anatomia”, murmuro, estupidamente.
“Ele quer dizer que quer estudar o seu corpo”, Cole diz com um sorriso malicioso junto ao meu ouvido.
“Ah”, sussurro. “AH!”
Elias puxa Jaxon de trás da mesa. “Vamos, garoto apaixonado. Você pode pegar o próximo turno.”
“Próximo turno?”, murmuro enquanto eles passam pelas portas da frente.
“Isso mesmo”, Cole ri. “Você está presa com a gente.”
