Capítulo 1

Uma cólica aguda e retorcida explodiu no fundo do meu baixo-ventre.

Meus dedos se fecharam rígidos na borda do balcão de trabalho de aço inoxidável, os nós dos dedos ficando brancos sob o esforço. Ofegos difíceis rasgavam meu peito enquanto eu lutava para me manter de pé.

—Noah… —soprei, trêmula, a voz fina e frágil.

—Noah, eu preciso ir ao hospital. Agora.

Meu marido estava de costas para mim, inquieto, mexendo no avental para ajustá-lo.

Ao som do meu apelo desesperado, ele se virou num instante, as sobrancelhas se contraindo numa linha tensa e implacável.

Desagrado e impaciência sem disfarce ardiam nos olhos dele, já sem a ternura que um dia reservou só para mim.

—Pelo amor de Deus, Irene. Você está mesmo fazendo essa palhaçada hoje, logo hoje? —ele elevou a voz num brado áspero e irritadiço.

—É o evento de degustação VIP do quinto aniversário do nosso café. Tem jornalistas da Time Out e investidores de três firmas de investimento de primeira linha lá na frente. E você vem me dizer que, de repente, precisa sair correndo pro hospital?

—Noah, eu tô sangrando…

Estendi uma mão trêmula para segurar o antebraço dele, o suor frio brotando na minha testa e pingando no piso de azulejo da cozinha.

Eu estava grávida de oito semanas.

Aquele bebê era o milagre pelo qual a gente tinha doído de tanto desejar, o futuro que sussurramos juntos nos nossos dias mais difíceis.

E, ainda assim, naquele exato segundo, sangue quente e pegajoso escorria pela parte de dentro das minhas coxas, manchando minha roupa e drenando cada gota da minha força.

Noah arrancou o braço do meu aperto com um nojo escancarado.

A força da rejeição me fez cambalear para trás, minha coluna batendo com violência na superfície gelada do freezer industrial.

—Chega, Irene. Larga essa encenação manipuladora de uma vez por todas.

Ele rangeu os dentes, cada palavra impregnada de uma exasperação que fervia por baixo.

—Você só está irritada porque eu coloquei a Selena no comando das relações com a imprensa hoje, aí faz birra pra roubar a atenção. Você está sendo irracional, dramática e completamente sufocante.

—Eu não tô fingindo. Eu tô com dor de verdade, Noah—

—Noah? —Uma voz doce, melosa, cortou minhas súplicas trêmulas antes que eu terminasse.

A porta dos fundos da cozinha se abriu.

Selena entrou ao som do clique dos saltos altos, sem lançar sequer um olhar para minha figura pálida e curvada, encolhida no canto.

Ela foi direto até Noah e estendeu diante dele uma lista de convidados impressa.

—O ex-diretor regional de operações da Blue Bottle Coffee acabou de chegar lá em cima. Ele pediu especificamente pra falar com você sobre a nossa fórmula exclusiva de torra.

Ela ergueu o queixo para ele, o olhar macio e provocante, carregado de uma paixão descarada. —É uma oportunidade incrível de exposição da marca. Você precisa subir agora.

Toda a fúria e irritação no rosto de Noah derreteram num piscar de olhos, substituídas por uma aprovação sem nenhum disfarce.

—Você fez um trabalho excelente, Selena. Eu estaria perdido sem você hoje.

Ele deu um tapinha no ombro dela, elogiando-a, e então me lançou um olhar frio e desdenhoso.

—Para com esse show patético e histérico, Irene. Se recomponha e aguente o evento de hoje. Se você estragar esse momento crucial pra nós, eu nunca vou te perdoar.

E, com isso, ele girou nos calcanhares e seguiu Selena para fora da cozinha dos fundos, sem olhar uma única vez para trás.

A agonia desabou sobre mim em ondas esmagadoras e implacáveis.

Eu mal consigo lembrar como consegui me arrastar pelo chão até o banheiro. Tranquei a porta e desabei, pesada, no assento do vaso.

Uma grande mancha escura de sangue já tinha se espalhado pelo tecido da minha calcinha.

Meu bebê. O futuro com que a gente sonhava acordado, juntos, naquele porão úmido e apertado em Nova York… estava escorrendo pelos meus dedos.

No instante em que o desespero começou a me engolir por inteiro, a voz de Selena atravessou a porta do banheiro, carregada de uma mágoa fingida — alta o bastante para que todo funcionário fumando no corredor próximo ouvisse.

— Eu já estou no limite organizando este evento. Onde é que a Irene se meteu? Mesmo que ela esteja chateada com minhas responsabilidades no trabalho, ela não deveria sumir numa hora tão crítica.

— Deixa ela.

Era a voz de Noah, cortante, encharcada de um desprezo sem freios.

Eu pressionei a mão com força sobre a boca para abafar meus soluços quebrados, apavorada com a ideia de fazer o menor som e chamar a atenção deles.

— Isso é típico dela — Noah zombou, com desdém. — Sempre que eu reconheço a competência de outra mulher no trabalho, ou paro de dar toda a minha atenção só para ela, ela finge que está doente ou dá um escândalo para trazer meu foco de volta.

— Não é a primeira vez que ela faz essa palhaçada egoísta. Ela não passa de uma criança mimada e ciumenta. Deixa ela aí dentro esfriar a cabeça. Não deixa a birra inútil dela estragar a nossa noite, Selena.

Os passos deles foram se afastando aos poucos, até sumirem.

Eu me deixei escorregar contra a parede fria do banheiro, presa dentro da cabine apertada e estéril. A dor aguda no meu abdômen ainda rasgava meu corpo sem misericórdia, mas, comparada à dormência gelada que se espalhava pelo meu coração, a agonia física parecia quase insignificante.

O garoto que tinha envolvido meu corpo com o único casaco de inverno surrado num dia de neve congelante em Queens, o garoto que jurou me proteger de toda dor do mundo, o garoto que sempre ficou firmemente do meu lado acontecesse o que acontecesse — ele tinha sumido.

Ele tinha morrido em algum ponto do caminho, enterrado sob o brilho, a ganância e a vaidade deste mundo materialista.

O Noah que estava diante de mim agora só me via como um obstáculo no caminho do sucesso dele.

O evento finalmente chegou ao fim às oito horas daquela noite. Meu telefone vibrou uma vez dentro da bolsa; uma única mensagem de Noah acendeu a tela.

Pare com esse silêncio infantil. Selena e eu vamos para o after-party entreter clientes. Não me encha com seu dramalhão idiota hoje à noite.

Eu não respondi. Saí do café vazio sozinha e fui direto para o hospital.

A expressão da médica ficou grave no segundo em que terminou de analisar meus exames.

— Srta. Irene, você está com uma ameaça de aborto com sangramento intenso. Devido ao atraso significativo em procurar atendimento médico, sua condição está extremamente instável. Você precisa ser internada imediatamente para preservação da gestação. Em hipótese alguma você pode se esforçar demais ou passar por qualquer tipo de estresse emocional a partir de agora.

Eu encarei o laudo na minha mão trêmula, engolindo o pânico que subia, e disquei o número de Noah.

Um toque. Dois toques. Três toques.

O assinante chamado não está disponível no momento.

Disquei de novo, teimosa e desesperada.

Dessa vez, a ligação finalmente completou.

— Noah—

— Irene, você nunca vai aprender a parar?! — o grito furioso dele atravessou meus ouvidos, duro e implacável.

— Eu estou no meio de uma reunião com investidores! Dá pra você, pelo menos uma vez, agir como alguém da sua idade? Para de grudar em mim como uma sanguessuga e estragar cada momento importante da minha carreira!

Bip — Bip — Bip —

A chamada caiu sem a menor hesitação.

A luz branca e áspera dos fluorescentes inundava o corredor silencioso do hospital. Pela primeira vez naquela noite, eu me vi completamente incapaz de chorar.

Dobrei o laudo com cuidado e o guardei de volta na bolsa, afundando num silêncio oco e anestesiante.

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