Capítulo 3
Eu puxei todos os demonstrativos financeiros e registros de transações dos últimos seis meses.
Não demorei para desenterrar assinaturas de aprovação descaradamente falsificadas, espalhadas por dezenas de contas.
Aquelas taxas de serviço vagas, supostamente destinadas a serem repassadas aos nossos fornecedores oficiais, tinham um detalhe assustador em comum.
Cada pagamento, sem exceção, depois de quicar por uma sequência de canais intermediários, acabava caindo numa única conta pessoal — uma conta bancária do Wells Fargo registrada exclusivamente no nome de Selena.
Aquilo nunca foi uma série de erros descuidados no trabalho.
Ela estava lavando dinheiro bem debaixo do nosso nariz, sangrando o nosso café aos poucos, de dentro para fora.
— Que diabos você está fazendo acordada a essa hora, curvada sobre o notebook como um fantasma vingativo?
A porta do escritório fez um clique antes de bater com força, trancada por fora. Selena ficou imóvel na entrada.
A iluminação fraca do teto distorcia seus traços normalmente impecáveis, transformando-os em algo sombrio e ameaçador. Ela claramente tinha vindo confiscar e destruir os recibos originais em papel, só para dar de cara comigo.
— Você tem uma coragem e tanto, Selena.
Meu olhar permaneceu preso aos registros de transações condenatórios iluminando a tela, frio e inflexível.
— Quase quinze mil dólares em taxas de consultoria falsificadas todos os meses, somadas a propinas que você extorquiu dos nossos fornecedores abusando do seu cargo. A prova que eu tenho agora é mais do que suficiente para trancar você numa prisão federal no Estado de Nova York por anos.
Para meu choque absoluto, Selena não demonstrou o menor sinal de pânico.
Ela soltou uma risada aguda e debochada, avançando em dois passos rápidos antes de bater o palmão e fechar meu notebook com força.
— Vai lá e conta pro Noah. Por favor.
Ela se inclinou, os olhos transbordando desprezo sem freio.
— Você acha mesmo que ele vai acreditar na mulher histérica e envelhecida dele — a mulher que fingiu doença pra roubar a cena no nosso quinto aniversário — ou na assistente perfeita, que resolve todos os problemas dele sem reclamar? Você é patética, Irene. Ainda não entendeu? O Noah se cansou da sua mentalidade mesquinha e do seu controle sufocante faz tempo.
— Sai da minha frente.
Estendi a mão para pegar meu notebook de volta. Eu não podia deixar que ela apagasse os backups locais das minhas provas, não depois de tudo o que eu tinha aguentado.
— Me entrega esse computador, sua vadia insana!
Uma disputa brutal começou entre nós na escada estreita.
Meus dedos tinham acabado de se fechar com firmeza na borda do notebook, pronta para arrancá-lo, quando um brilho cruel e assassino atravessou os olhos de Selena.
— Se você está tão determinada a se afundar na miséria, eu vou te fazer um favor e te libertar de vez.
Ela ergueu as duas mãos e empurrou meus ombros com toda a força que tinha.
A ausência de peso me atingiu num instante.
Fui arremessada para trás, rolando sem controle pela escada de concreto.
Um baque nauseante ecoou pelo vão da escada quando meu abdômen colidiu brutalmente com a quina afiada do patamar.
Um grito cru, agonizante, rasgou a minha garganta.
Um líquido quente e espesso encharcou o tecido da minha calça em segundos, escorrendo pelas minhas coxas e se juntando numa poça aterradora, vermelho-escura, sobre o chão gelado.
Um lampejo de pânico cruzou o rosto de Selena por um breve segundo.
Mas a hesitação desapareceu quase imediatamente. Ela apertou meu laptop com força contra o peito e fugiu pela saída dos fundos sem olhar para trás nem uma única vez.
—Por favor… alguém me ajuda… —Desabei, fraca, dentro da poça crescente do meu próprio sangue, com os dedos tremendo enquanto eu tentava discar o 911.
As sirenes estridentes de uma ambulância cortaram o silêncio da noite.
Naquela noite, eu fui privada do meu direito de me tornar mãe.
—Sra. Irene, eu sinto muito.
A voz da enfermeira estava carregada de compaixão genuína enquanto ela fechava com cuidado o prontuário em suas mãos. —Devido ao trauma externo grave e à perda crítica de sangue, não conseguimos salvar o seu bebê.
Fiquei imóvel na cama gelada do hospital, encarando sem expressão o teto branco e estéril.
Não houve lágrimas, nem crises histéricas, nem aquela vontade desesperada de ligar para Noah em busca de consolo, como eu fazia todas as vezes em que me machucava no passado.
Meu coração ainda batia firme no peito, mas a velha Irene — a mulher que amara Noah com cada fibra do próprio ser, que se rebaixara até virar pó só para continuar ao lado dele — morreu junto com meu filho que nem chegou a nascer.
Três dias depois, ignorei as ordens rígidas do médico de repouso absoluto e recebi alta por conta própria.
De volta ao apartamento, confrontei cada documento de compras, cada fatura mensal de consultoria de marca e todos os registros de transferência de capital, públicos e privados, do último ano.
Vasculhei intermináveis arquivos de conversas do WhatsApp e tirei capturas de tela irrefutáveis provando que Selena vinha aceitando propinas ilegais da Summit Bakery Equipment havia meses.
Reuni tudo — o contrato de sociedade fundador, assinado por mim e Noah; as plantas originais do design das lojas das três unidades de Manhattan; as fórmulas exclusivas de curva de temperatura das nossas misturas de café exclusivas; e cada registro de fluxo de capital ligado ao café — antes de fazer backup de todos os arquivos num HD portátil criptografado.
Cada prova em minha posse era uma lâmina afiada, forjada para cortar cada fio que me prendia ao meu passado.
Eram onze horas da noite quando ouvi a fechadura da porta da frente girar e se abrir.
Noah tinha voltado para casa excepcionalmente cedo.
Ele afrouxou a gravata amarrotada, com o cheiro persistente de uísque e de um perfume caro impregnado na roupa.
Ficou imóvel por um breve segundo ao me ver sentada em silêncio no sofá, tomando café preto e amargo, antes de as sobrancelhas se juntarem naquele franzir irritado, tão familiar.
— Até quando você pretende arrastar essa palhaçada de bancar a vítima?
Ele jogou o paletó do terno sobre o encosto de uma cadeira da sala de jantar, com a voz afiada e acusatória.
— Eu fiquei soterrado de trabalho nesses últimos dias enquanto a Selena sai por aí apagando incêndio atrás de incêndio na loja. Enquanto isso, você se enfia nesse apartamento e fica fazendo birra no silêncio. Por que você está tão fria e distante de repente? Você realmente espera que eu me ajoelhe e implore pra você parar com esse drama interminável e exaustivo?
Eu permaneci envolta nas sombras, observando o homem por quem eu um dia havia sacrificado metade da minha vida.
Ele não percebeu minha palidez cadavérica, nem o leve cheiro permanente de desinfetante hospitalar preso à minha pele, nem o vazio irreversível enterrado no fundo do meu peito. Ele sequer havia notado que eu tinha perdido nosso filho.
Eu me calei e não disse nada.
— Ótimo. Como quiser. Apodreça aqui sozinha, por mim tanto faz.
Meu silêncio inflexível o levou ao limite.
Noah chutou a mesa de centro de madeira num acesso de raiva, pegou as chaves do carro no balcão e bateu a porta de entrada com tanta força que as paredes tremeram, deixando para trás apenas um silêncio ensurdecedor.
Eu ouvi o ronco do motor do carro se afastar lá embaixo, até virar distância, antes de me levantar com calma.
Coloquei o HD criptografado, abarrotado de provas irrefutáveis e de ativos centrais do negócio, do lado dele no criado-mudo compartilhado; em seguida, puxei minha mala de dentro do armário.
Eu estava deixando Noah.
E eu garantiria que cada pessoa que tinha me machucado pagasse suas dívidas com sangue.
Ponto de vista de Noah
No instante em que saí do apartamento feito um furacão, dirigi direto para um bar de charutos privativo no centro.
— Ela só está me manipulando de novo, Liam. Confia em mim, eu já vi essa mesma rotina infantil umas cem vezes.
Virei um copo de uísque de uma vez só, num gole ardido, e joguei a gravata sem cuidado no sofá de couro do lounge, com a frustração fervendo sob a minha pele.
— A Irene virou uma controladora de manual nesses últimos anos. Ela acha mesmo que sair de casa ou me dar gelo vai fazer eu rastejar de volta pra ela como um cachorro desesperado? Isso nunca vai acontecer. Dá, no máximo, três dias, e ela aparece correndo de volta, com os olhos vermelhos e fungando, arrastando a mala pra dentro pela porta da frente.
Liam franziu a testa do outro lado, com um tom sério e preocupado.
—Não tenho tanta certeza, cara. Lá no estande da festa de aniversário outro dia… ela parecia sinceramente doente, do tipo que dá medo. Você tem certeza de que não devia ir pra casa e ver como ela está? Vocês dois construíram aquele café do zero; sobreviveram aos piores tempos, lado a lado.
—Não ouse trazer o passado à tona.
Eu bati meu copo de uísque vazio na mesa, com um estalo seco.
—Ela vem transformando aqueles nossos dias miseráveis numa arma, me chantageando emocionalmente sem parar há anos. A Selena tem toda a operação das lojas completamente sob controle. O café vai continuar rendendo lucro sem a Irene agarrada às rédeas. Já passou da hora de ela encarar a realidade: é ela que vive do meu trabalho duro, não o contrário.
Passei o resto da noite desabado no sofá de hóspedes do Liam.
Na manhã seguinte, empurrei as portas da frente do nosso café principal, esperando plenamente o aroma rico de café torrado e a loja funcionando redondinha, como sempre.
Em vez disso, o que me recebeu foi um caos completo, sem freio.
—Graças a Deus você chegou, chefe! —Benny, nosso supervisor-chefe de turno, veio correndo até mim em pânico, suor brotando na testa.
—Nosso sistema inteiro de ponto de venda caiu. A gente não consegue acessar o backoffice sem as credenciais de administradora da Irene. A escala semanal está uma zona completa, e ninguém tem autorização pra conferir o saldo inicial do caixa hoje de manhã!
Amassei as têmporas latejantes, a irritação aumentando a cada segundo.
—Isso é trabalho básico de operação. Dá um jeito. Liga pra Selena e manda ela entrar com a senha de backup.
—A Selena já está lá na cozinha dos fundos, mas esse nem é o nosso maior problema agora! —a voz do Benny falhou de tanto estresse.
—Nossos grãos premium de café Huila, da Colômbia, não chegaram. É o nosso produto VIP de assinatura, e tem cliente com pedido antecipado marcado pra hoje!
Soltei um xingamento baixo e disquei a linha direta da Apex Resources, nosso fornecedor exclusivo de longa data.
—Escuta aqui, Max.
Minha voz explodiu no telefone, cortante e furiosa.
—Cadê a minha remessa? É assim que você trata seu cliente que mais paga, que deixa dezenas de milhares de dólares na sua empresa todo santo mês?
A resposta gelada e inflexível do Max atravessou minha raiva como uma lâmina.
—Peço desculpas, senhor Noah. Mas recebi um e-mail oficial da senhorita Irene logo cedo, hoje. Ela congelou formalmente todas as linhas de crédito comerciais do seu café junto à nossa empresa. Suas remessas em grande volume funcionam sob condições de pagamento mensal a prazo, e todo contrato vinculante, assim como as credenciais autorizadas de pagamento vinculadas ao número de seguridade social, estão registrados exclusivamente no nome legal da senhorita Irene. Não vamos autorizar que um único grão saia do nosso depósito sem a aprovação dela por escrito, assinada.
A linha caiu.
Naquele único instante, sufocante, a verdade fria finalmente se impôs.
Aquilo já não era mais uma briguinha de amantes.
Irene não ia voltar.
