Capítulo 1
Durante seis anos, vendi meu corpo para clínicas clandestinas como rato de laboratório humano para curar a insuficiência cardíaca do meu filho e pagar as dívidas do meu marido.
Hoje, meu irmão biológico chutou para longe o remédio que comprei com metade da minha vida.
— O Lucas nunca esteve doente. Nós falsificamos os prontuários para te dar uma lição por ter aborrecido a Virginia.
Meu marido entrou na conversa, frio:
— Eu também nunca fui à falência.
Até o filho que eu sangrei para pôr no mundo enfiou algo no meu braço, gritando:
— Uma monstruosidade sanguinária como você não merece ser minha mãe!
Foi aí que eu finalmente entendi: a minha vida inteira tinha sido um golpe meticulosamente arquitetado.
Com meus órgãos falhando rápido e só dez dias de vida, eu me coloquei na beirada da sacada.
— Vocês têm razão — sorri para meu marido e meu irmão, vendo a cor sumir completamente do rosto dos dois. — Seis anos da minha vida não bastam para pedir desculpas a ela.
— Então eu pago vocês com o meu cadáver.
......
Hoje, enfim consegui garantir o remédio milagroso e o último pedaço de dinheiro que faltava para a cirurgia de insuficiência cardíaca do meu filho.
Mas meu irmão, Roman, chutou sem piedade o medicamento que eu protegia com a minha vida.
— O Lucas não tem insuficiência cardíaca. Aqueles prontuários foram falsificados desde o começo. Mandar você para aquela clínica foi só para te dar uma lição. É isso que você ganha por viver fazendo a Virginia chorar.
Meu marido, Killian, acrescentou:
— E, claro, a minha falência também foi uma farsa. Todas as vezes que eu disse que estava me escondendo de cobradores nesses últimos seis anos, era só porque eu não aguentava o fedor de remédio barato e de sangue seco em você.
Fiquei paralisada, sufocando sob uma onda esmagadora de humilhação e de realidade estilhaçada.
Roman pegou o cheque administrativo de duzentos mil dólares — o dinheiro pelo qual eu tinha trocado metade da minha vida — e o rasgou em pedacinhos bem na minha frente.
— E quanto a esse dinheiro... fede a lixo químico e esgoto. Gastar isso só traria má sorte. A gente não encostaria nisso nem a pau.
Uma víbora de gelo se enrolou apertada no meu coração, esmagando até eu não conseguir respirar. Minha mente virou um vazio estrondoso. Por quê? O que eu fiz para merecer isso?
Só algumas horas antes, um médico tinha olhado meus exames e dado a minha sentença de morte. Seis anos servindo como uma placa de Petri humana tinham causado uma falência múltipla de órgãos irreversível, em estágio terminal.
Eu tinha dez dias. A contagem regressiva já tinha começado.
Meu filho doente, Lucas, era a única coisa que me mantinha respirando.
Vendo eu morder o lábio rachado em silêncio pétreo, sangrando, Killian se aproximou. Estendeu a mão e afastou da minha testa uma mecha de cabelo imundo.
— Aprendeu a lição depois de seis anos? Se você se comportar, talvez ainda tenha uma chance de ver o Lucas.
Afastei a mão dele com um tapa.
— Onde está o Lucas?!
Killian alisou o punho do terno, com os olhos mortos e frios.
— Eu providenciei para que ele fosse adotado legalmente pela Virginia.
Senti como se minha garganta estivesse entupida de cimento molhado.
— O quê... do que você está falando?
— O Lucas é meu herdeiro. A Virginia é gentil e elegante. O certo é que ele cresça com ela. Ela é muito mais capaz de ser uma mãe de verdade do que alguma mulher imunda e instável, cheia de marcas de agulha. Não concorda?
O ar travou nos meus pulmões.
Seis anos atrás, eu mal tinha sobrevivido a um acidente de carro horrível, ficando com vários ossos em frangalhos.
Killian tinha ficado ao lado da minha cama no hospital, com os olhos avermelhados, culpando a minha direção imprudente pelo acidente.
Ele afirmou que aquilo tinha resultado em dívidas gigantescas pelos carros destruídos e, pior de tudo, deixado o recém-nascido Lucas com um trauma incurável.
Pelo bem do meu filho moribundo e do meu marido aparentemente devastado, eu reprimi todo instinto de sobrevivência que tinha. Entrei naquelas clínicas infernais para virar uma rata de laboratório, aguentando mais de dois mil dias e noites de agonia.
Mas era tudo mentira.
Empurrada para além do limite do absurdo, eu cheguei a rir. “Se eu repugnava tanto vocês dois... por que não me deixaram morrer na mesa de operação naquela época?”
“Porque a Virginia sempre quis um bebê”, respondeu Roman.
“Mas ela é delicada. Não aguenta uma gota de dor, quanto mais estragar o corpo. Você, por outro lado, cresceu na favela. Tem couro duro. Um fardo miserável como dar à luz só servia pra você.”
“A Virginia já sofreu o bastante. Nós só estamos tentando compensar ela.”
Meus olhos se arregalaram. Eu estava olhando para dois monstros vestidos com ternos sob medida.
Virginia? Sofreu?
Minha mente voltou com violência ao porão da favela onde eu cresci — um buraco escuro fedendo a mofo e ferro enferrujado.
Lembrei da minha mãe adotiva chutando minhas costelas até elas quebrarem, despejando água fervendo direto nas minhas costas nuas.
Toda vez que eu soluçava e implorava por misericórdia, recebia mais xingamentos cruéis. Ela dizia que eu merecia sofrer no lugar da filha biológica dela, que estava por aí vivendo como realeza numa mansão rica.
Um sorriso grotesco e trágico se espalhou pelo meu rosto. Eu rasguei a camisa, expondo um torso deformado por anos de abuso e cicatrizações malfeitas.
“Quem é que sofreu, porra?!” cuspi. “Você jurou de pé junto que nunca mais deixaria ninguém me machucar! É assim que você cumpre a sua promessa?!”
“Cala a boca!”, Roman rugiu, me acertando uma bofetada brutal no rosto.
Meu corpo apodrecido perdeu o equilíbrio na hora. Eu caí para trás, batendo com violência na quina afiada de uma mesa.
“A mãe biológica da Virginia confessou tudo no leito de morte. Você nunca foi abusada um único dia”, rosnou Roman, com os olhos cheios de um nojo venenoso. “Essas cicatrizes horríveis são de você se prostituindo com canalhas por trocados!”
Meus pais biológicos, que tinham acabado de chegar à porta, observavam com uma frieza distante.
“Crescer naquele lixão de baixa classe claramente fez dela uma mentirosa compulsiva. O Lucas seria amaldiçoado por oito vidas se ficasse com ela. Tirar ele foi a decisão certa. Uma mentirosa defeituosa e doentia como você não tem o direito de criar uma criança”, disse minha mãe, balançando a cabeça com repulsa.
O sangue subiu à minha cabeça, martelando contra o crânio. Encarei com ódio assassino as pessoas que deveriam ser minha família.
“Eu não tenho o direito?! Ele é meu próprio sangue! A filha de traficantes de gente roubou a minha vida, e agora quer roubar o meu filho?! Vocês não têm medo de aquela puta maldita queimar no inferno?!”
“Eu mandei você calar a boca!”
Os olhos de Roman escureceram até um ponto assustador.
“Como você ousa dizer uma coisa dessas? Você tem noção de como partiria o coração da Virginia ouvir essa imundície?”
Ele cobriu a distância em duas passadas enormes, me agarrando e me erguendo como uma boneca de pano quebrada.
“Parece que seis anos na sarjeta ainda não foram suficientes para te ensinar a se comportar.”
