Capítulo 2

Roman me empurrou para dentro do depósito apertado.

A porta bateu, fechando com força.

A luz se apagou. A escuridão desabou sobre mim. A asfixia apertou o cerco em torno da minha garganta.

Pesadelos da clínica subterrânea inundaram minha cabeça.

Para testar os limites humanos sob terror extremo, uma vez tinham me enterrado viva.

Amarraram minhas mãos e me chutaram para dentro de uma cova. Pá após pá de terra pesada se espatifou no meu rosto e no meu corpo.

A lama se enfiou no meu nariz e na minha garganta.

Meus pulmões pareciam rasgados. Na escuridão absoluta, eu sentia a terra devorar o calor do meu corpo. Eu estava sufocando, incapaz sequer de soltar um grito.

A claustrofobia me estrangulava desde então. No instante em que eu mergulhava num espaço sem a menor luz, a sensação de morte iminente me despedaçava.

— Abra a porta! Por favor, Roman!

Eu me atirei contra a porta, arranhando a madeira com as unhas. Arranhei até as unhas dos dez dedos levantarem, racharem e quebrarem.

Gritei até minha voz se partir em arfadas roucas.

Uma hora depois, a porta foi aberta.

A luz atravessou meus olhos. Roman estava no batente, olhando para baixo, para mim.

— Já terminou de bancar a vítima?

Eu me arrastei para a frente, agarrando a barra da calça dele.

— Não me tranque de novo... eu vou morrer...

— Para com essa encenação. — Ele chutou minha mão para longe.

— Naqueles seis anos, fui eu quem escolheu pessoalmente e supervisionou cada teste de drogas. Era só para domar esse seu temperamento. Nunca ia te matar.

Um zumbido explodiu nos meus ouvidos.

Meus lábios rachados tremeram, com gosto de sangue na garganta.

— Você... armou tudo?

Extrair medula óssea sem anestesia. Vomitar sangue preto por rejeição aos remédios. Ser injetada com toxinas incompatíveis, convulsionar no gelo até quebrar os próprios molares... tudo pelas mãos do meu próprio irmão?

Roman não demonstrou culpa.

— Se eu não tivesse feito você sentir dor de verdade pra aprender empatia, que direito você teria de voltar para esta família?

Killian apareceu.

— Você vai ao baile beneficente da Virginia hoje à noite. Vai esclarecer em público que roubou a identidade dela e, depois, vai gerar um filho para ela, e eu vou te dar o casamento do século.

O casamento do século.

O voto que um dia me manteve de pé agora era uma isca para arrancar até a última gota do meu valor.

Uma fisgada aguda no coração me lembrou do diagnóstico final — este corpo quebrado só aguentaria mais dez dias.

Engoli o sangue na boca, empurrando o desespero para baixo. Forcei um sorriso.

— Tá bem.

...

Três horas depois, no baile beneficente.

No instante em que pisei lá dentro, dezenas de microfones e câmeras foram enfiados na minha cara, como canos de arma.

Virginia se aproximou, enlaçou o braço no meu e empurrou um pedaço de papel na palma da minha mão.

— Leia — ela sussurrou, mantendo o sorriso impecável.

Lancei um olhar para as palavras forjadas:

Eu nunca fui sequestrada. Acabei nas favelas por causa do meu vício em drogas.

Virginia é a verdadeira herdeira. Eu roubei a identidade dela por dinheiro.

Movida por ciúme, eu a difamei, e hoje imploro seu perdão.

Cerrei o punho e, bem na frente das câmeras, rasguei o papel em pedacinhos.

— Por que eu deveria admitir coisas que eu nunca fiz?

— Roubar minha identidade por vinte anos não foi o bastante? Agora você faz pose de vítima enquanto rouba meu marido e meu filho!

Depois de um segundo de silêncio mortal, a mídia entrou em ebulição. Os flashes estouraram como rajadas de metralhadora.

Os olhos de Virginia se encheram de lágrimas. Mordendo o lábio numa aflição fingida, ela puxou um documento de dentro da clutch.

— Irmã, por que você me difamaria? — ela espremeu uma lágrima para as câmeras. — Eu sou a esposa legal do Killian.

Killian deu um passo à frente, passando o braço em volta de Virginia.

— Nós finalizamos o casamento. Você roubou a vida dela. É justo que Virginia se torne a mãe dessa criança.

Roman se moveu para bloquear Virginia do meu campo de visão.

— Pedimos desculpas, imprensa. Octavia sofreu danos cerebrais por abuso de drogas. Ela tem paranoia severa. Isso não passa dos delírios de uma paciente psiquiátrica.

Drogada. Psicopata.

Os olhares da elite mudaram. Eles cobriram o nariz, me encarando como se eu fosse carne apodrecida.

— Não maltratem a minha mãe!

Uma figurinha pequena irrompeu do meio da multidão.

Lucas ergueu o carrinho de brinquedo que tinha nas mãos e o estourou contra o meu rosto.

As bordas afiadas rasgaram minha bochecha. Sangue quente escorreu do osso acima da sobrancelha até o chão.

Bastou um olhar para reconhecê-lo.

A criança por quem eu tinha sangrado até quase morrer na mesa de cirurgia. Aquela que eu arrisquei a vida para colocar no mundo.

Eu tremia, estendendo a mão para ele.

— Lucas... eu sou a sua...

Antes que meus dedos pudessem tocá-lo, uma mão agarrou meu ombro.

Roman torceu meu braço e me puxou para trás, me afastando de Lucas à força.

Um celular foi enfiado na minha cara.

Na tela, passava um vídeo da clínica clandestina — quando me obrigaram a testar afrodisíacos, imobilizada no chão imundo, violentada por um grupo de homens.

— Diga mais uma palavra e eu ponho isso na tela principal — Roman rosnou. — Se o Lucas vir que você não passa de um lixo imundo, feito para os homens usarem, não ia ficar com nojo até o estômago embrulhar?

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