Capítulo 3

Virei o rosto e vomitei uma bocada de sangue preto, meus dedos se cravando com crueldade na gola de Roman.

—Você sabe o que eles fizeram comigo. Presa na mesa naquela clínica subterrânea... você sabia!

—Chega. Poupe-me das lágrimas. —Roman afastou minha mão com nojo.

—Eu paguei aqueles ratos de rua. Era só pra te dar uma lição, pra te mostrar o seu lugar. Eles não teriam a coragem de encostar um dedo em você de verdade.

Ele olhou para mim de cima.

—A Virginia cuidou do Lucas por seis anos. Que porra é essa com você? Bancando a vítima só pra expulsar ela?

Eu congelei. Uma agonia letal e retorcida irradiava dos órgãos corroídos por anos de testes químicos.

Este corpo está falhando, percebi. Logo vou estar livre.

Antes que eu sequer conseguisse engolir o sangue na boca, uma mão puxou meus cabelos com violência por trás.

—Viciada destruidora de lares!

Um bando de socialites veio em cima de mim, os saltos agulha estalando secos. Uma chuva de tapas acertou meu rosto, abrindo meu lábio na hora.

A testa de Roman se franziu. Ele deu meio passo à frente.

—Roman... —Virginia choramingou, de repente cambaleando contra a parede e fingindo cair. As lágrimas se juntaram nos olhos dela. —Tem gente demais aqui...

Killian não hesitou nem um segundo. Virou-se na hora e envolveu Virginia com os braços, protegendo-a.

Olhando por cima da multidão, ele me lançou um olhar frio e desdenhoso.

—Deixa elas descarregarem um pouco. Você não vai morrer. Considere isso o preço por fazer escândalo no banquete.

Roman hesitou antes de pegar Virginia no colo e sair a passos largos sem olhar para trás.

Meus pais correram atrás deles.

A última barreira de proteção à minha frente tinha sumido. No instante em que eles saíram do corredor, um salto agulha se cravou sem piedade no meu estômago.

O que restava dos meus órgãos em falência finalmente se rompeu. Sangue escuro jorrou debaixo de mim, encharcando o carpete depressa.

Eu me encolhi em posição fetal, vomitando coágulos de sangue preto. Por dentro, eu me sentia como se minhas entranhas tivessem sido jogadas num moedor de carne industrial.

De algum jeito, me arrastei de volta até a cobertura, deixando um rastro de sangue pelo caminho.

Roman e Killian estavam em volta de Virginia, pegando água para ela e enxugando seu rosto.

Ao me verem pingando sangue e vísceras, os dois fecharam a cara na mesma hora.

—Pra quem você está fazendo esse show nojento? —Roman rosnou.

Killian puxou a gravata, profundamente irritado.

—Se você não tivesse encurralado ela na gala, ela não teria sido obrigada a mostrar a certidão de casamento. Vai lá e pede desculpas pra ela.

A agonia nos meus órgãos morrendo fazia cada passo parecer uma caminhada sobre vidro quebrado. Eu nem tinha energia para discutir.

Virginia deu um passo à frente e enfiou os dedos no meu braço ferido.

—Irmã, meu Deus, como você se machucou tanto? A culpa é toda minha, eu nunca devia ter mostrado a certidão pra eles...

Ela se inclinou, abaixando a voz num sussurro cruel que só eu podia ouvir.

—Aquele idiota que você pariu agora só me reconhece. Sabe o que ele disse hoje? Disse que o fedor do seu sangue imundo dá vontade de vomitar.

O último fio da minha sanidade se rompeu.

Eu ergui minha mão trêmula e ensanguentada. Mas antes mesmo de encostar nela—

Virginia soltou um grito de gelar o sangue e se jogou para trás, caindo com força no chão e agarrando a barriga numa falsa agonia.

Roman avançou. Quando foi ajudá-la a se levantar, desferiu um golpe brutal, de costas da mão, direto no meu rosto.

Os olhos dele estavam gelados. “Quando é que você vai parar com essa merda infantil?! Quando é que isso vai ser o bastante pra você?”

A força do golpe virou minha cabeça para o lado.

“Não encosta na minha mamãe!”

Lucas disparou para fora como um bichinho enfurecido. Pegou uma faca de frutas e enfiou com tudo no meu antebraço.

Ele puxou a lâmina, espirrando sangue. O rosto dele ficou branco feito papel de choque, mas ele não recuou, me encarando com raiva.

O ferimento superficial não era nada comparado à agonia dos meus órgãos morrendo. Mas, naquele instante, foi como se tivessem arrancado meu coração do peito com uma colher.

Estendi a mão até ele, tremendo. “Lucas... e se eu te dissesse... que a sua mãe de verdade... sou eu?”

Antes que as palavras saíssem por completo da minha boca, Killian atacou.

Ele me agarrou pela gola e me arremessou com violência para trás, contra o aparador.

“Que tipo de merda de psicopata você tá falando na frente do meu filho?!” ele rugiu, avançando para cima de mim com olhos assassinos. “Cala essa boca do caralho!”

Lucas gritou, estridente: “Você acha que um monstro fedido e ensanguentado como você merece ser minha mãe?! Se você fosse mesmo minha mãe, eu preferia morrer!”

A última centelha de luz dentro de mim tremeluzia… e se apagou de vez.

Roman tirou o celular e deu play num vídeo.

“Peça desculpas pra Virginia e grave um vídeo limpando o nome dela.”

Ele empurrou a tela na minha cara. “Ou eu juro por Deus que vou mostrar pro Lucas que tipo de lixo barato você realmente é.”

Olhei para baixo enquanto as lágrimas se misturavam ao sangue que pingava do meu queixo. E então… eu ri.

“Você não precisa mais me ameaçar. Eu vou postar pra você.”

Apertei o botão “Enviar” com o polegar.

Roman congelou, como se tivesse dado curto-circuito.

Empurrando-o de lado, me virei e caminhei direto até a varanda.

Passei por cima do parapeito.

O pânico puro finalmente alcançou Killian.

“Octavia, que porra você tá fazendo?!” ele gritou, toda a cor sumindo do rosto enquanto dava um passo cauteloso à frente.

“Desce daí! Eu te dou qualquer coisa que você quiser — dinheiro, as coberturas, as ações! Só para de me assustar!”

“Ela só tá tentando assustar a gente!”, Roman berrou, me fuzilando com o olhar. “Ela sabe que a gente se importa com ela, então tá fazendo esse teatrinho! É encenação! Desce essa porra daí e pede desculpa pra Virginia!”

O último vestígio de calor abandonou meu corpo. Era hora.

Olhei para o meu marido, para o meu irmão biológico e para a criança por quem eu tinha sacrificado a minha vida.

“Você tem razão.” O vento cortante do inverno invadiu meus pulmões que já falhavam, mas minha voz estava assustadoramente calma. “Seis anos da minha vida… meu próprio filho… este corpo arruinado, apodrecendo… Realmente não é o bastante pra compensar o que eu supostamente fiz com ela.”

Killian enfim leu, nos meus olhos, aquela finalidade absoluta e oca. Horrorizado, ele se lançou para a frente. “NÃO—!”

“Então acho que vou ter que pagar pra ela com a minha vida também.”

Um segundo antes de as pontas dos dedos dele roçarem minhas roupas, eu sorri e me deixei cair de costas na escuridão.

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