Capítulo 3 Antes que ela desaparecesse
Chloe mordeu o próprio polegar, lutando contra a vontade de desabar.
— Senhora, a senhora está bem? — perguntou o policial Samuel, com gentileza.
Chloe baixou a mão na mesma hora e assentiu depressa demais.
— Estou bem.
Ela não estava bem.
Mas, se se deixasse chorar agora, tinha medo de nunca mais conseguir parar.
— Certo — disse Samuel. — Vamos entrar em contato com a sua família.
Chloe assentiu de novo.
— A senhora está com um documento de identidade?
— Sim. — Os dedos dela tremiam enquanto revirava a bolsa. Por fim, puxou sua identidade estadual e entregou a ele.
Samuel pegou o documento, digitou o número no sistema e então tornou a olhar para ela. A expressão dele mudou sutilmente.
— Seu documento foi cancelado.
Chloe encarou-o, sem expressão.
— Cancelado? O que isso quer dizer?
A voz de Samuel continuou paciente.
— Normalmente, quando uma pessoa desaparecida fica anos sumida, a família pode solicitar uma declaração legal de morte. Quando isso acontece, os documentos de identificação dessa pessoa são anulados.
Por um segundo, Chloe se esqueceu de respirar.
Declarada morta.
A garganta dela se fechou com violência. Ela cerrou os dentes, segurando as lágrimas ardendo atrás dos olhos.
— Como… — A voz tremeu. — Como alguém pôde me declarar morta?
— É um processo legal — disse Samuel, mais baixo. — Se alguém estiver desaparecido há sete anos sem nenhum contato, a família pode pedir ao tribunal uma presunção de morte. Isso não significa que deixaram de se importar. É só um procedimento.
Chloe fungou com força e assentiu.
Procedimento.
Que palavra fria.
— Você se lembra de algum número de telefone? — ele perguntou.
— Sim. Sim, eu me lembro de vários. — As palavras saíram depressa demais. — O telefone de casa. O celular do meu pai. O da minha mãe também. Eu sei de cor.
Samuel discou um por um.
Fora de serviço.
Fora de serviço.
Número inexistente.
Cada sinal morto atravessava o peito dela como uma facada.
Chloe agarrou a borda da mesa até os dedos ficarem dormentes. Por que nenhum funcionava? Como era possível nenhum deles funcionar?
Vinte e três anos.
O número pressionava o crânio dela como uma febre.
Vendo o pânico se espalhar pelo rosto de Chloe, Samuel interveio com suavidade.
— Por enquanto, esqueça os números dos seus pais. Tente parentes mais jovens. Ou alguém próximo a você.
Chloe engoliu em seco.
Então, com uma urgência repentina, ela ergueu a cabeça.
— Meu marido — disse. — Eu me lembro do número do meu marido.
Pela primeira vez desde que acordara, a esperança cintilou nos olhos dela.
Ela deu a Samuel o número de Nathan de memória, cada dígito gravado tão fundo na mente que ela seria capaz de recitá-lo dormindo.
Samuel discou.
Chloe parou de respirar.
Um toque.
As mãos dela se fecharam em punhos.
Dois toques.
Os ombros começaram a tremer.
Três.
Por favor, atende.
Quatro.
Bem quando o coração dela despencou—
— Alô.
Uma voz masculina veio pelo telefone.
Grave. Nítida. Calma.
Chloe se endireitou tão rápido que a cadeira arranhou o chão.
Lágrimas rolaram pelas bochechas dela.
Ela encarou o telefone na mão de Samuel como se pudesse enxergar através dele.
Era o Nathan?
Ela tinha falado com ele por mais de uma hora na noite anterior. Conhecia aquela voz melhor do que o próprio batimento do coração.
E, ainda assim—
Vinte e três anos eram tempo suficiente para mudar qualquer coisa.
Samuel também se endireitou, visivelmente aliviado por finalmente ter conseguido falar com alguém.
— Alô. Posso perguntar se este é o Nathan?
— Sim.
Só isso bastou.
Chloe sentiu o ar voltar aos pulmões com tanta força que quase doeu.
Era ele.
Era o Nathan.
Samuel olhou para ela e fez um pequeno aceno encorajador antes de falar ao telefone de novo:
— Olá, senhor. Aqui é o policial Samuel Whitaker, do Departamento de Polícia de Chicago. Sua esposa, Chloe, está no Northwestern Memorial Hospital. Ela precisa que o senhor venha buscá-la.
Silêncio.
Um instante longo demais.
Então, do outro lado, o homem disse:
— O que foi que o senhor disse?
— Sua esposa, Chloe, está aqui no Northwestern Memorial Hospital — repetiu Samuel, com cuidado. Ele explicou rapidamente a situação, acrescentou que não era um golpe, deu o endereço e pediu que ele viesse o mais rápido possível.
O homem ao telefone se manteve controlado. Quieto. Quieto demais, quase.
Então disse que viria imediatamente.
Samuel soltou o ar e encerrou a chamada.
Ergueu os olhos para Chloe, com alívio evidente.
— Parabéns. Você foi a primeira hoje à noite a conseguir falar com a família.
— Obrigada — disse Chloe, na mesma hora.
A voz dela falhou nas palavras.
— Muito obrigada.
Ela se levantou rápido demais, inclinou-se para ele e então se afastou, cedendo o lugar para a próxima pessoa.
Perto da porta, afundou numa cadeira e esfregou com força as pernas com as duas mãos, tentando parar o tremor.
Ela tinha encontrado ele.
Graças a Deus.
Graças a Deus.
Ao redor, a sala de conferências continuava pesada de luto.
Ninguém mais parecia ter a sorte que ela tivera.
Alguns passageiros ficavam encolhidos nos cantos, chorando baixinho. Outros continuavam pressionando os assistentes sociais por mais uma ligação, mais um número, mais uma tentativa. Um homem de meia-idade de repente avançou sobre o motorista, xingando-o por ter seguido uma rota sem licença e culpando-o por tudo. Foi preciso separar os dois.
Depois do surto, o homem desabou no chão e começou a soluçar sem esconder.
Um instante depois, o motorista também começou a chorar.
A sala inteira parecia densa de medo e desgraça.
Chloe mal conseguia suportar.
Tudo o que ela queria agora era ver Nathan.
Ela empurrou a porta da sala de conferências e entrou no corredor ao lado dos elevadores. Então ficou ali, os olhos fixos nas portas, esperando.
Os minutos passaram.
Ou talvez mais do que isso.
Ela não tinha ideia.
Por fim, o elevador soou.
As portas se abriram, deslizando.
Uma multidão saiu primeiro — médicos, enfermeiros, uma mulher empurrando um carrinho, duas pessoas conversando enquanto andavam. E então, atrás deles, um homem saiu.
Alto.
De postura ereta.
Vestido de preto.
Alguma coisa no peito de Chloe deu um solavanco.
Ele se destacava na hora, mesmo no meio da multidão.
Os olhos dela se iluminaram. Ela se inclinou para a frente, tentando ver o rosto dele, mas as pessoas continuavam passando entre os dois. Tudo o que ela pegou foi o perfil — definido, bonito, composto — e a linha escura de um terno bem cortado.
Ele não viu Chloe.
Passou direto, apressado e seguro, como se já soubesse exatamente aonde estava indo.
Chloe se virou e foi atrás.
No começo, ela só queria olhar mais de perto.
Depois, a cada passo, o coração batia mais rápido.
Ele parecia familiar.
E não parecia.
Quando ele chegou à sala de conferências, Chloe já tinha diminuído o passo sem perceber.
O homem parou diante do oficial Samuel.
— Olá — disse ele. — Eu sou Nathan. O senhor me ligou mais cedo. Vim buscar a Chloe.
Samuel ergueu os olhos na mesma hora.
— Chloe.
Apontou para a entrada.
— Ela está bem atrás de você.
O homem juntou as mãos por um instante, como se estivesse se firmando.
Então se virou.
Chloe finalmente viu o rosto dele.
E congelou.
Era Nathan.
Mas não o Nathan que ela conhecia.
O Nathan da lembrança dela nunca tinha usado óculos. Ele era só sol e juventude — olhos brilhantes, sorrisos fáceis, moletons largos, calor transbordando dele sem esforço.
O homem diante dela agora usava um terno sob medida e óculos de armação fina. Mantinha a postura ereta, a expressão controlada, toda a presença fria e contida.
O Nathan de antes sorria com o rosto inteiro, aberto, vivo.
Este mantinha os lábios comprimidos, o olhar indecifrável por trás das lentes.
O Nathan de antes era viçoso e vibrante, brilhando de saúde e energia inquieta.
Este parecia pálido, controlado e distante — como se o tempo tivesse lixado toda aresta macia e deixado apenas algo polido, severo e intocável.
Chloe parou onde estava.
Só conseguiu encará-lo, desamparada.
O dia inteiro já tinha parecido um sonho grotesco.
Mas aquilo—
Aquele foi o primeiro momento em que realmente caiu a ficha.
Ela tinha encontrado Nathan.
E ele era um estranho.
Por um instante, nenhum dos dois se mexeu.
Então Nathan falou primeiro.
— Chloe Frost?
Ele usou o nome completo dela. Havia um traço de incerteza no tom.
Os dedos de Chloe se apertaram na alça da bolsa.
— Uhum. — Ela se obrigou a erguer a mão de leve. — Nathan.
O olhar dele ficou no rosto dela, composto e ilegível, como se estivesse diante de um milagre e de um problema ao mesmo tempo.
O silêncio se estendeu até que o oficial Samuel interveio, misericordiosamente prático.
Ele conferiu as anotações à sua frente e estendeu vários formulários.
— Você é o Nathan?
Nathan assentiu.
— Sou.
— Qual é a sua relação com a Chloe?
Nathan hesitou.
Só por uma fração de segundo.
Mas Chloe ouviu aquela pausa mais alto do que tinha ouvido o estrondo.
Então ele respondeu:
— Antes de ela desaparecer, nós éramos casados.
