Capítulo 4 O marido estranho

Antes.

A palavra ficou ali, mais fria do que o ar do hospital.

Chloe tinha atravessado vinte e três anos numa única tarde, só para descobrir que Nathan a colocara do outro lado de uma frase.

Antes de a vida que eles tinham construído desmoronar sem a permissão dela.

Antes de ele ter vivido sem ela.

Antes de qualquer vida que tivesse vindo depois.

Chloe olhou para ele, cortante.

Aquelas palavras pesaram mais do que qualquer outra coisa.

Samuel alternou o olhar entre os dois e então disse, de modo pragmático:

— Venham assinar estes papéis. Aí você pode levá-la.

— Certo.

Nathan reprimiu as perguntas que se amontoavam na sua mente — perguntas sobre onde ela estivera pelos últimos vinte e três anos.

A polícia já o havia informado antes de ele chegar. Ele até tinha conferido as notícias.

Mas só quando a viu — igual, intocada pelo tempo — é que acreditou de verdade.

Ele se voltou para Chloe, num tom educado.

— Espere aqui um instante.

Chloe assentiu.

— Tá.

Ele acompanhou o policial Samuel por alguns passos e então olhou para trás, ainda inquieto.

— Não saia andando por aí.

— …Tá bom.

— Aqui, aqui e aqui — instruiu o policial Samuel.

Nathan assinou cada formulário com eficiência.

— Mantenha seu celular por perto. Talvez precisemos falar com o senhor depois — acrescentou o policial. — Aqui está o documento temporário dela do estado. Guarde com cuidado. Vamos avisar em alguns dias sobre os documentos oficiais.

— Se estiver tudo em ordem, o senhor está liberado para ir.

— Obrigado.

Nathan pegou o documento temporário de Chloe e guardou.

Então voltou até ela, pegou a mala e disse apenas:

— Vamos.

Chloe foi ao lado dele, a mão pairando perto da mala.

Ela hesitou.

Algo que antes parecia natural agora parecia… invasivo.

Eles caminharam em silêncio até a entrada do hospital.

Na porta, Nathan parou.

Tirou o celular e mandou uma mensagem de voz.

Depois se virou para ela.

— Espere um pouco. Eu não achei vaga antes, então pedi para o motorista ficar rodando. Ele deve chegar já.

— Ok.

Chloe lançou um olhar para ele.

Parece que ele está bem… Agora até tem chofer.

Naquela época, eles iam a pé para todo lado ou pegavam o metrô.

Ele nem cogitava comprar um carro barato — insistia em guardar dinheiro para uma casa.

Nathan segurava o celular como se fosse um rádio comunicador, falando em termos curtos e profissionais.

Chloe não entendia a maior parte.

Ela se sentiu… de fora.

Ergueu o olhar.

As ruas eram desconhecidas. Prédios enormes, trânsito interminável, uma cidade que ela já não reconhecia.

Não era só Nathan que parecia um estranho.

Ela se virou na direção do corredor escuro do hospital.

As pessoas lá dentro eram como ela.

Quando ela saiu, todas a olharam com inveja.

Ela tinha sorte.

Pelo menos alguém tinha vindo buscá-la.

Nesse mundo estranho, ela ainda tinha para onde ir.

Nesse instante, um sedã preto encostou bem em frente a eles.

Chloe não reconheceu o carro, mas o emblema com um “B” alado lhe chamou a atenção.

— Minhas desculpas, professor Nathan, por fazê-lo esperar.

— Sem problema.

Nathan abriu a porta para ela.

— Entra.

Chloe parou.

O homem à sua frente — de terno sob medida, movimentos firmes e seguros — parecia outra pessoa por completo.

Ainda mais em comparação com o motorista jovem, que também usava terno, mas não tinha a mesma postura.

O Nathan de que ela se lembrava…

Não era nada assim.

Ela se lembrou do terno que ele tinha usado na entrevista de formatura — emprestado de um veterano.

Tinha ficado folgado nele, largo demais nos ombros.

Ela tinha passado a noite inteira acordada, costurando para que servisse nele direitinho.

Naquela época, ele tinha segurado o rosto dela entre as mãos, beijando-a de novo e de novo, elogiando suas mãos habilidosas, dizendo como tinha sorte por ter se casado com ela.

Ele tinha ficado bonito naquele terno.

Mas ainda parecia um garoto.

Agora—

Chloe lançou um olhar furtivo para Nathan.

O terno caía perfeitamente nele.

Sem esforço. Natural.

Ele realmente está diferente agora...

Nathan entrou no carro.

A porta se fechou.

Lá dentro, o espaço fechado só tornava o silêncio mais pesado.

Sem perceber, Chloe esfregou a perna.

Nathan notou imediatamente.

Mesmo depois de todos esses anos, ele reconheceu o hábito.

Antes de cada prova, apresentação ou entrevista, ela costumava fazer a mesma coisa.

Naquela época, ele sempre segurava a mão dela e a beijava.

Ele franziu levemente a testa, surpreso por ainda se lembrar de algo tão trivial.

“Professor Nathan, devemos voltar para o centro de convenções?”, perguntou o motorista.

“Não. Me leve para a minha antiga casa.”

“Mas vários especialistas e autoridades ainda estão esperando sua apresentação.”

“Tudo bem. Henry Crawford está lá”, respondeu Nathan. “Eu vou ligar para ele.”

Chloe apertou os lábios.

Será que ela estava... atrapalhando o trabalho dele?

Ela queria dizer que estava bem, que ele não precisava ficar.

Mas, antes que pudesse falar, ele já tinha discado.

“Desculpe. Surgiu uma coisa pessoal. Eu chego mais tarde.”

“Vou te mandar os materiais. Você pode cuidar da apresentação.”

“Com certeza vou à coletiva de imprensa de amanhã. Não se preocupe.”

“Certo. Estou enviando agora.”

Depois de desligar, Nathan abriu o laptop.

Chloe deu uma olhada.

Fino. Leve. Elegante.

Nada parecido com o velho computador de mesa dela.

Ele começou a ajustar os dados.

Mas seus dedos escorregaram.

Os números ficaram desalinhados.

As sequências se quebraram.

Ele parou.

O reaparecimento repentino dela o abalara mais do que ele se importava em admitir.

Puxando o ar devagar, ele se forçou a se concentrar, corrigiu os dados, finalizou os arquivos e os enviou.

Só então fechou o laptop.

Chloe permaneceu em silêncio o tempo todo.

Depois de um momento, ela enfim perguntou, com cautela:

“Eu atrapalhei seu trabalho?”

Nathan olhou para ela, com a voz serena.

“Está tudo bem. Era só uma reunião.”

“Eu podia faltar.”

“Ah.”

Ela não sabia o quanto aquela reunião tinha sido importante.

Mas ele claramente tinha saído mais cedo... por causa dela.

“Para você, realmente parece que só se passaram dez horas?”, Nathan perguntou em voz baixa.

Chloe assentiu.

“Para mim, parece que meus pais me deixaram aqui hoje de manhã.”

Ela hesitou, depois perguntou rapidamente:

“A propósito... você ainda tem contato com os meus pais?”

Nathan fez uma pausa.

“Seus pais...”

“O que foi?” A voz de Chloe se retesou, enquanto um incômodo crescente tomava conta dela.

Nathan olhou para ela.

“Faz muito tempo que não tenho contato com eles.”

“Não tem mais contato?”

Chloe piscou, atônita.

Depois do casamento, os pais dela tinham gostado de Nathan.

Ainda na noite passada, sua mãe tinha enchido a mala dela de presunto para ele.

E agora—

Eles não tinham mais contato.

Bem...

Tinham se passado vinte e três anos.

Talvez ele já tivesse se casado de novo fazia muito tempo.

Como poderia continuar ligado aos pais da ex-esposa?

Nathan apertou os lábios.

Depois de um momento, disse em voz baixa:

“Desculpe.”

Chloe forçou um sorriso.

Seus olhos arderam, mas ela disfarçou.

“Está tudo bem. Sério. Todo mundo tem a própria vida.”

“Além do mais, eles nem são seus pais biológicos.”

As palavras caíram entre eles.

E o ar ficou frio.

Ela não sabia mais o que dizer.

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