Capítulo 5 A segunda fechadura

Nathan abaixou a cabeça e não disse nada.

Chloe se virou para encarar a janela. Mordeu o lábio com força, puxou o ar de um jeito trêmulo e se obrigou a falar.

— Então, por favor, me leve até a estação de trem ou a rodoviária. Ou chame um carro para mim. Eu quero ir para casa. Quero ver meus pais agora.

— Sua casa antiga foi demolida há muito tempo. Não sei para onde seus pais se mudaram. — Nathan olhou para ela.

As mãos dele, sem perceber, tinham se fechado em punhos sobre os joelhos. Quando voltou a falar, manteve a voz firme, mas por pouco.

— Vou perguntar primeiro. Espere alguns dias. Assim que eu souber de alguma coisa, você pode ir.

— Demolida? — Chloe repetiu.

O coração dela despencou. Tudo ao redor pareceu escurecer, deixando-a à deriva no breu — sozinha, em pânico, sem nada sólido a que se agarrar.

O único rosto familiar que lhe restava era Nathan.

Nathan, que era ao mesmo tempo o homem mais familiar do mundo e o mais assustadoramente estranho.

— Entendi — sussurrou ela. — Obrigada.

— Está tudo bem — Nathan respondeu, com educação.

Aquela troca formal e distante só piorou. Parecia que uma parede grossa tinha desabado entre os dois, isolando os pensamentos de um do outro.

Nenhum dos dois falou pelo resto do trajeto.

Chloe manteve a cabeça baixa, cerrando o maxilar para conter as lágrimas e resistir ao impulso humilhante de se inclinar para perto dele em busca de conforto. Mas ele não era o Nathan de que ela se lembrava. Parecia uma pessoa completamente diferente.

Meia hora depois, o carro entrou em um bairro mais antigo, um pouco malcuidado.

Mesmo no escuro, Chloe reconheceu na hora. Era a casa que ela e Nathan tinham comprado juntos.

Ela se virou para ele, surpresa.

— Você ainda mora aqui?

Nathan balançou a cabeça.

— Não. Fica perto do trabalho, então às vezes eu venho aqui ao meio-dia para descansar. A manutenção é feita com regularidade. Tem água e luz. Dê uma olhada lá dentro. Se der para ficar aqui, fique. Se não der, eu arrumo um hotel.

— Tá — Chloe disse, baixinho.

Ele não deu sinal nenhum de que pretendia levá-la para a casa onde realmente morava. Claro que não. Provavelmente seria inconveniente.

— Sr. Archer, devo esperar lá embaixo? — perguntou o motorista, em voz baixa.

Nathan pensou por um instante.

— Não. Volte. Eu entro em contato mais tarde.

— Sim, senhor.

O motorista foi embora. Nathan pegou a mala de Chloe e a conduziu escada acima.

No terceiro andar, ele destrancou a porta e acendeu a luz.

Chloe olhou em volta.

O lugar estava impecável. Os móveis e a disposição eram quase exatamente como ela se lembrava, embora a madeira tivesse envelhecido e as paredes tivessem escurecido com o tempo. Ver aquele espaço familiar afrouxou um nó apertado no peito dela.

— Entre — disse Nathan ao notar que ela hesitava junto à porta.

— Tá. — Ela entrou e se sentou no sofá.

Nathan levou a mala para o quarto, acendeu a luz e perguntou:

— Esse quarto está bom?

Chloe foi até lá para ver.

Era o quarto principal. O quarto deles. Depois que se casaram, tinham feito amor naquela cama tantas vezes que ela perdera a conta.

Ela lançou um olhar constrangido para Nathan, mas a expressão dele continuou perfeitamente calma.

— Está bom — disse ela.

Ele colocou a mala no chão, abriu o guarda-roupa e tirou lençóis limpos.

— Vou trocar a roupa de cama para você.

— Não, eu posso trocar. — Chloe se apressou em pegar os lençóis.

— Eu faço. Não vai demorar. — Ele não soou autoritário, mas segurou os lençóis com firmeza o bastante para que ela tivesse de soltar.

Nathan arrumou a cama com uma eficiência treinada e depois foi à cozinha ferver água. Em seguida, pegou um esfregão e começou a limpar o chão.

No começo, Chloe ficou seguindo-o, sem saber o que fazer. Mas, ao ver como ele se movia com tanta naturalidade, acabou voltando a se sentar no sofá para não atrapalhar.

Nathan tinha mesmo mudado.

Na época em que moravam juntos, ele se comportava como um jovem mestre mimado quando o assunto era serviço doméstico. Se ela pedisse que ele passasse o esfregão, ele reclamava, fazia corpo mole até ela perder a paciência.

—Chloe, a gente não pode simplesmente contratar uma faxineira? —ele implorava.

—Não. Faxineira custa dinheiro. A gente acabou de comprar este lugar —para de desperdiçar.

—Eu ganho mais dinheiro depois —ele tentava negociar. —Contrata uma só dessa vez?

—A gente conversa quando você realmente ganhar. —Ela puxava a orelha dele, impaciente. —Agora vai.

Só então ele fazia, a contragosto. E, quando terminava, voltava direto exigindo beijos e elogios.

Vendo Nathan arrumar o apartamento agora sem reclamar uma única vez, Chloe sentiu uma fisgada repentina e azeda no peito.

Ela virou o rosto, incapaz de falar.

Ele ficou tão bom em serviço de casa assim… Foi outra mulher que ensinou?

Quando terminou, Nathan serviu para ela um copo de água morna.

—Obrigada. —Chloe pegou e deu um gole devagar.

Nathan se sentou e ficou observando. Não disse nada, mas o olhar era tão intenso que fazia a pele dela arrepiar.

Então, sem aviso, a barriga dela roncou alto.

Chloe virou o rosto, mortificada.

Nathan se levantou na hora. —Eu estava tão ocupado limpando que nem percebi… você deve estar com fome.

Chloe assentiu, sem graça. —Tô. Tô com fome.

—Vou pegar alguma coisa. Já volto. —Ele foi rápido até a porta, calçou os sapatos, pegou as chaves e saiu.

No instante em que a porta se fechou, Chloe soltou um longo suspiro de alívio.

Mas, antes que conseguisse relaxar de verdade, ela ouviu de novo o som de chaves girando na fechadura.

Nathan empurrou a porta e enfiou metade do corpo para dentro. —Quase esqueci. O que você quer comer?

—Qualquer coisa serve —disse Chloe. A mente dela já tinha voltado para os outros passageiros da van. Ela ainda não sabia se eles estavam bem.

—Tá. —Nathan lançou um olhar sério para ela. —Fica bem aqui. Não sai.

—Tá bom.

—Não sai —ele repetiu, ainda com um tom inquieto.

—Ok.

Ela achou que ele iria embora então, mas ele ficou ali no vão da porta, com a mão na maçaneta, olhando para ela.

—O que foi? —ela perguntou por fim.

—Nada. —Nathan balançou a cabeça, lançou um último olhar e fechou a porta.

Um segundo depois, veio o som de uma chave girando.

Depois girando de novo.

Ele trancou duas vezes.

Só depois que os passos dele sumiram pelo corredor é que Chloe se permitiu relaxar de verdade, afundando no sofá e olhando em volta para o lar que ela e Nathan tinham construído juntos.

Naquela época, eles mal tinham dinheiro. Compraram baldes de tinta e terminaram os cômodos por conta própria. Ao longo dos anos, Nathan foi colocando piso, plantas e pequenos móveis, transformando um apartamento vazio numa casa.

Por mais inteligente que fosse, Nathan era completamente inútil com as mãos. Derrubava latas de tinta e esmagava os próprios dedos tentando pendurar prateleiras.

—Afinal, pra que você serve? —Chloe zombava.

Ele segurava o próprio rosto com as mãos e olhava para ela, sem a menor vergonha. —Mas eu sou bonito. E sou muito bom na cama.

—Meu Deus, cala a boca. —Ela puxava ele para perto e o beijava, e ele deixava, com aquele sorrisinho discreto e indulgente.

A lembrança arrancou um sorriso involuntário dos lábios dela agora.

Para Chloe, não parecia história distante. Parecia que tinha sido seis meses atrás.

Antes de ir viajar, Nathan ainda adorava abraçá-la por trás, apoiando o queixo no ombro dela.

Mas então ela se lembrou do homem calado e duro que acabara de trancá-la dentro daquele apartamento. Ele tinha mudado mesmo.

Ela suspirou baixo.

De repente, a fechadura clicou de novo.

Nathan empurrou a porta, carregando uma sacola plástica de comida para viagem. Estava um pouco sem fôlego, e o olhar dele grudou no dela na mesma hora. —Eu trouxe comida. Vem comer.

—Tá. —Chloe foi até a mesa de jantar, pegou a sacola e abriu.

Dentro havia um sanduíche de frango cajun, quatro tiras apimentadas e uma porção grande de feijão vermelho com arroz.

O coração de Chloe falhou uma batida. Ela ergueu o olhar para ele de supetão, a voz tremendo.

—Por que você comprou isso?

Vinte e três anos atrás, pouco antes de entrar naquela van, ela tinha mandado mensagem para Nathan dizendo que queria Popeyes no jantar.

Agora, vinte e três anos depois, ela finalmente tinha voltado para casa.

Será que ele ainda lembrava?

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