Capítulo 6 Nunca foi difícil
Nathan manteve a cabeça baixa. Com movimentos cuidadosos e treinados dos dedos longos, ele desembrulhou a comida para viagem, colocando cada item sobre a mesa. “Eu vi uma filial lá embaixo”, murmurou baixinho. “Então comprei.”
“Ah.” Chloe mordeu o lábio.
Claro. Como ele poderia se lembrar?
Para ela, tinham se passado só algumas horas. Para ele, tinham sido vinte e três anos. Ele teria esquecido uma mensagem aleatória de mais de duas décadas atrás muito antes de hoje.
Ainda assim, ela não conseguiu deixar de se perguntar se ele tinha comprado exatamente a mesma refeição e esperado por ela na estação todos aqueles anos atrás.
O garoto que ele tinha sido com certeza teria feito isso.
“Come”, Nathan insistiu quando ela não se mexeu. Ele abriu a caixa de papelão e a empurrou na direção dela.
Chloe pegou um pedaço apimentado de frango empanado, praticamente enfiando-o na boca, e terminou em três mordidas. Imediatamente pegou outro e deu uma mordida enorme.
Ela sabia que, se não mantivesse a boca cheia, ia começar a chorar. A comida era a única coisa impedindo que ela desmoronasse de vez.
“Devagar”, Nathan disse, sem conseguir se conter.
“Não consigo. Faz muito tempo que eu não como, e isso está tão gostoso”, Chloe murmurou de boca cheia, mastigando o mais rápido que conseguia.
Nathan não disse mais nada. Apenas ficou ali, observando-a em silêncio.
Aos poucos, a borda dos olhos dele começou a ficar vermelha. Ele virou o rosto à força, fixando o olhar na parede do outro lado.
Quando finalmente voltou a olhar para ela, um instante depois, seus olhos escuros e profundos estavam pesados de uma tristeza intensa e sufocante que ele se recusava a colocar em palavras.
Quando terminou de comer, Nathan limpou a mesa em silêncio.
Ver Nathan arrumar tudo de forma tão eficiente e silenciosa pareceu estranhamente alienante para Chloe. Sem saber o que dizer, ela bebeu o resto do leite e se remexeu desconfortável na cadeira, esfregando os joelhos sem perceber.
Os olhos de Nathan baixaram, captando o movimento na mesma hora.
Ele abaixou a cabeça e não disse nada. O cômodo mergulhou em outro silêncio pesado e constrangedor.
Um nó duro se formou na garganta de Chloe.
Só algumas horas atrás — antes de entrar naquela van — ela estava tão animada para voltar para casa. Estava ansiosa para jogar os braços em volta do marido, para ter intimidade com ele, para finalmente falar com ele sobre ter um bebê.
Agora, tudo estava arruinado.
Ele estava sentado bem na frente dela, fisicamente o mesmo homem, e ainda assim ela já não sentia que ele era seu marido. A contenção profunda dele, a aura séria e impenetrável ao seu redor — tudo isso eclipsava cada lembrança que ela tinha.
Por fim, Chloe não aguentou mais o silêncio. “Você não vai voltar?” perguntou baixinho.
Nathan ergueu os olhos e olhou para ela.
O estômago de Chloe afundou quando ela se lembrou de que aquela era a casa dele. A pergunta soou exatamente como se ela estivesse tentando expulsá-lo dali.
Ela soltou uma risada vazia e sem graça e se apressou em consertar. “Quer dizer… como você tem estado nesses últimos anos?”
“Bem.” O olhar dele continuou preso ao rosto dela.
Chloe assentiu rigidamente. “Você parece estar indo muito bem. Parece tão bem-sucedido agora. Até rico.”
As palavras ficaram pairando no ar, patéticas e vazias. Por que ela estava lhe oferecendo esse tipo de elogio barato e educado, como se fossem estranhos num evento de networking?
“Mais ou menos”, Nathan respondeu, com um tom igualmente distante.
Uma nova onda de tristeza a invadiu, fazendo arder a parte de trás do nariz. Desesperada para romper a tensão sufocante, Chloe se virou, pegou o controle remoto da mesa de centro e apertou o botão de ligar.
Ela passou freneticamente pelos canais, mas a tela continuou num azul vazio, cheio de chiado estático.
“Por que não tem canal nenhum?”
“Eu não renovei a TV a cabo”, Nathan respondeu com tranquilidade, saindo da cozinha depois de amarrar o saco de lixo.
“Ah.” Chloe largou o controle. Claro. Ele não morava ali.
Provavelmente nem era mais o marido dela. Afinal, ela estava legalmente morta havia anos.
Percebendo como ela murchou tão depressa, Nathan enfiou a mão no bolso e tirou o celular. “Hoje em dia quase ninguém mais assiste TV. Todo mundo só usa o celular.”
— O que tem de tão divertido em celular? — perguntou Chloe, tentando se recompor. — Jogar Snake?
Nathan deu um sorriso fraco, nostálgico.
— Não só isso. Agora tem aplicativo pra tudo. Dá pra ler as notícias, assistir a vídeos, jogar.
— Sério? — Chloe se inclinou um pouco para a frente. — Posso ver?
Nathan assentiu e lhe entregou o aparelho preto, elegante.
Ela pegou com avidez, virando-o nas mãos. Tinha ficado olhando para ele pelo canto do olho durante todo o trajeto de carro. Era fino demais para ser real, feito inteiramente de vidro, e parecia mais um acessório futurista do que um telefone.
Mas, depois de cutucar a superfície lisa por alguns segundos, ela não conseguiu fazer a tela acender.
— Como é que os celulares de vinte e três anos no futuro nem têm botões? Como liga isso?
Nathan soltou uma risadinha.
Ele se levantou da poltrona, atravessou a sala e se sentou no sofá bem ao lado dela. Estendendo o braço, pressionou o polegar na parte de baixo do vidro. A tela se abriu instantaneamente em luz.
— É só tocar aqui — murmurou, e a voz dele ficou de repente muito perto.
— Isso é tão avançado! É incrível! — Chloe abriu um sorriso enorme, os olhos brilhando quando ergueu o olhar para ele.
Nathan congelou. Encarou o sorriso dela — claro, desprevenido — e se perdeu naquela imagem por um longo segundo, até que um sorriso suave tocou seus próprios lábios.
Ele voltou a olhar para o aparelho, deslizou o dedo pelo vidro e disse, com gentileza:
— Se você quiser assistir a séries, é só usar esses aplicativos aqui.
— Ué, por que não acontece nada quando eu encosto? — perguntou Chloe, esquecendo a timidez por um instante enquanto cutucava a tela com a unha.
— Você tem que usar a polpa do dedo. Um deslize leve, não a unha. — Nathan demonstrou o movimento no ar entre os dois.
— Ah! — Chloe assentiu, animada. Achatou o dedo e deslizou na tela exatamente como ele tinha mostrado. O menu correu suavemente para a página seguinte. — Ah, entendi! Na verdade é bem simples.
Nathan não disse nada. Levantou-se devagar e voltou para a poltrona única, colocando distância de novo entre os dois.
Baixou o olhar para o chão.
— Nunca foi difícil — murmurou, quase sem perceber.
Ao ouvir aquelas palavras, Chloe ficou completamente imóvel.
Nathan vivia dizendo exatamente essa frase para ela.
No ensino fundamental, ele tinha pulado duas séries. Mesmo sendo o menino mais novo da turma, era intocável no topo do ranking. Ela se sentava atrás dele e cutucava suas costas, pedindo o tempo todo que ele explicasse os problemas de matemática que ela não conseguia resolver.
As explicações dele eram sempre tão absurdamente claras que ela entendia na hora e exclamava:
— Ah, é muito simples!
E ele sempre respondia com aquela expressão perfeitamente natural, irritantemente arrogante:
— Não tem nada de difícil.
Anos depois, quando ele pediu a mão dela em casamento pela primeira vez, ela entrou em pânico. Ela era mais velha do que ele. Estudava numa universidade pior. A família dela era completamente comum. Ela não conseguia ver como os dois faziam sentido juntos.
Mas ele apenas olhou para ela e disse:
— Não pensa demais. Eu só gosto de você.
— Mas casamento… é mesmo tão simples assim? — ela tinha perguntado, apavorada com o peso daquilo. Casamento não era mais do que só um sentimento? Não era assumir total responsabilidade pela vida e pelo futuro de outro ser humano?
Mas Nathan a encarou com uma certeza absoluta, inabalável.
— Não é tão difícil.
Ela sabia muito bem que a mãe de Nathan nunca tinha gostado dela de verdade. Mas, por causa da persistência silenciosa e incansável de Nathan, eles atravessaram o casamento sem um único grande obstáculo.
Com Nathan ao lado dela, por mais assustador ou enorme que fosse o problema, tudo parecia ficar simples. Tudo o que ela sempre precisou fazer foi seguir a liderança dele.
— O que foi? — perguntou Nathan, franzindo a testa ao perceber que Chloe tinha parado de se mexer por completo.
