Capítulo 3 CAPÍTULO TRÊS: MAJU
MAJU
MAJU
Prendi o meu cabelo em um coque alto, abri a torneira da pia e fiz uma concha com a mão. Levei a água que consegui acumular até o meu rosto, molhando o mesmo na expectativa de tirar um pouco da tensão.
Faço esse processo mais uma vez, antes de molhar um pouco a minha nuca e pescoço. Fechei a torneira, apoiando as minhas mãos na pia e levantando o rosto para encarar a mulher refletida no espelho.
As olheiras profundas em meu rosto deixavam claro o cansaço que estou nesse momento, adquirido através de um plantão de vinte quatro por quarenta e oito. Estou trabalhando um dia inteiro, sabendo que terei outros dois para compensar.
O início do meu plantão foi tranquilo, nada diferente do normal. As coisas foram complicar de verdade quatro horas atrás, quando um grande presidiário fugiu do presídio Gabriel Ferreira Castilho, mais conhecido apenas como Bangu três.
Pelo que entendi, a polícia foi atrás. Tudo isso resultou em uma perseguição policial pela Avenida Brasil, a maior Avenida do Rio de Janeiro. Por ser um horário de pico, oito horas da noite, resultou em muitas pessoas gravemente feridas como consequência dessa merda toda.
Eu não sei o resultado dessa perseguição, isso pouco me importa. O que realmente está me deixando com evidências do cansaço, tanto físico quanto mental, é a incerteza do futuro de diversos pacientes que estão por aqui.
Sei que a principal regra, para qualquer um que trabalha com atendimento de emergência, é ter um coração frio. Precisamos adentrar o hospital, deixando todos os sentimentos do lado de fora, assim fica mais fácil lidar com as perdas que se tornam parte do seu dia.
Precisamos não nos envolver profundamente, criar algum sentimento de empatia por nenhum paciente. Alguns podem sim sair, seja andando por seus próprios pés ou em uma cadeira de rodas, seja ela temporária ou não. Outros, todavia, só saem daqui direto para o caixão.
Nunca é algo fácil, exige, em níveis absurdos, do profissional em questão. Às vezes o paciente pode ser extremamente chato, mas a família é um doce sem igual e na hora de contar, você sente a dor. A pior parte é entregar uma notícia negativa a um dos familiares, principalmente quando esse em questão é mãe.
__ Maria Julia.--- Sara, minha amiga, chamou por mim enquanto entrava no banheiro reservado para funcionários.
__ Já vou.--- Suspirei, antes que ela pudesse falar qualquer coisa, apoiando o meu peso na pia.
__ Eu sei que não é fácil amiga, mas precisamos fazer isso. Deve está sendo torturante para a família, passar esse tempo todo sem uma notícia que seja.--- Sorriu carinhosamente, juntando as nossas mãos.
Há poucas horas um homem chegou, vítima desse conflito na Avenida Brasil. Ele havia sido vítima de uma bala perdida, estava entre a vida e a morte e um pouco antes de levar ele para a sala de cirurgia, só consegui escutar a sua mãe pedindo para salvar a vida do filho.
Eu tentei, juro que tentei. Dei tudo de mim, auxiliei como pude os médicos e cirurgiões, mas a bala perfurou o coração, que não levou poucos minutos antes de bater pela última vez.
__ Vamos terminar isso de uma vez por todas.--- Fiquei de pé, tentando soar firme e confiante em minhas palavras.
__ Estou logo atrás de você.--- Demonstrou apoio, tirando de mim um sorriso em sinal de gratidão.
Sara é uma colega de trabalho. Eu a ajudo em seu trabalho, afinal sou a enfermeira chefe e ela técnica de enfermagem. Com o tempo e a convivência acabamos criando um certo nível de intimidade.
Saímos do banheiro, caminhando diretamente para a recepção. Respirei fundo, preciso fazer o meu trabalho.
__ Parentes do senhor Antônio Cassimiro?--- Perguntei firme, encarando a ficha.
__ Somos nós.--- Escutei a voz da mesma senhora da outra vez.
Rapidamente escuto a movimentação e algumas pessoas estão perto de mim, visivelmente ansioso por notícias.
__ Graças a Deus alguma notícia.--- Uma voz feminina fala.
Ainda séria, levantei o meu olhar. Tinha umas cinco pessoas na minha frente, contando com a senhora da outra hora. Mas dessa vez uma mulher gestante, que pela minha experiência devia estar por volta dos seis meses de gravidez. Em seu dedo uma aliança de casamento, similar a que vi na mão do falecido.
Isso vai ser ainda mais difícil do que eu poderia imaginar.
__ O paciente chegou nesta unidade com uma bala em seu coração, a mesma perfurou o seu pulmão e alojou-se no ventrículo direito. Conseguimos parar a hemorragia que se fez, mas infelizmente o seu coração não resistiu e parou de bater com três horas de cirurgia. Fizemos o nosso melhor, mas o paciente veio a óbito.--- Tento me manter firme, mesmo com as lágrimas nos olhos da mãe e, provavelmente, mulher.--- Eu sinto muito.
__ NÃO.--- Gritou a gestante, ficando cada vez mais branca. O homem ao seu lado foi o primeiro a sair do choque, segurando ela para que não caísse.
__ Doutora, por favor, diz que está mentindo.--- Pediu uma quarta pessoa.
__ Eles são casados há dez anos, já estavam no terceiro filho. O meu filho é um bom homem, estava voltando de um trabalho. Depois de muito tempo havia conseguido uma obra para fazer, estava radiante porque poderíamos fazer um bolo para o aniversário de seis para a sua filha mais velha. Ele estava voltando do trabalho.--- Contou a mãe.
Respirei fundo, controlando os meus sentimentos. Muitos tem essa reação, de me contar a história do paciente em si, como se isso fosse o suficiente para que ele voltasse à vida. Sei que em momento como esse, qualquer esperança tem que ser agarrada.
Sei disso, pois tive a mesma reação quando uma situação similar aconteceu com o meu pai anos atrás. A única diferença é que eu não tinha seis anos, mas sim quinze. De resto, parece que estou revivendo todo aquele pesadelo.
__ Eu sinto muito.--- Repeti sem mais o que falar.
Nenhuma palavra poderia aliviar a dor, o luto. Ele saiu essa manhã em busca do pão de cada dia de sua família, mas jamais poderia imaginar que nunca mais retornaria.
A verdade é que nunca imaginamos que podemos ser vítimas de uma bala perdida, que na verdade foi bem achada. Que podemos entrar em uma estática grande e cruel demais para ser contada.
__ Não, você não sente, nem sequer imagina o que estou vivendo.--- Falou a moça gestante.--- O que eu vou falar aos nossos filhos quando eles vierem perguntar que horas o pai deles vai chegar?
Sem mais o que falar, apenas abaixei a minha cabeça. O pior de tudo isso é porque foi de surpresa, algo tão repentino que não tiveram tempo de processar a ideia da perda, pois tiveram que lidar com o fato em si sem nenhum preparo emocional.
Não que ter um possa servir de algo, mas pelo menos não é tão doloroso.
__ Com licença.--- Pedi assim que vi alguém da minha equipe fazer um sinal, indicando que precisavam de mim.
