Capítulo 4 CAPÍTULO QUATRO: MAJU
MAJU
Dei as costas, escutando o choro alto deles ainda. Sinto o meu coração pesado, doido para abraçar um deles e chorar juntos, contar que conheço melhor do que ninguém essa dor, pois convivo com ela diariamente e nada que eu faça pode me fazer esquecer da forma tão dolorosa que o meu herói me foi arrancado.
__ Podemos realizar a troca das equipes?--- Perguntou um enfermeiro da minha equipe.
__ Podem sim, mas não façam isso de uma vez, mas sim gradativamente. O hospital está um caos, não podemos deixar nenhum setor desatendido.---
Autorizei.
__A senhora não vai agora?--- Perguntou Daniel, um enfermeiro.
__ Nem se eu quisesse.--- Neguei com a cabeça.--- Precisam de mim aqui para organizar as equipes, para liderar também. Quando tudo normalizar eu saio.
__ Pode levar a madrugada inteira, até mesmo o dia.--- Argumentou Sara.
__ Eu sei.--- Permito que os meus ombros caiam, um sinal claro de cansaço.
__ Ao menos coma algo, poderá passar mal se continuar nesse ritmo.--- Pediu minha amiga.
__ Eu já estou acostumada, não se preocupem. Agora se arrumem, vão para a casa e descansem, mas antes de cumprir a última parte, agradeçam por terem retornado aos seus lares, nem todos tiveram essa sorte.--- Aconselhei.
Involuntariamente o meu olhar voltou para aquela família, onde a moça gestante era atendida por uma equipe de enfermeiros. Ela aparentava ter desmaiado. Sinto pena, essa não é uma notícia fácil de se receber, mas ela não terá outra escolha que não seja se reerguer e continuar lutando por seus filhos. Eles vão precisar dela como nunca antes.
Dei um sorriso sem sentimentos para todos, começando a me afastar deles logo em seguida. Não tenho tempo para sentir nada, nem mesmo ser tomada por lembranças dolorosas, mais pessoas precisam de mim nesse momento.
Orientei a nova equipe, que já chegou pegando pesado. A maioria dos setores estava um caos, o que demandou de mim um pouco mais de estratégia na hora de espelhar todos, diferente de como tinha feito no plano que os enviei. Sou muito organizada e cuidadosa com isso, tomo o maior cuidado ao organizar as equipes.
Esse é um hospital muito grande, demandando a maior atenção possível. Não posso me dar ao luxo de errar uma vírgula que seja, se não essa me será cobrada. É uma responsabilidade enorme, mas gosto de me sentir útil e se tem uma coisa que nunca fiz foi fugir do trabalho.
Agora só saio daqui ao concluir minha faculdade(ouvi um amém por estar no último período?) e me tornar uma médica mesmo. Sou uma pessoa ambiciosa, com garra o suficiente para correr atrás dos meus objetivos, com o intuito de tornar os sonhos em realidade sem pisar em ninguém, apenas com o meu esforço.
Após quarenta e oito horas intensas. Sim, foi um dia a mais do que planejado. Estava chamando um uber para a minha casa, sabia que não iriam subir por se tratar de uma comunidade, mas lá eu pegava um moto táxi. A única coisa que não posso fazer agora é ir de ônibus, não iria aguentar.
Entrei no carro, tomando um copo inteiro de café. Fui educada e cumprimentei o motorista, abrir as janelas de trás e encostei o meu corpo. Como esperado, pegamos um pequeno trânsito na Avenida Brasil.
Não é sempre que me dou ao luxo de ir de uber, afinal moro longe e acaba ficando bem caro. Mas neste momento estou mais do que exausta, não tenho outra escolha. Sem contar que me dar a esse luxo uma vez ou outra não faz mal a ninguém.
Estou fazendo a minha auto escola e assim que terminar a faculdade, vou comprar o meu carro. De início não quero nem um zero, apenas um veículo que me tire desse sufoco.
__ Desculpe moça, mas não vou passar daqui.--- Falou o motorista.
__ Tudo bem, tenha um bom dia.--- Falei simples, saindo do carro. Já havia pagado pelo pix, então não me preocupei e apenas comecei a subir tudo.
Sou moradora da Comunidade da Rocinha, o que para muitos é um cúmulo, não é algo que me incomode tanto. Sou nascida e criada nesse lugar, o conheço como a palma da minha mão.
Pretendo sair daqui sim, mas só futuramente. No momento, meu foco é terminar a minha faculdade, comprar o meu carrinho e só depois eu compro uma casa. Por enquanto estou bem, morando com a minha vó, ela cuida tão bem de mim que nem me vejo mais longe dela, afinal ela já disse que daqui não sai.
__ Ai colega.--- Chamei o menino do moto taxi quando este passou por mim.
__ Fala ai, princesa.--- Parou ao meu lado, olhando descaradamente para o meu corpo.
Sou uma mulher morena, baixinha, com cabelo liso e bem grande. O que não tenho de altura compenso com um corpo avantajado, violão como muitos o chama.
__ Me leva na casa perto do mercadinho do seu João?--- Pedi.
__ Monta ai.--- Apontou para a garupa e eu subi na mesma.
Quando chegamos, apenas paguei a sua corrida e sai ignorando as piadas. Já me acostumei com as mesmas, não tenho outra escolha.
__ Bom dia, Billy.--- Cumprimentei o salsicha que me cumprimentou assim que eu cheguei. Amo a festa que ele faz.
__ MAJU?--- Gritou minha avó da cozinha.
__ EU.--- Gritei de volta.
Não levou muito tempo até que ela apareceu secando suas mãos no pano de prato.
__ Desculpa a demora, a senhora leu a minha mensagem?--- Perguntei.
__Li sim, meu amor.--- Concordou.--- Fiz sua comida favorita, frango com quiabo. Agora toma o seu banho que a Vovó vai levar um prato pra você.
Concordei com a cabeça, agradecendo com um sorriso cansado. Passei por ela, dando um beijo na sua cabeça e subi as escadas. É uma casa duplex recém reformada. A reforma me custou uma fortuna, mas valeu a pena, minha avó ficou muito feliz e isso basta.
Deixei tudo no canto do quarto, tomei um banho longo e relaxante, colocando um pijama branco. Comi o prato que a minha vó fez, liguei o ar e deitei com o meu companheiro nas pernas.
Estou exausta, só quero descansar como mereço!
