Capítulo 1 O VESTIDO

O corpo de Leonard vibrava contra o de Lucinda, o calor dele penetrando sua pele enquanto ela se agarrava a ele, desesperada, esperançosa, rezando para que aquela noite fosse diferente. Que talvez, só uma vez, ele lhe desse o que ela mais desejava: um filho.

Mas a ilusão se despedaçou no instante em que os músculos dele se retesaram. Ele se arrancou do abraço dela com uma rapidez que feriu mais do que qualquer tapa e, com uma finalidade silenciosa e assustadora, gozou não dentro dela, mas sobre seu estômago.

— Nunca tente isso de novo.

A voz dele não tinha afeto. Nem calor. Apenas um aviso gélido que a cortou por dentro.

Lucinda ficou imóvel, os dedos apertando os lençóis amassados sob si. Leonard nem sequer olhou para ela enquanto vestia a cueca boxer; suas costas largas, esculpidas, familiares, se afastaram em direção à porta antes que ela conseguisse recuperar o fôlego.

O colchão afundou de volta no silêncio. O quarto fez o mesmo.

Lucinda permaneceu deitada, observando a silhueta do homem que adorava ir embora como se não levasse consigo nenhuma parte dela. Ele era perfeito na forma, como uma figura saída de uma revista, mas seu coração… seu coração era distante, trancado em um cômodo no qual ela jamais tivera permissão para entrar.

O coração dele pertencia a outra pessoa. E ela não passava de uma sombra usando a aliança.

Às vezes, naqueles raros momentos em que a paixão surgia entre os dois, ela se permitia sonhar que talvez ele estivesse amolecendo com ela. Que talvez estivesse começando a enxergá-la. A desejá-la.

Mas então a realidade sempre voltava com uma clareza cruel, como naquela noite. Ele a lembrava do que ela realmente era: um erro nascido da mentira.

Três anos de casamento, e ele nunca tinha gozado dentro dela. Nunca tinha permitido sequer a possibilidade de um filho.

Não era só o ódio dele por crianças, algo que ele fazia questão de repetir, mas também a traição nunca resolvida do começo dos dois. Ela sabia disso. Sentia em cada toque, em cada silêncio, em cada porta que ele fechava entre eles.

Ela tinha se casado com ele com base em uma mentira. E tinha concordado com isso.

Lucinda engoliu em seco. Tinha sido ela quem dissera sim ao plano insano dos pais: trocá-la pela irmã no dia do casamento para que a mais nova não se “casasse cedo demais”.

Ela tinha sido obcecada o bastante para obedecer, desesperada o bastante para acreditar que o amor poderia nascer de um momento roubado.

Mas aquele momento roubado lhe custara caro.

Leonard Roberts, CEO do Grupo LL e agora o homem mais rico do mundo, a desprezava desde o dia em que descobriu que tinha se casado com a irmã errada.

A semelhança entre Lucinda e Millie sempre fora impressionante, mas nem isso bastou para que ele perdoasse a traição.

Ainda assim, ela despejou tudo de si nele: sua mente, seu dinheiro, seu coração.

Ajudou-o a reconstruir seu império em segredo.

Ofereceu ideias, projeções, até financiamento, tudo sob uma identidade oculta.

Ele ascendeu. E ela o aplaudiu em silêncio por trás das cortinas.

E, ainda assim, ele não conseguia amá-la.

Naquela noite, ela tinha cruzado o único limite que ele nunca quis que fosse cruzado: filhos.

Sua tentativa de convencê-lo a gozar dentro dela foi recebida com raiva e abandono. Ele saiu como uma tempestade, ignorando o jantar que ela tinha preparado, deixando o ar pesado de humilhação.

Lucinda se enrolou nos lençóis, contendo as lágrimas que, no fim, escaparam.

Foi então que alguém bateu à porta.

— Senhora, há uma entrega para a senhora — disse a empregada com um sorriso radiante. — Acabou de chegar.

Lucinda piscou, enxugando as bochechas. Uma entrega? Para ela?

Seu coração tropeçou em confusão ao abrir a caixa lindamente embrulhada.

Dentro havia um vestido de tirar o fôlego, elegante, caro, cintilando sob a luz suave do quarto. Os acessórios estavam arrumados com cuidado ao lado. Sua respiração falhou.

Não podia ser...

Leonard nunca tinha comprado um único presente para ela.

— Tem um bilhete também — acrescentou a empregada, entregando-lhe um pequeno cartão.

As mãos de Lucinda tremiam quando ela o abriu.

“Vista isto, minha linda ervilhinha. Quero que você seja a mulher mais bonita no evento de fim de ano da empresa esta noite.”

Minha linda ervilhinha.

Um apelido estranho, que ele nunca tinha usado, mas que a derreteu no mesmo instante.

Um calor floresceu em seu peito, afastando a dor de mais cedo. Por um momento, ela se permitiu acreditar que ele finalmente estava tentando.

Que talvez, apesar de tudo, quisesse consertar o que havia sido quebrado entre os dois.

Ela não tinha sempre acreditado que milagres podiam acontecer, se ela simplesmente resistisse?

O vestido não era do estilo habitual dela — revelador, ousado, atrevido —, mas, se Leonard o tinha escolhido, ela o usaria com orgulho.

A esperança a guiou por todo o caminho até as Torres LL. Havia meses que ela não ia ao escritório dele nem a qualquer um de seus eventos, evitando-os por causa da tensão silenciosa que sempre pairava entre os dois.

Mas esta noite parecia diferente. Esta noite parecia um começo.

O prédio estava iluminado como um palácio, cintilando sob o céu da noite. Quando ela entrou, cabeças se viraram. Conversas foram interrompidas. Ela se sentiu bonita pela primeira vez em muito, muito tempo.

Seu coração procurava na multidão o homem que ela amava. O homem por quem tinha sacrificado tanta coisa.

Leonard precisava dela nos negócios, sim, mas ela o amava com toda a alma, por cada vez que ele a protegera, a defendera, a salvara.

O mundo só via o CEO frio, mas ela se lembrava do garoto que um dia a protegeu dos valentões, do jovem que a defendeu diante da escola inteira.

Essas lembranças tinham sido tanto sua âncora quanto sua prisão.

Um garçom lhe entregou uma taça de champanhe. Ela mal tomou um gole quando uma voz — aguda, feminina, dolorosamente familiar — cortou o murmúrio do salão.

“Como você ousa vestir o meu vestido?”

Os dedos de Lucinda congelaram ao redor da taça. Ela ergueu os olhos, e seu coração despencou.

Millie.

Sua irmã mais nova.

Sua imagem no espelho.

Sua maldição.

Sua substituta.

O verdadeiro amor do marido dela.

Millie, radiante de saúde e beleza, algo que Lucinda não via havia anos.

Lucinda se engasgou com a bebida, chocada demais para falar. “C-como é?”

Ao redor delas, os convidados pararam, observando com curiosidade voraz. Desesperada, Lucinda procurou Leonard com os olhos, desejando que ele aparecesse e explicasse tudo.

Millie deu um passo à frente, os olhos frios, o queixo erguido. “Esse vestido é meu. Tire-o.”

A humilhação atingiu o peito de Lucinda como uma martelada.

‘Tirá-lo? Na frente de todo mundo?’

“Millie, do que você está falando? Leonard mandou esse vestido para mim”, Lucinda sussurrou, com o pulso disparado.

“A esposa do presidente falou”, comentou um homem de meia-idade ali perto, em tom de deboche. “Faça o que ela está mandando.”

Esposa do presidente.

As palavras ecoaram como um soco. Millie, a esposa do presidente?

As pernas de Lucinda vacilaram.

Os pais delas sempre tinham favorecido Millie, a mais bonita, a frágil, a querida.

Lucinda passara a vida inteira à sombra da irmã, sempre em segundo lugar, sempre sendo menos. Millie ganhava roupas de grife; Lucinda, Walmart. Millie recebia simpatia; Lucinda, responsabilidade.

E agora Millie tinha voltado… para tomar tudo de volta.

Mas não desta vez. Não depois de três anos. Não depois de tudo que Lucinda tinha derramado neste casamento, em Leonard, no império deles.

Ela se endireitou, engolindo o tremor. “Desta vez, eu não vou desistir tão facilmente.”

Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, a voz do mestre de cerimônias ribombou pelo salão. “O presidente Leonard Roberts acaba de chegar!”

O alívio inundou Lucinda, só para evaporar no mesmo instante em que ela o viu.

Leonard entrou cercado de homens poderosos, com uma morena deslumbrante ao seu lado — Antonia Stefan, sua secretária —, radiante, transformada, quase irreconhecível.

Mas Leonard não olhou para Lucinda. Foi direto até Millie.

Um sorriso caloroso e afetuoso iluminou seu rosto quando ele passou o braço em volta de Millie e a puxou para um abraço.

O mundo de Lucinda vacilou. Antonia lançou a ela um olhar com um lampejo de deboche antes de desviar os olhos.

“Leo”, disse Millie com doçura, “por que ela está usando o meu vestido? Você não disse que o comprou para mim?”

A expressão de Leonard escureceu quando seu olhar encontrou Lucinda. Um lampejo de desconforto. Depois, frieza.

“O que você está fazendo aqui?”, ele perguntou, com a voz distante, indiferente. Como se ela não passasse de uma conhecida de negócios. Como se ele não tivesse passado quase duas horas na cama dela naquela manhã.

Os lábios de Lucinda se entreabriram. Sua garganta se apertou. Ela não conseguia respirar.

“E onde você conseguiu esse vestido?”, ele continuou, os olhos endurecendo enquanto a multidão se inclinava para ouvir.

“Você… você me mandou”, ela sussurrou. “Havia um bilhete. Você me disse para vir.”

Millie se aproximou mais de Leonard, lágrimas falsas brilhando em seus olhos. “Você disse que se divorciaria dela, Leo. Você sabe que ela trabalhou com nossos pais para me obrigar a ir embora. E agora ela aparece aqui usando o meu vestido?”

Suspiros chocados percorreram o salão.

Lucinda sentiu o chão sob seus pés se abrir em fendas.

E o silêncio de Leonard…

Foi o golpe final.

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