Capítulo 3 Nenhuma mulher deveria implorar por amor
Lucinda já tinha sido muitas coisas na vida — filha obediente, irmã substituta, sustentáculo silencioso, gênio escondido —, mas, naquele momento, ela estava simplesmente cansada.
Exausta de um jeito que morava nos ossos. Sua ignorância sobre o amor, sobre Leonard, sobre o lugar dela naquele arranjo distorcido sempre tinha sido profunda, mas até ela sabia que, se quisesse uma saída limpa, teria de sacrificar cada pedacinho dos anos que passou construindo o império que ele agora ostentava.
Quando se casou com Leonard Roberts, o homem não era nada além de um empresário em dificuldade, com um sonho e o ego machucado.
O patrimônio dele não sustentaria uma família média nem por um ano, mas ela não tinha se importado. Amor era a moeda dela naquela época, e esperança cega.
Ela achou que, se trabalhassem lado a lado, se construíssem algo juntos, isso poderia preencher os espaços ocos no coração dele onde vivia a sombra de outra mulher.
Mas nada — nem sacrifício, nem brilhantismo, nem lealdade — podia apagar a verdade:
Millie foi a única mulher que ele amou na vida.
Eles venceram. Os pais dela, Leo, Millie… todos eles venceram. Porque, no reino da família e do amor, Lucinda não tinha do que se gabar. De absolutamente nada.
Millie, a irmãzinha sempre doente, a rosa delicada que todo mundo protegia. A garota por quem Lucinda fazia provas.
A garota cuja vida universitária ela viveu no lugar dela. A garota por quem adiou a própria educação só para usar o nome dela, sentar nas aulas dela, fazer as provas dela, conquistar o diploma dela.
Lucinda deu tanto de si mesma que muitas vezes se perguntava em que momento tinha deixado de ser uma pessoa e virado um tapa-buraco.
E, nos momentos mais baixos, mais frágeis, ela tinha se sentido satisfeita, porque, naquela época, achou que seu esforço finalmente tinha valido a pena quando conheceu Leo.
Ela acreditou que o destino tinha mandado alguém que a enxergasse, alguém que a salvasse dos valentões e sorrisse para ela como se ela importasse. Ela achou que vestir a identidade de Millie não importaria se o amor desse um jeito de entrar na vida dela.
Mas o destino tinha um senso de humor perverso.
Millie não tinha só o amor dos pais — tinha o de Leo também. Frágil, delicada, adorada Millie, a favorita de todo mundo.
Enquanto isso, Lucinda virou a garota que resolvia problemas antes mesmo que fossem ditos em voz alta. Virou a forte, a confiável, a invisível.
Até Leonard — Leonard teimoso, orgulhoso — aceitava cada sugestão de negócios que ela oferecia. Implementava como se fosse evangelho.
Ele confiava na mente dela, nas estratégias, nos instintos… exceto que nunca soube que quem sustentava a espinha dorsal do sucesso dele, a arquiteta silenciosa dos sistemas, a programadora por trás do Unicorn Blast, era a própria esposa.
Todo mês, enquanto ele elogiava o seu empreiteiro fantasma, o salário dela entrava na conta. A ironia doía. Ela era o gênio invisível financiando a base do império que ele agora usava para humilhá-la.
Então, quando ela disse: “Eu quero o divórcio”, ela falou sério. Cada sílaba carregava o peso de anos que ela jamais poderia recuperar.
Os dedos dele se soltaram do pescoço dela, e ele soltou um escárnio, como se ela tivesse contado uma piada.
“Do nada você cansou de fingir? Você não dizia que me amava?” A voz dele estava afiada, mas ela ainda percebeu o lampejo no olhar. Dor… ou algo que parecia com isso.
Talvez ela estivesse imaginando — do mesmo jeito que um dia imaginou que ele pudesse amá-la também.
Idiota. Ela tinha sido tão idiota.
Sim, ela desejava o amor dele naquela época. Sim, implorou por ele de maneiras das quais tinha vergonha demais para admitir. Mulheres fortes também precisavam de amor, e ela não tinha sido exceção. Mas a vida lhe ensinara uma lição brutal:
Nenhuma mulher deveria implorar por amor.
“Isso era antes”, ela respondeu, com uma voz enganadoramente firme. “Eu não te amo mais.”
A mentira cortou o próprio coração dela, não o dele. Todo sonho que ela já teve, toda imagem de um lar acolhedor, um parceiro amoroso, um lugar macio para cair, sempre tinha ele como protagonista.
Ela tinha planejado um para sempre com ele. Lutado por isso. Chorando por isso. Mas a realidade exigia que ela soltasse.
“Se um homem ama uma mulher”, lembrou a si mesma em silêncio, nada muda a cabeça dele.
A boca dele se retorceu. “Então o seu amor devia ser barato, patético, ou você estava simplesmente fingindo.”
Ela deu uma risada curta, amarga e afiada. “Sim, eu estava fingindo”, ela mentiu de novo. “Eu tinha vinte e dois anos e, aparentemente, velha demais para esperar por um amor de verdade.”
Os olhos dele ficaram vermelhos, e ele se aproximou. Ela abaixou o olhar na hora, mas ele segurou o queixo dela, obrigando-a a encará-lo.
“Se isso é o seu jeito de chamar minha atenção, Luci, não está funcionando. E se você acha que me ameaçar com divórcio vai mudar alguma coisa, esquece.”
Ela o encarou — encarou de verdade — e sentiu a alma se retrair. Meu Deus. Ela tinha se casado com um narcisista e não tinha percebido até agora.
“Então por que você não pode atender ao meu pedido?”, ela sussurrou. “A Millie já disse que você prometeu a ela um divórcio. Eu estou te poupando do estresse. E eu não quero seu dinheiro, Leonard. Fica com ele. Eu só quero a minha liberdade.”
Mal sabia ele que ela não precisava de um único centavo vindo dele. A hacker mais poderosa do mundo, Unicorn Blast, era ela.
A dona do império de perfumes de luxo Nature era ela.
E, embora não fosse a pessoa mais rica do planeta, em segredo ela era uma das mulheres mais ricas do mundo.
“Você quer um divórcio?”, ele repetiu. “A gente vai discutir isso em casa. Eu vou te dar os meus termos. Mas agora, tire esse vestido.”
Ela riu. “E se eu não tirar?”
Os olhos dele escureceram. “Eu disse pra tirar. Não combina com você. Você é… curvilínea demais pra ele.”
O insulto atravessou o peito dela como uma lâmina.
“Então você está me chamando de gorda”, ela o enfrentou. Algo tremulou no olhar dele, mas antes que ele pudesse falar, uma batida na porta os interrompeu.
Ele abriu a porta. A voz de Millie entrou, doce como mel com veneno.
“Você ficou tempo demais aí, amor. Se ela não quer tirar, deixa ela ficar com isso. Ela ainda é minha irmã mais velha, e até doou parte do fígado pra mim.”
Lucinda paralisou. Engraçado como ela lembrava disso agora.
“Não”, Leonard disse baixo. Baixo demais. “Eu encomendei pra você.”
O tom dele — doce, carinhoso, gentil — apertou alguma coisa no peito de Lucinda, até ela mal conseguir respirar.
Patética. Ela tinha sido patética por algum dia ter desejado o amor dele.
Um momento depois, a voz animada de Millie voltou a se ouvir. “Leo, esse vestido novo é muito mais bonito. Ela pode ficar com o que está usando, apesar de não ficar nela como ficaria em mim.”
Lucinda finalizou o próprio pedido online, com o amargor se acumulando na garganta.
Leonard atirou um vestido de luxo nela. “Troca por esse.”
A qualidade era muito superior à do que ela estava usando. Millie devia saber. Por isso queria tanto.
Mas Lucinda já tinha cansado de ser o brinquedo deles.
“Dê pra ela”, disse friamente. “E pode acrescentar esse vestido também. Tudo o que eu quero de você são os papéis do divórcio.”
Outra batida interrompeu os dois.
“Millie, eu disse—”, Leonard parou curto ao abrir a porta. “Theo? O que você quer?”
“Uma encomenda para Lucinda Almond. Mas a senhora Roberts é a única Lucinda que eu conheço.”
A encomenda dela.
Lucinda correu até a porta, arrancou o pacote das mãos dele, murmurou um obrigado forçado e sumiu no banheiro. Ela estava com o vestido pela metade quando a porta do banheiro foi escancarada.
O calor subiu às faces dela enquanto os olhos famintos de Leonard percorriam sua pele nua.
“O que você está fazendo?” O hálito dele roçou a orelha dela quando a empurrou contra a bancada da pia.
“Leo, sai.” Ela odiou o calor se espalhando pelas veias.
“A gente ainda não se divorciou”, ele murmurou, os lábios roçando o ombro dela. “E você já está usando seu nome de solteira?”
“É o nome ao qual eu vou voltar. Quanto antes eu aceitar, melhor.”
A respiração dela a traiu. A pele a traiu. O coração a traiu.
Os lábios dele desceram pelo pescoço dela, sugando com força, e ela quase gemeu — até lembrar de Millie envolta nos braços dele mais cedo.
Ela o empurrou com toda a força. “Não encosta em mim!”
Ele deu um meio sorriso. “Você diz que quer o divórcio, mas o seu corpo ainda me quer.”
A vergonha queimou dentro dela.
“O casamento”, ele disse friamente, “é até que a morte nos separe. Se você quer um divórcio, um de nós tem que morrer. E não vai ser eu.”
Um arrepio se enroscou na coluna dela. Rumores sobre as ligações mafiosas de Leonard, documentos que ela nunca tinha hackeado.
Ele era perigoso?
Ela já não tinha certeza.
“Não depende de você”, ela disse. “Eu cansei dessa sua merda. Eu me arrependo de ter ocupado o lugar da Millie. Agora que ela voltou, você pode se casar com ela depois do divórcio.”
Ela estendeu a mão para pegar o vestido novo, mas ele o agarrou e rasgou em pedaços, o som do tecido se despedaçando cortando o peito dela.
“Se você não vai vestir o que eu comprei”, ele disse, com uma voz mortal, “você pode sair daqui pelada.”
Três anos de casamento, e o homem não tinha comprado uma única flor para ela. Mas agora queria crédito por isso? Ela até riria, se o coração não estivesse sangrando.
“Três anos, Leo”, ela sussurrou. “Três anos, e você nunca me deu um único presente. Nem uma flor artificial. E agora você espera que eu aceite isso?”
Por uma fração de segundo, um batimento fugaz, o remorso passou pelo rosto dele.
Então sumiu.
“Você não merece nada de bom”, ele rosnou. “A Millie me deixou de bom humor, então seja grata.”
As lágrimas ameaçaram cair, mas ela as engoliu. Não choraria por ele de novo.
“Se a Millie é tão boa pra você, por que você ainda está se agarrando a mim?”, ela exigiu. “Vamos começar o processo de divórcio agora.”
Ele sorriu, um sorriso lento e cruel que embrulhou o estômago dela.
“Luci, você é tão ingênua”, ele murmurou. “Você realmente não sabe por que eu ainda estou preso nesse casamento?”
O desconforto cortou por dentro.
“Eu não sei”, ela sussurrou. “Então me diz.”
E ela se preparou, porque a verdade, fosse qual fosse, quebraria alguma coisa dentro dela para sempre.
