Capítulo 1
Casei com Massimo Salvatore, o chefão da máfia, trinta e duas vezes. E me divorciei dele trinta e duas vezes.
Todas as vezes pelo mesmo motivo — a preciosa Claudia dele voltava da clínica no exterior.
“Ela levou um tiro na cabeça por minha causa. Qualquer estresse pode matar ela.” Essa era a única explicação dele.
No primeiro divórcio, eu destruí a sala inteira. Ele me deu um tapa na cara: “Para com o DRAMA. A gente volta quando ela estiver estável.”
Na terceira vez, eu segui os dois até a boate e peguei eles se beijando. Eu confrontei ele — e fui trancada no porão por sete dias.
Assinar os papéis, tirar a aliança, fazer as malas. Como um pesadelo em looping.
Até a trigésima terceira vez.
Uma família rival pegou eu e a Claudia. Com uma arma apontada pra cabeça dele, ele só podia salvar uma de nós. Eu olhei pra ele, com a voz falhando: “Massimo, só dessa vez, escolhe a mim.”
Ele caminhou na direção dela.
Quatro horas depois, os homens dele me encontraram num galpão abandonado. Três costelas quebradas, sangue por todo lado. Nosso bebê — se foi.
Massimo ficou acampado ao lado da cama da Claudia no hospital, não saía de perto dela. Não me visitou nem uma vez. Nem quando eu recebi alta.
Foi aí que eu cansei.
POV da Adela
“Eu quero o divórcio.”
No meu primeiro dia fora do hospital, eu empurrei os papéis assinados por cima da mesa.
Massimo travou no meio do gole, a xícara de espresso suspensa no ar. Ele levantou o olhar, aqueles olhos cinza-escuros brilhando de surpresa.
“O quê?”
“Divórcio.” Eu repeti, calma. “A Claudia sai depois de amanhã, não é?”
Ele encarou minha assinatura, engolindo em seco. Aí pegou a caneta e assinou — liso, automático, como quem já tinha feito aquilo cem vezes.
Claudia foi o primeiro amor dele. Sete anos atrás, ela levou um tiro por ele durante uma batida e ficou com o crânio rachado. Os médicos disseram que qualquer tipo de estresse podia matar ela. Então, toda vez que ela voltava da Suíça, a gente tinha que se separar.
Trinta e três vezes, agora.
“Olha só pra você, toda cooperativa.” Massimo fechou a pasta com um estalo, satisfeito. “Já tava mais do que na hora de você entrar na linha.”
Eu mantive os olhos baixos. Não disse nada. Só tirei minha aliança e coloquei em cima da mesa.
O sorriso dele morreu. “Fica com ela.”
“Não quero deixar a Claudia nervosa.”
O rosto dele escureceu.
Divórcio número quinze — a Claudia viu a aliança no meu dedo e desmaiou. Massimo surtou, jurou que eu tinha feito de propósito. Me arrastou pra fora na chuva, me fez ajoelhar na brita e pedir desculpas pra ela. Eu fiquei lá a noite inteira. Acabei com uma febre tão forte que quase fritou meu cérebro.
“Tanto faz.” Ele varreu a aliança pra dentro de uma gaveta.
Eu fui até o closet pra fazer as malas. Passando as mãos pelas roupas, eu não senti nada — só uma dormência esquisita. Cinco anos entrando e saindo desse lugar trinta e duas vezes. Sempre achando que dessa vez era sério, que essa era a última. Sempre esperando que nem uma idiota.
Agora eu só estava cansada.
— Adela. — A impaciência se infiltrou na voz dele. — Tá me ouvindo?
— Tô.
— Três semanas. Assim que a Claudia voltar pra Suíça, a gente vai casar de novo. — Ele ficou parado na porta, com as mãos enfiadas nos bolsos. — Vai pra onde?
— Pra casa da Elise.
— Sua amiga? — A desconfiança deixou o tom dele mais cortante. — Por quanto tempo?
— Três semanas. — Fechei o zíper da mala e me virei. — Foi o que você falou, não foi? Esperar a Claudia ir embora?
Ele apertou os olhos, examinando meu rosto. — Não tenta fazer nenhuma besteira. Não surta pra cima de mim que nem da última vez.
Eu olhei pra ele — esse homem que me encurralou num hotel cinco anos atrás, a voz áspera no meu ouvido: “Seja minha esposa. Eu vou te dar o mundo.” Naquela época, os olhos dele queimavam com alguma coisa que me fazia pensar que eu importava.
Agora? Só desconfiança e irritação.
— Não se preocupa — eu disse baixo. — Eu não vou atrapalhar vocês dois.
Ele me observou por alguns segundos. A expressão dele suavizou um pouco. — Bom. Quando a Claudia for embora, eu compenso. Aquele colar que eu prometi…
— Não quero.
Os olhos dele ficaram mais duros. — Como é que é?
— Eu disse que não quero. — Eu sustentei o olhar dele, aquele vazio no meu peito gelado e oco. — Não preciso que você compense nada pra mim.
— Adela. — A voz dele baixou, a mandíbula travada. — Que porra é essa? Você tá tendo outro colapso?
— Não.
— Então qual é essa atitude? — Ele se aproximou, a voz dura. — Ainda tá puta porque eu escolhi a Claudia?
Eu encarei ele. Senti um gosto amargo na garganta.
Desde que eu perdi o bebê, ele não perguntou uma única vez se eu estava bem. Se doía. Ele só continuou explicando POR QUE tinha que escolher ela, como se ter bons motivos significasse que perder nosso filho não deveria me destruir.
— E aquela criança… — Ele parou, a voz ficando gelada. — Você acha que eu não sabia? Engravidar pra me prender? Adela, eu não sou idiota. Eu vi direitinho o seu joguinho.
Alguma coisa se retorceu no meu peito.
— Você tem razão — eu disse, bem baixo. Peguei minha mala. — Foi erro meu.
Eu saí. Ignorei ele gritando atrás de mim.
O carro se afastou da propriedade. No retrovisor, eu peguei um último vislumbre — a luz do sol bateu na mansão do jeito certo e fez aquilo parecer um castelo de conto de fadas. Mas eu sabia a verdade. Aquele lugar era uma prisão. Me manteve trancada por cinco anos.
O vazio no meu peito se espalhou, como se alguém tivesse arrancado um pedaço de mim.
Mas já não doía.
Talvez eu tivesse doído por tanto tempo que fiquei anestesiada.
Eu disquei um número que eu nunca salvei.
Três toques. Alguém atendeu.
Só respiração do outro lado. Nenhuma palavra.
Eu mudei pro italiano, a voz quase sumindo:
— Pai…
Silêncio.
Só aquela respiração baixa.
— Sou eu. — Eu vi a cidade virar um borrão pela janela, com os olhos ardendo. — Eu quero voltar pra casa.
