Capítulo 4

POV da Adela

Eu ouvi tudo aquilo e não senti nada. Quase ri.

Ele não sentiu minha falta. Só sentiu falta de me ter por perto. Sentiu falta de ter alguém cuidando daquelas contas chatas, alguém que, em silêncio, consertava as bagunças dele. Claro que ele ia ficar desconfortável quando aquela rotina fosse interrompida.

Mas esse desconforto não tinha nada a ver com amor.

Nos dias seguintes, o Massimo pareceu perceber que tinha alguma coisa errada. Começou a tentar me reconquistar.

Todas as manhãs, às nove em ponto, café e café da manhã apareciam na porta da Elise. Não era delivery aleatório — era daquele bistrô francês de que eu gostava.

À tarde chegavam flores — lírio-do-vale branco. Eu tinha comentado uma vez, sem dar importância, que o cheiro lembrava orvalho da manhã.

As ligações de madrugada passaram das duas da manhã para oito da noite. Ele perguntava “você comeu?” e “onde você foi hoje?”, falando com cuidado.

— Que diabos esse desgraçado tá aprontando? — Elise encarou o quinto buquê com desconfiança.

— Não faço ideia — eu disse, ajeitando as flores num vaso. — Talvez só esteja provando que ainda consegue me controlar.

No sétimo dia, ele começou a mandar áudios.

“Adela, o Antonio disse que você repassou todos os arquivos do projeto. Bem detalhado. Obrigado.”

“Passei naquela galeria hoje. Lembrei que você queria aprender pintura a óleo. Quer ir lá comigo?”

“Não esquece de comer. Seu estômago é sensível.”

Eu não respondi a nenhum. Só via a tela do celular acender e apagar, via aquelas mensagens não lidas se acumulando.

Quarta-feira, cinco da tarde.

Eu estava arrumando minhas últimas coisas. Passagem, passaporte, o essencial. O resto não importava.

A campainha tocou.

Pelo olho mágico, eu vi o Marco, motorista do Massimo, e dois seguranças.

Abri a porta.

— O que foi?

— Senhorita Adela — disse Marco, respeitoso —, o chefe mandou a gente buscar a senhora. Hoje à noite, sete e meia. Ópera.

— Eu nunca concordei em ir.

— O chefe disse… — Marco pareceu sem graça, olhou de lado para os seguranças atrás dele — que, se a senhora não quiser, a gente vai… escoltar.

Os dois seguranças se endireitaram.

Olhei o relógio, pensei um instante, peguei minha bolsa.

— Tá bom. Vamos acabar logo com isso.

Eu já ia embora hoje mesmo. Melhor dar a esse circo um final decente. Uma última vez.


19h, Metropolitan Opera.

O Rolls-Royce parou na frente. Marco abriu a porta para mim.

— Senhora, o chefe já está chegando.

Eu desci com o ingresso na mão. A entrada fervilhava de convidados em trajes de gala.

Fiquei parada nos degraus, cercada por casais.

Sete e quinze. Massimo ainda não tinha aparecido.

Eu mandei mensagem: “Cheguei.”

Ele visualizou. Não respondeu.

Sete e meia. A ópera começou.

Meu celular vibrou. Áudio.

“Adela, me desculpa. A Claudia está com uma dor de cabeça muito forte. Tive que levar ela pro hospital. Entra e assiste, eu vou assim que eu terminar aqui.”

Eu desliguei o celular, não esperei mais. Entrei no teatro.

O camarote particular estava vazio, tirando eu. No palco, os artistas deram início ao primeiro ato.

As luzes se apagaram.

Fechei os olhos.

Seis anos atrás. Este mesmo teatro.

Eu tinha acabado de chegar a Nova York. Aquela noite era para ser uma apresentação normal. Então os tiros ecoaram.

Guerra de gangues. Balas estilhaçaram vidro, gente na plateia gritou e saiu correndo.

Eu me encolhi atrás da poltrona, ouvindo os disparos se aproximarem, achando que ia morrer.

Então um homem se colocou na minha frente. Um tiro. A bala pegou no ombro dele, e o sangue encharcou a camisa branca.

Ele se virou para olhar para mim. Olhos cinza-escuros, com algo feroz queimando lá dentro que fez meu coração disparar.

“Você está segura”, ele disse.

Mais tarde, eu descobri que o nome dele era Massimo.

Eu me apaixonei pelo homem que levou uma bala por mim. Todas as vezes que eu quis ver esta ópera nos últimos cinco anos, foi para voltar àquele momento — o momento em que ele tinha aceitado se machucar por uma desconhecida como eu.

Mas ele nunca se lembrava.

Para ele, tinha sido só mais um tiroteio no meio de tantos outros. E eu era só alguma estranha que, por acaso, estava ali.

Não valia a pena lembrar.

No palco, a soprano chegou à parte mais triste. Ela inclinou a cabeça para trás, as lágrimas cintilando sob o refletor.

Abri os olhos e senti algo quente escorrer pela minha bochecha. Limpei.

Tinha acabado. Aquele Massimo que levou uma bala por mim nunca existiu. Ou talvez ele só tenha existido naquele único instante.


21h. A ópera terminou.

O público foi saindo, casais comentando o espetáculo de braços dados. Eu caminhei para fora. O vento da noite estava gelado, cortou meu rosto como uma lâmina.

Meu celular vibrou. Número desconhecido.

Uma foto.

Massimo deitado na cama, camisa amarrotada, colarinho aberto. Claudia encostada nele, cabelo bagunçado, fazendo sinal de paz para a câmera.

Legenda: “Ele vai ver as estrelas comigo hoje à noite ❤️ Obrigada por entender~”

Eu reconheci a vista pela janela. Não era um hospital. Era o apartamento dele, no Upper West Side.

Já tinha sido a minha casa também.

Fiquei encarando aquela foto. De repente, eu ri. Depois chamei um táxi.

“Pra onde, moça?”

“JFK.”


Quando eu já ia embarcar, meu celular tocou. Massimo.

Atendi.

“Adela! A Claudia está estável agora, eu estou indo aí ag—”

“Massimo”, eu o interrompi, “você se lembra de seis anos atrás? Aquele tiroteio no teatro?”

Ele ficou em silêncio: “O quê?”

“Você me salvou”, eu disse, baixo. “Neste teatro. Naquela noite, eles estavam apresentando ‘Lágrimas ao Luar’.”

Silêncio do outro lado por um bom tempo.

“Desculpa, eu… não lembro direito.”

“Eu sei”, eu disse. “Assim como você não lembra do nosso aniversário de verdade. Não é hoje.”

“Adela—”

Eu desliguei, apaguei todos os contatos dele e então entrei no finger sem olhar para trás.

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