Capítulo 2

POV da Nora

“Temos um milhão de dólares da plaquinha 12!”, anunciou o leiloeiro, eufórico. “Alguém oferece 1,1 milhão?”

O salão inteiro emudeceu. Um dinheiro desses, mesmo ali, impunha respeito.

“Um milhão uma vez... um milhão duas vezes... Vendido! Para a plaquinha 12, por um milhão de dólares!”

Aplausos explodiram. Kyle subiu em direção ao palco, e foi então que eu vi uma mulher.

Ela se levantou de um assento na primeira fila, o rosto radiante, as mãos entrelaçadas de pura alegria. Estava deslumbrante num vestido azul-escuro que provavelmente custava mais do que o meu carro; o cabelo castanho-avermelhado preso, deixando à mostra um pescoço elegante.

Um pescoço que, naquele momento, estava nu. À espera.

Kyle chegou ao palco, apertou a mão do leiloeiro e então se virou para ela. Abriram a vitrine, e ele ergueu o colar com todo cuidado.

O salão de baile inteiro assistiu enquanto ele descia os degraus do palco, enquanto se aproximava dela, enquanto ela se virou e levantou o cabelo para expor o pescoço.

Eu não conseguia respirar. Não conseguia me mexer. Não conseguia desviar o olhar.

Kyle prendeu o colar em volta do pescoço dela, os dedos gentis contra a pele. Quando ela se virou de volta para encará-lo, os diamantes pegaram a luz e a espalharam pelo rosto iluminado dela. Eles se beijaram, ela sussurrou alguma coisa no ouvido dele, e a plateia voltou a explodir em aplausos.

“Senhoras e senhores, uma contribuição generosa para as causas desta noite e um gesto lindo”, anunciou o leiloeiro. “Mais uma salva de palmas para Kyle Vaughn, da Vaughn Mining!”

Minhas unhas afundaram nas palmas das minhas mãos. Os aplausos soavam como se viessem debaixo d’água, distorcidos e estranhos.

Kyle Vaughn. Acabou de gastar um milhão de dólares num colar para outra mulher.

“Nora”, Claire sussurrou, urgente, procurando minha mão. “Meu Deus, não é a—”

“É.” Minha voz saiu firme, o que foi um milagre, considerando que o meu mundo inteiro tinha acabado de se despedaçar. “Esse é o meu namorado.”

Benjamin se inclinou para a frente, com o rosto abatido. “A gente— você quer ir embora? A gente pode ir embora.”

Eu queria. Meu Deus, eu queria sair correndo daquele salão e nunca mais olhar para trás. Mas eu não podia. Eu estava ali representando a DSW. Se eu fosse embora agora, iam notar. E isso ia pegar mal para a filial, para todo mundo que trabalhava no departamento.

Então eu fiquei. Fiquei e assisti Kyle e aquela mulher voltarem para os lugares deles, a mão dela apoiada no braço dele, aquele colar obsceno brilhando no pescoço. Fiquei durante o resto do leilão, durante o serviço do jantar, durante os discursos sobre generosidade e comunidade.

Mas eu morria um pouco por dentro a cada minuto que passava.

Quando finalmente serviram a sobremesa e as pessoas começaram a circular e conversar, eu soube que precisava sair dali. Não ir embora — isso seria óbvio demais —, mas eu precisava de espaço para respirar, para pensar, para entender que diabos estava acontecendo.

“Eu preciso ir ao banheiro”, eu disse, me levantando sobre pernas que pareciam que iam ceder a qualquer segundo.

“Você quer que eu vá com você?”, Claire perguntou, com os olhos cheios de preocupação.

“Não. Fica aqui. Eu volto em alguns minutos.” Peguei minha bolsa e fui abrindo caminho pela multidão, de cabeça baixa, rezando para não esbarrar em—

“Nora?”

Eu congelei. Me virei. E lá estava ele, a menos de três metros de distância, com aquela mulher ainda ao lado dele, aquele colar de milhões brilhando de um jeito obsceno no pescoço dela.

O rosto de Kyle tinha ficado branco. Um pânico puro atravessou suas feições.

Acelerei o passo, saindo do salão de baile para o corredor, sem querer explodir lá dentro.

Ele veio logo atrás, os passos se aproximando às minhas costas.

— Nora, eu posso explicar...

— Pode mesmo? — eu cortei, rindo, e o som saiu amargo até para mim. — Por favor, me ilumina. Explica como você fica me mandando mensagem sobre o nosso aniversário enquanto planeja ficar com outra pessoa. Estou morrendo de vontade de ouvir.

Ele chegou mais perto, o desespero claro nos olhos cor de âmbar.

— Não é o que você está pensando. Isso é só... é pra manter as aparências. Os Taylor e a minha família estão negociando uma fusão. Minha mãe insistiu que eu fizesse um gesto público pra mostrar compromisso com a parceria. Não significa nada...

— Não significa nada? — eu encarei ele, incrédula. — Kyle, você acabou de beijar ela na frente de umas duzentas pessoas e colocou no pescoço de outra mulher um colar que você comprou. Mas claro, não significa nada.

— Nora, amor, por favor... — Ele estendeu a mão pra pegar a minha, e eu puxei de volta.

— Não ouse me chamar de “amor” agora. Acabou.

— Eu não concordo. — A voz dele ecoou pelo corredor.

Antes que eu pudesse reagir, Kyle agarrou meu pulso com força, os dedos apertando o suficiente pra doer.

Ele me conduziu até uma porta com a placa SAÍDA DE EMERGÊNCIA, olhando nervoso por cima do ombro na direção do salão, como se estivesse com medo de alguém ver a gente. A escada de serviço era de concreto e gelada, e nossos passos ecoavam enquanto descíamos meio lance.

— Nora, por favor. — Ele bloqueou meu caminho, os olhos cor de âmbar desesperados. — Dá pra gente só... dá pra dar um tempo? Só por enquanto. Eu juro pra você, eu não vou me casar com a Amelia. A pessoa com quem eu sempre quis me casar foi você. Só você.

Eu encarei ele — esse homem que passou dois anos da faculdade me perseguindo, que me venceu pelo cansaço com a insistência e as promessas. Esse lobo Alfa que jurou que eu era a companheira dele, a luz do luar dele, o tudo dele. E agora ele estava ali, me pedindo pra esperar enquanto brincava de casinha com outra.

— Dar um tempo — eu repeti, com a voz sem vida. — Você quer que a gente dê um tempo enquanto você fica de intimidade com outra mulher.

— Não é assim... — Ele estendeu a mão pra mim de novo, mas eu recuei. — Eu ainda sou novo na empresa. Meu pai e minha mãe controlam tudo. Eu ainda não tenho poder de verdade. Por enquanto eu tenho que seguir as regras deles.

— Por enquanto. — A risada que me escapou soou vazia até pra mim. — E quanto tempo é “por enquanto”, Kyle? Até seus pais decidirem que você se provou? Até você herdar tudo? Até eu virar sua amante?

— Nora, amor...

— Não. — Eu ergui a mão, cortando ele. — Eu entendo perfeitamente. Eu entendo que o dinheiro da sua família e a sua posição na empresa importam mais pra você do que eu.

Ele desviou o olhar, a culpa passando pelo rosto.

— Se o nosso setor não tivesse sido convidado hoje, eu teria descoberto? — eu apertei. — Ou você ia esconder isso de mim pra sempre?

O silêncio dele foi resposta suficiente.

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