Capítulo 1
Meu marido comprou três passagens para Lisboa: uma para ele, uma para a nossa filha, uma para a consultora de bem-estar dele.
O quarto e-mail não era uma passagem. Era um formulário de clínica. Objetivo do tratamento: transtorno de apego ao cônjuge e à filha menor. Solicitante: meu marido.
Eu não chorei no estacionamento do aeroporto. Diante dele, diante dela, diante da minha filha de doze anos que já tinha escolhido o lado dele, eu peguei o celular e apertei "concordo".
Três meses depois ele veio me buscar. O tratamento funcionou. Eu lembro de tudo — só não sinto mais nada.
Agora quem está de joelhos pedindo que eu me lembre é ele.
O estacionamento do aeroporto de Guarulhos tem um cheiro que eu nunca tinha reparado em onze anos de casamento: cheiro de concreto quente e de despedida. Naquela quinta-feira de manhã eu reparei, porque foi ali, entre uma van branca e um pilar pintado de amarelo, que a minha vida deixou de fechar a conta.
Otávio tinha me pedido para levar a Lívia até o terminal. "Só um abraço de despedida", ele disse na véspera, sem me olhar nos olhos. "Ela vai sentir falta de você." Eu achei que era uma viagem de trabalho dele com a Lívia a tiracolo, uma daquelas conferências médicas em que ele exibia a filha como se exibe um diploma. Eu não desconfiei da terceira mala.
A terceira mala era cor-de-rosa, com um adesivo de palmeira, e estava encostada na perna de Bruna Salles.
Bruna é coach de bem-estar. Foi assim que ela se apresentou no jantar da clínica, oito meses antes, com um sorriso treinado e a mão fria. "Trabalho com regulação emocional", ela disse, e eu, idiota, achei graça da expressão. Naquela manhã ela estava de óculos escuros, com uma echarpe que custava mais que o meu mês de aluguel do antigo ateliê, e segurava a mão da minha filha.
— Mãe — disse Lívia, e havia uma cautela na voz dela que eu não reconheci. — A gente vai pra Lisboa.
— A gente quem, filha?
Otávio apareceu por trás do carro com o celular na mão, como sempre. Otávio sempre teve o celular na mão como outros homens têm aliança no dedo: um sinal de pertencimento a alguma coisa que não era eu.
— Helena. — Ele disse o meu nome com a paciência de um médico que vai dar uma notícia. Ele é cirurgião; ele sabe dar notícias. — Eu ia te explicar com calma, em casa. Mas já que você está aqui.
— Explicar o quê.
Foi então que ele virou a tela do celular para mim. Não para eu ler — Otávio nunca queria que eu lesse nada, ele queria que eu obedecesse ao resumo. Mas eu li mesmo assim, rápido, do jeito que se lê a conta quando o garçom já está esperando.
Três passagens. Otávio Duarte. Lívia Duarte. Bruna Salles. Lisboa, ida sem volta marcada.
E embaixo, um quarto item. Não era passagem. Era um anexo em PDF, um formulário com um cabeçalho que eu levaria o resto da vida para esquecer: Instituto Solano — Programa de Dessensibilização Emocional.
Solicitante: Otávio Duarte.
Paciente: Helena Duarte.
Objetivo do tratamento: transtorno de apego excessivo ao cônjuge e à filha menor.
Eu li três vezes. Na terceira, as letras pararam de ser palavras e viraram apenas formas, como acontece quando a gente repete o próprio nome até ele perder o sentido. Apego excessivo. Como se amar fosse um número que tinha estourado o orçamento. Como se o meu amor pela minha própria filha precisasse ser tratado.
Tinha mais coisa no formulário. Eu rolei a tela com o polegar, e o Otávio fez menção de pegar o celular de volta, mas eu virei o corpo de leve, do jeito de quem protege a tela do sol, e continuei lendo. Havia uma lista de "sintomas" descritos pelo solicitante. Liga para a filha em excesso. Demonstra ansiedade quando o cônjuge se ausenta. Resiste a delegar cuidados parentais a terceiros qualificados. Terceiros qualificados. A Bruna era a terceira qualificada. Eu tinha resistido a entregar a minha filha à amante do meu marido, e isso tinha virado um sintoma, com uma marcação ao lado, num formulário com letra de médico.
Havia até uma data. O formulário tinha sido preenchido três semanas antes. Três semanas. Enquanto eu fazia o jantar, enquanto eu dobrava as camisas dele, enquanto eu perguntava se ele tinha tido um bom dia na clínica, ele já tinha sentado em algum lugar e escrito, com calma, um documento que classificava o meu amor como doença. A traição não tinha sido a Bruna. A Bruna era detalhe. A traição era aquele documento, frio, paciente, datado.
— Você quer me internar — eu disse. A minha voz saiu estranhamente firme, e foi a primeira coisa que me assustou em mim. — Por amar vocês demais.
— Não é internação, Helena. — Otávio falou devagar, como quem ensina. — É um programa. A Bruna explicou tudo pra mim. Você sufoca a Lívia. Você me sufoca. Esse seu jeito de... — ele procurou a palavra, e a encontrou na boca dela, não na dele — ...de se agarrar. Não é saudável. Tem tratamento.
— Tem tratamento — repeti.
— A Dra. avaliou o seu caso pelo meu relato. É um quadro de apego ansioso. Dessensibilização emocional temporária. Você sai de lá leve. — Ele quase sorriu. — Eu só quero o seu bem.
Eu olhei para a Lívia. Doze anos. O cabelo preso num coque torto que ela mesma fez, e que eu ainda quis, por reflexo de mãe, ajeitar. Procurei nos olhos dela alguma coisa — um pedido de socorro, uma confusão, qualquer rachadura por onde eu pudesse entrar. E o que eu encontrei foi pior do que ódio. Era vergonha. A minha filha tinha vergonha de mim, e a vergonha de uma criança é uma coisa que os adultos ensinam.
— Filha — eu disse, e dei um passo na direção dela.
Ela recuou. Recuou para mais perto da Bruna, e a Bruna, com aquele instinto de quem sabe ocupar espaço vazio, pousou a mão de leve nas costas dela. Foi um gesto pequeno e foi a coisa mais violenta daquela manhã inteira.
— A Bruna deixa tudo normal — disse a minha filha, baixinho, sem coragem de levantar os olhos do chão. — Você só faz o papai se sentir culpado.
Foi aí que a dor que eu esperava não veio. No lugar dela veio uma frieza que eu não conhecia, larga e silenciosa, a frieza de quem finalmente entende a planilha inteira de uma vez. Os sábados em que ele "trabalhava". A echarpe de Bruna no banco do carro. A forma como a Lívia tinha começado a me responder com as palavras de uma adulta que não era eu. Tudo de repente fechava. E o que fecha para de doer e começa a virar outra coisa.
Otávio ainda segurava o celular. Na tela, o formulário tinha um botão verde no rodapé: O paciente concorda com o início do programa. Ele esperava que eu chorasse. Que eu implorasse. Que eu me agarrasse — para provar, ali, no estacionamento, que ele tinha razão sobre o meu apego.
Eu estendi a mão e peguei o celular dele.
— Helena, o que você...
Eu apertei o botão verde.
O celular fez um tilintar alegre, ridículo, de tarefa concluída. Concordância registrada.
— Pronto — eu disse, devolvendo o aparelho na mão dele, que continuava aberta no ar como se tivesse esquecido o que fazer com ela. — Vou. Vou me tornar mais fácil de abandonar. É isso que você quer, não é? Que eu pare de amar vocês a ponto de atrapalhar.
Bruna tirou os óculos escuros. Pela primeira vez ela pareceu não ter um roteiro. A Lívia levantou os olhos, finalmente, e havia neles um susto de criança que percebe que o jogo dos adultos é de verdade. Otávio abriu a boca e não disse nada.
Eu peguei a minha bolsa do banco do carona. Não dei tchau para a minha filha — não porque não quisesse, mas porque eu sabia que se eu a abraçasse ali, eu provaria o ponto dele, e eu não ia dar a ele essa última vitória.
— A clínica manda um carro? — perguntei. — Ou eu pego um Uber para a minha própria cura?
Ninguém respondeu. O avião deles partia em duas horas. O meu tratamento começava naquele mesmo dia.
