Capítulo 2

O Instituto Solano não parecia um lugar onde se apaga gente. Parecia um spa.

Ficava em Alphaville, atrás de um muro branco coberto de buganvílias, com um pátio interno onde uma fonte de pedra clara escorria água sobre seixos arredondados. Tudo no Solano era arredondado e claro: os sofás, os vasos, as vozes dos atendentes. Como se a dor pudesse ser limada nas quinas até não machucar mais ninguém — principalmente quem causou a dor.

Otávio tinha ligado da sala de embarque para "deixar tudo encaminhado". Foi a frase dele. Deixar tudo encaminhado. Quando eu cheguei na recepção, a moça atrás do balcão já sabia o meu nome e já tinha o meu prontuário aberto, montado a partir do relato dele.

— A senhora é a esposa do Dr. Otávio — ela disse, sorrindo. — Ele adiantou a sua ficha. Que carinho, né? Cuidar assim.

— Que carinho — eu repeti. Eu estava começando a repetir as frases das pessoas, descobri, como quem segura uma corda escorregadia.

Quem me recebeu foi o Dr. Bruno Pacheco, um homem de uns cinquenta anos com voz de locutor de rádio noturno. Ele leu o formulário na frente de mim, devagar, e em algum momento franziu a testa.

— Aqui consta que o senhor seu marido autorizou o início — disse ele. — Mas o protocolo é claro. A dessensibilização emocional é um procedimento sério, com efeitos colaterais reais e sem garantia de reversão completa. Eu preciso da sua confirmação verbal. Da senhora. Não dele.

Foi a primeira vez, em meses, que alguém de dentro do sistema dele se virou para mim e perguntou o que eu queria.

— Ele me disse que eu já tinha concordado — falei.

— A concordância digital existe — Pacheco assentiu. — Mas eu não inicio nada sem ouvir do paciente, com as próprias palavras, que entendeu o que vai acontecer. A senhora entende que pode perder, de forma talvez permanente, a sua resposta afetiva a determinadas pessoas?

A pergunta ficou parada no ar entre nós, e dentro dela havia uma saída. Eu vi a saída com clareza. Bastava dizer não entendo, não quero, me tirem daqui, e o Dr. Pacheco rasgaria o formulário, e eu iria para casa — para uma casa onde a minha filha achava que eu só servia para deixar o pai culpado, e onde o meu marido já tinha comprado a passagem da outra.

— Eu entendo — eu disse. — E eu quero.

Eu não queria me curar do meu amor. Eu queria ver até onde aquilo ia. Queria saber qual era o fundo do que o Otávio tinha começado.

Pacheco me olhou por um longo segundo, como quem mede uma coisa que não cabe no formulário, e então assinou.

No formulário, mais embaixo, havia uma cláusula que eu li sozinha enquanto a enfermeira preparava o meu quarto: Nos primeiros 14 dias, o contato do paciente com cônjuge e filhos fica restrito e sujeito à aprovação do solicitante.

Solicitante. Otávio. Ele tinha pedido para restringir o meu contato até com a minha própria filha — e ainda guardado para si o poder de aprovar, ou não, cada telefonema. O homem que dizia que eu amava demais tinha desenhado, com letra de médico, uma cerca entre mim e tudo que eu amava.

A primeira sessão foi naquela noite.

Não havia choque, não havia agulha, nada de filme de ficção científica. Havia um fone de ouvido, uma poltrona reclinável e a voz calma da técnica.

— Pensa numa pessoa que te causa sofrimento — ela disse. — Não force. Deixa o rosto vir sozinho.

Veio o Otávio. Claro que veio o Otávio. O rosto dele virando a tela do celular para mim no estacionamento.

Um pulso de som grave começou no fone, baixo, ritmado como um coração lento. A técnica falava por cima, conduzindo a imagem, pedindo que eu sustentasse o rosto dele enquanto o som ia, sutilmente, dessincronizando da minha respiração, tornando a imagem dele menos nítida, menos minha, mais distante — uma fotografia que alguém vai afastando dos olhos.

Quando acabou, eu não senti nada de especial. Achei até que não tinha funcionado.

— É assim mesmo — disse a técnica, retirando o fone com cuidado, como quem desliga um aparelho caro. — Ninguém sente nada na hora. O efeito é cumulativo. A senhora vai perceber pela ausência, não pela presença. Um dia vai pensar nessa pessoa e reparar que a parte que doía não doeu. — Ela sorriu, profissional. — As pacientes costumam dizer que é como tirar um sapato apertado que a gente já tinha esquecido que estava usando.

Eu quis dizer a ela que talvez o sapato apertado fosse a única coisa me mantendo de pé. Mas não disse. Eu estava aprendendo a guardar as frases para mim, lá dentro, onde o Otávio nunca tinha conseguido entrar.

Naquela noite, no quarto branco e arredondado do Solano, eu dormi a noite inteira sem acordar. Pela primeira vez em meses. E foi essa a primeira coisa que me assustou de verdade: não a sessão, mas o sono.

Porque o sono significava que alguma coisa tinha, sim, começado a funcionar. Eu vinha dormindo mal havia meses — o tipo de sono picado de quem deita ao lado de um homem e conta as respirações dele para saber se está mesmo dormindo ou se está esperando você dormir primeiro. Aquele era um sono de vigia. E na primeira noite longe dele, longe da casa, longe da cerca que ele tinha desenhado com letra de médico, o meu corpo desligou o vigia e dormiu de uma vez, fundo, como se finalmente ninguém estivesse à espreita.

Eu acordei descansada e tive nojo do meu próprio descanso. Porque descansar ali, naquele lugar onde ele tinha me trancado, era dar razão a ele. Era admitir, com o próprio corpo, que talvez eu estivesse melhor sem o peso de amá-los. E eu não estava pronta para admitir isso — ainda não.

No segundo dia eu fui chamada para a avaliação com a Dra. Marina Reis, a psicóloga da casa. Ela era diferente do Dr. Pacheco: mais nova, de cabelo curto, com um jeito de perguntar pouco e ouvir muito. Ela não tinha o meu prontuário aberto. Tinha um caderno em branco.

— Eu não quero a versão do seu marido — ela disse, antes mesmo de eu sentar. — Eu já li a versão dele. Eu quero a sua. Me conta, com as suas palavras, por que você acha que está aqui.

Eu abri a boca para repetir a frase do formulário — transtorno de apego — porque era a frase que estava no ar, era a corda escorregadia. Mas a Dra. Marina me olhou de um jeito que tornava a mentira cansativa demais de sustentar.

— Eu estou aqui — eu disse, devagar — porque amar a minha família demais ficou inconveniente para a vida que o meu marido queria ter sem mim.

Ela não anotou isso com pressa. Ela parou, olhou para mim, e só depois escreveu uma única linha. Eu não vi o que era. Mas naquele momento eu soube que, naquele prédio de paredes arredondadas onde tudo era feito para não machucar quem machucava, havia pelo menos uma pessoa anotando a verdade num caderno. E eu guardei isso também, sem saber que um dia aquele caderno me devolveria a vida.


Capítulo Anterior
Próximo Capítulo