Capítulo 3

No segundo dia eu ouvi as enfermeiras conversando no corredor, do jeito que as pessoas conversam quando acham que a paciente da dessensibilização não vai se importar com nada.

— O marido dela viajou — disse uma. — Pra Portugal. Levou a filha e a consultora.

— A consultora-consultora? — disse a outra, e riu baixinho.

Eu fiquei parada do lado de dentro da porta, com a mão na maçaneta, esperando a facada. Otávio em Lisboa, com a Lívia e com a Bruna, hospedados sabe-se lá em que hotel de fachada azulejada, enquanto eu estava num quarto arredondado aprendendo a não senti-los. A facada não veio inteira. Veio um corte fino, quase elegante, e depois passou.

No terceiro dia, o aplicativo da escola da Lívia — que eu ainda não tinha conseguido desinstalar do meu coração — me empurrou uma notificação. A escola posta fotos das viagens dos alunos quando os pais autorizam. E o Otávio tinha autorizado.

Era uma foto dos três no Mirante de Santa Catarina, o Tejo atrás deles, dourado. A Lívia no meio. Bruna com a mão no ombro dela. E uma legenda, escrita por algum funcionário bem-intencionado a partir do que o Otávio mandou:

"Que sorte a da Lívia ter, ao lado, a energia materna de que ela precisa."

A energia materna. Eu li aquilo três vezes — eu ainda contava as vezes — esperando a onda. Esperando ser arrastada para o fundo, como tinha sido arrastada tantas vezes naqueles meses, sozinha no banheiro, com a mão na boca para a Lívia não me ouvir.

A onda veio. Eu senti chegar, como se sente o trovão depois do relâmpago, contando os segundos. Um. Dois. Três.

E ela quebrou — longe. Lá longe, numa praia que não era a minha. Eu vi a foto da minha filha sendo chamada de filha de outra mulher, e a dor existiu, mas existiu do lado de fora de mim, como a dor de uma cena num filme. Eu sabia que devia estar me afogando. E eu estava em pé, na água até os tornozelos, vendo a onda passar.

Isso era novo.

Eu ampliei a foto com os dedos, deliberadamente, do jeito que se cutuca um dente que dói para confirmar que ainda dói. A Lívia estava com o cabelo solto — eu nunca a deixava sair de casa com o cabelo solto na frente do rosto, ela coçava os olhos e ficava com terçol. Reparei que estava com a blusa de manga curta no fim da tarde de Lisboa, e a parte de mim que tinha sido mãe durante doze anos registrou, automática: ela vai pegar friagem do Tejo, ninguém ali sabe que ela é resfriada. O pensamento veio com toda a informação. Mas sem o aperto. Era um alerta sem alarme, uma sirene tocando atrás de um vidro grosso.

E a Bruna com a mão no ombro dela. Três meses antes, essa imagem teria me derrubado no chão do banheiro com a mão na boca. Agora eu olhava a mão da outra mulher no ombro da minha filha e o que eu sentia era... constatação. Então é ela ali, no lugar que era meu. Ponto. Sem o resto. Sem a parte que costumava vir junto e que arrancava pedaço.

Eu fui até a janela do quarto e olhei a fonte de pedra escorrendo no pátio, a água sem fim correndo sobre as mesmas pedras, e eu pensei, com uma clareza fria que me arrepiou: está funcionando.

O Otávio tinha pedido para apagar o meu amor. E o meu amor estava sendo apagado. Pela primeira vez eu entendi que a coisa que ele tinha começado talvez fosse, de fato, possível. E pela primeira vez eu me perguntei o que sobraria de mim quando a última gota tivesse escorrido sobre as pedras.


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