Capítulo 4

A coisa que ninguém te conta sobre perder o amor é que você perde primeiro as bordas dele.

No quinto dia, lembrei de uma noite de três anos antes, quando a Lívia teve quarenta de febre e eu fiquei acordada até de manhã com a mão na testa dela, contando a respiração, com um pavor tão grande no peito que eu rezei — eu, que não rezo — para um Deus em quem eu não acreditava, oferecendo qualquer coisa em troca. Eu lembrava de cada detalhe daquela noite. A toalha úmida. O termômetro digital piscando. A camisola dela grudada nas costas.

Lembrava de tudo. Só que lembrava como quem lê o diário de outra pessoa.

O pavor não estava mais lá. A história estava intacta, completa, com todos os fatos no lugar — mas o fio que ligava aquela história ao meu peito tinha sido cortado. Era a memória de um amor enorme, narrada por alguém que não amava mais. Como ouvir a gravação da própria voz cantando uma música que você esqueceu como sentir.

Eu sentei na beira da cama do quarto do Solano e tentei, de propósito, me machucar com a lembrança. Forcei. Imaginei a Lívia pequena, recém-nascida, o peso dela no meu braço pela primeira vez, aquele cheiro de cabeça de bebê que dizem que vicia. E nada. Os fatos vinham. O sentimento, não.

As sessões continuavam, uma por dia, sempre iguais: o fone, a poltrona, a voz da técnica, o pulso grave que ia descolando a imagem do peito. Mas agora eu reparava no efeito entre as sessões, no cotidiano, em coisas mínimas. No sexto dia, uma criança chorou no corredor da clínica — filha de outra paciente — e o som de criança chorando, que durante doze anos tinha me feito ficar em alerta como um animal, atravessou a parede e não me moveu. Eu reparei que não tinha me levantado. Antes, eu teria me levantado antes de pensar.

No sétimo dia, peguei o celular para ligar para a Lívia — por hábito, na hora em que ela saía da escola, o horário em que o meu corpo durante anos me empurrava para o telefone — e percebi, com o dedo já no número dela, que eu não tinha o que dizer. Não porque a restrição do Otávio me impedisse, embora impedisse. Mas porque o impulso tinha sumido. A vontade física de ouvir a voz dela, aquela urgência que não pedia licença, tinha sido drenada. Eu olhei o número na tela por um tempo e guardei o telefone. E o pior: guardei sem dor.

Cada dia tirava uma camada. Primeiro foram as bordas — os pequenos cuidados automáticos. Depois o miolo — o pavor, a urgência, a ternura. Eu fui acompanhando a própria demolição como um engenheiro acompanha a implosão de um prédio, andar por andar, e a parte de mim que ainda era contadora foi anotando friamente cada andar que caía.

Foi nesse instante que eu entendi a dimensão real do que estava acontecendo, e foi a primeira vez que eu tive medo — não dele, mas do tratamento.

Porque até ali eu tinha entrado naquela clínica como quem entra num jogo de braço, achando que ia provar um ponto. Olha o que você está me fazendo, Otávio. Eu imaginava sair de lá igual, só endurecida, e bater a porta na cara dele com a frieza intacta de quem ganhou.

Mas não era endurecimento. Era subtração. Eles não estavam me deixando mais forte; estavam me apagando, gota por gota, e a gota que escorria era exatamente a parte de mim que tinha valido a pena.

O Otávio queria uma esposa que amasse menos. Ele talvez fosse conseguir uma esposa que não amasse nada. E o assustador — o que me deixou acordada naquela noite, eu que vinha dormindo tão bem — foi descobrir que, mesmo sabendo disso, eu não conseguia mais querer voltar atrás.

Querer voltar atrás também era um sentimento. E os sentimentos estavam acabando.

Naquela noite eu não rezei. Eu olhei o teto branco e arredondado e fiz uma conta fria: se ele me quis assim, ele vai me ter assim. E vai descobrir, quando vier me buscar, que a fatura de apagar uma pessoa é paga por quem pediu o apagamento.


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