Capítulo 1
No dia em que eu estava prevista para dar à luz, meu marido, Matteo, me trancou num freezer subterrâneo a dez graus negativos.
A regra inquebrável da família Torrino: o primogênito homem herda todo o império da máfia. Minha cunhada, Jennifer, e eu estávamos grávidas, com as datas previstas separadas por apenas um dia. Para garantir que o filho do irmão dele nascesse primeiro, Matteo tomou essa decisão insana.
— O bebê do meu irmão e da Jennifer tem que nascer primeiro — ele disse. — É isso que você deve a eles!
Ele ignorou minhas súplicas desesperadas e as contrações violentas, e me empurrou com frieza para dentro do freezer.
Mas não parou por aí. Eles me aplicaram à força injeções com remédios para atrasar o parto. Eu me encolhi, em agonia, no chão de concreto gelado, sentindo meu bebê ir embora aos poucos, enquanto lágrimas de desespero escorriam pelo meu rosto.
Meu bebê... a mamãe sente muito...
POV da Valentina
— Me solta! O bebê tá vindo!
Agarrei o batente da porta no corredor com todas as forças, enquanto as contrações rasgavam a parte de baixo da minha barriga. Carlo, o braço direito do meu marido, Matteo, sem expressão nenhuma, foi soltando meus dedos à força, um por um.
— Ordens do chefe. — Ele me puxou com frieza na direção da câmara fria subterrânea. — O frio vai desacelerar o trabalho de parto. Você precisa esperar até a Jennifer dar à luz.
— Esperar? — Eu encarei ele, em choque, com o líquido escorrendo pelas minhas pernas. — Você quer que eu ESPERE pra parir?
— O filho do Lorenzo tem que nascer primeiro. São as regras da família. — Carlo me arrastou à força até a entrada da câmara fria.
Lorenzo era o irmão mais velho de Matteo, já morto, o herdeiro original da família Torrino.
— Você enlouqueceu, porra? — Eu me debati, desesperada. — Isso vai congelar meu bebê até a morte!
— Não vai matar. É só pra você segurar um pouco. — Carlo empurrou a pesada porta de ferro, e um frio de cortar os ossos me atingiu na hora.
A câmara fria subterrânea: paredes de aço refletindo uma luz branca e dura. O ar fedia a sangue e mofo. Era ali que a família Torrino resolvia as coisas com traidores.
Carlo me empurrou com brutalidade no chão de cimento gelado e, na mesma hora, tirou o celular para ligar.
— Ela tá na câmara fria. — Ele colocou no viva-voz. — A bolsa estourou, mas o frio deve fazer ela esperar.
— Ela ainda tá fazendo escândalo? — A voz cansada de Matteo saiu pelo telefone.
Fazendo escândalo? Eu arregalei os olhos.
— Matteo! — eu gritei para o celular. — Sou eu! Eu tô em trabalho de parto!
— Tá de brincadeira? Agora? — ele disse, impaciente. — A Jennifer tá pra ganhar, você não consegue esperar duas horas?
— Como é que eu vou esperar? Eu não controlo a hora que a bolsa estoura!
— Quando você se enfiou na minha cama, não era boa em escolher a hora? — ele zombou. — Agora não sabe se virar?
Aquela noite chuvosa de um ano atrás voltou como um flash — a notícia da morte acidental do Lorenzo, a fúria bêbada do Matteo...
— Eu só tava levando sopa pra você! — eu me defendi, desesperada. — Você tava bêbado, eu não… —
—Sopa? —Matteo explodiu de repente. —Você DROGOU a sopa, porra!
O urro dele atravessou meu corpo inteiro como um choque.
—Se não fosse pelas suas drogas naquela noite! —a voz dele transbordava de ódio. —O Lorenzo não teria—
—Matteo... tá doendo tanto... eu tô com medo... —o gemido sofrido da Jennifer veio de repente pelo telefone, cortando as palavras dele.
Na mesma hora, a voz dele ficou suave:
—Ei, eu tô aqui. Respira fundo, tá? Aguenta só mais um pouco.
—Parece que o bebê tá com pressa pra conhecer a gente... —Jennifer sorriu, fraca.
—Ele tem que ser valente, igual ao pai. —Matteo disse, com doçura. —Você tá indo muito bem, Jennifer.
Essas palavras carinhosas me cortaram por dentro como lâminas. Nós duas estávamos grávidas, mas a Jennifer recebia amor sem fim, enquanto eu...
—Matteo... —implorei. —Eu também preciso de um médico... o nosso bebê também precisa de ajuda...
—NOSSO bebê? —ele debochou. —Agradece por estar grávida, porque, se não estivesse, já tinha virado comida de peixe. Carlo, dá aquela injeção nela.
A ligação caiu.
Carlo tirou uma seringa do kit médico e encheu com um líquido branco, leitoso.
—O que é isso? —encarei a agulha, apavorada.
—Algo pra desacelerar o parto —ele disse, gelado. —Pra você ficar quieta.
—NÃO! —eu recuei, desesperada. —Isso vai matar o meu bebê!
—Não vai matar, só adiar —Carlo agarrou meu braço. —Você não entende o que o Lorenzo significava pra essa família. Se o velho padrinho não tivesse insistido, antes de morrer, pra que o chefe casasse com você, essa mulher que apareceu do nada...
A agulha furou minha veia; um líquido gelado, de cortar, entrou no meu corpo.
—O Lorenzo nunca teria morrido! —Carlo guardou a seringa, com nojo no olhar. —A família Torrino não teria sido destruída. Você é um desastre completo.
A droga começou a fazer efeito. As contrações, que antes vinham num ritmo certo, ficaram descompassadas, e a dor absurda quase me tirou o ar. Mais assustador ainda: senti os movimentos do bebê enfraquecendo.
—Eu não fiz nada com ele... —me defendi, fraca. —Carlo, por favor...
—É isso que você merece. —Ele se levantou, frio, e foi embora sem olhar pra trás.
Encolhi no chão gelado enquanto a droga se espalhava pelas minhas veias como uma cobra venenosa. Cada respiração trazia uma dor que atravessava o peito.
—Bebê... —acariciei minha barriga, devagar, com as lágrimas escorrendo. —Não desiste... a mamãe tá aqui...
Os movimentos do bebê foram ficando mais fracos, mais fracos. Eu sentia aquela vidinha escapando de mim, aos poucos.
Quando o desespero já me engolia, a porta de ferro se abriu de novo.
Uma mulher de salto alto entrou —era Sophia, a irmã do Matteo.
Ela vinha com um chicote de couro na mão, se aproximando de mim.
—Fiquei sabendo que você tava dando trabalho? —Ela inclinou a cabeça, com um sorriso frio. —Meu irmão me mandou te ensinar o que “ficar quieta” quer dizer.
