Capítulo 2

POV da Valentina

O chicote cortou o ar e desceu zumbindo.

— AH! — eu gritei, por instinto protegendo a barriga. — Por favor, Sophia... esse bebê também é seu sobrinho...

— Foda-se esse sobrinho! — ela rosnou, erguendo o chicote. — Você matou meu irmão mais velho e roubou meu segundo irmão, sua VADIA. Você não merece carregar o filho dele!

A segunda chicotada acertou com crueldade meu ombro, a dor ardente quase me fazendo desmaiar.

— Eu não fiz mal ao Lorenzo... — eu chorei, tentando me defender.

— CALA A BOCA! — Ela chutou na direção do meu abdômen. Eu bloqueei desesperada com os braços. — Você acha que eu não conheço seus esqueminhas? Seduzir o Matteo, engravidar e depois usar o bebê pra subir na vida?

Ela emendou com uma joelhada na minha costela. Eu me contorci de dor no chão, sangue jorrando da minha boca.

— Desde criança, o Matteo nunca olhou pra nenhuma outra mulher — ela disse, esmagando meus dedos sob a bota. — Até você aparecer, sua PUTA!

— AH! Para...

— Que truques sujos você usou pra fazer o Vovô obrigar o Matteo a casar com você? — Ela pressionou ainda mais meus dedos. — Uma vadiazinha qualquer conseguindo casar com a família Torrino!

As contrações me atingiram de repente. Eu sentia a vidinha dentro de mim lutando, em agonia.

— E você ainda teve a cara de pau de engravidar do filho dele! — Ela levantou o pé e chutou com violência a minha barriga. — Depois que o Lorenzo morreu, o Matteo tinha que se concentrar em reerguer a família, não ser arrastado pra baixo por um peso como VOCÊ!

Eu usei toda a força que tinha pra proteger o abdômen, e minhas costas bateram com tudo na parede, uma dor amortecida atravessando minha coluna.

— Sophia... por favor... — eu implorei, fraca. — Eu posso ir embora...

— Ir embora? — Ela explodiu de repente, agarrando meu cabelo e batendo minha cabeça contra a parede. — Você destruiu a nossa relação perfeita de irmãos e agora acha que pode simplesmente IR EMBORA?

Minha visão ficou turva enquanto um líquido quente escorria da minha testa.

Ela me soltou, e eu desabei no chão, sem forças. Sophia foi até o controle de temperatura, ofegante, e baixou o ajuste.

— Chega. De -10°C pra -25°C. Não dá pra deixar o Matteo te ver assim — ele pode amolecer.

O frio que cortava os ossos se intensificou na hora, e meu corpo começou a tremer sem controle.

— Carlo! — ela gritou em direção à porta. — Chama alguém pra limpar esse sangue, não deixa meu irmão ver e ficar abalado!

— Sim, senhorita.

Sophia me lançou um último olhar, lambendo os lábios:

— Aproveita. É isso que acontece quando você tenta roubar meu irmão.

A porta de ferro bateu com força, fechando.

Eu fiquei estirada numa poça de sangue, meu corpo inteiro gritando de dor. Eu queria me levantar, mas não tinha força nem pra mexer um dedo.

Não sei quanto tempo passou até a porta se abrir de novo. A empregada, Maria, entrou com materiais de limpeza.

— Nossa Senhora... madame... — ela disse, tremendo, e largou as coisas no chão assim que viu o meu estado.

— Maria... — eu me esforcei para levantar a cabeça.

Ela se ajoelhou, engolindo o choro: — Madame, esses ferimentos... meu Deus do céu...

— Eu não aguento por muito mais tempo... — eu disse, fraca.

Maria mordeu o lábio; um conflito brilhou nos olhos dela. — Madame... eu... o que eu posso fazer pela senhora?

Uma esperança se acendeu dentro de mim. — Maria... você consegue fazer uma ligação pra mim?

Ela hesitou, mas por fim assentiu.

Eu disse o número depressa, e ela tirou o celular com as mãos trêmulas.

Naquele instante, passos ecoaram do lado de fora.

— Maria! Já acabou a limpeza? O chefe quer vistoriar! — a voz impaciente de Carlo soou.

— Tô... tô quase terminando! — Maria guardou o celular às pressas e fingiu limpar o sangue.

Carlo enfiou a cabeça para dentro, varrendo a cena com frieza: — Anda logo. Tenho outras coisas pra fazer.

Quando os passos sumiram, Maria soltou um suspiro de alívio: — Madame... eu vou tentar o meu melhor... a senhora precisa aguentar...

— Obrigada, Maria... — eu consegui dizer, com a garganta fechada.

Ela juntou as coisas depressa e saiu.

A porta de ferro trancou de novo.

Os minutos foram passando enquanto o frio e a dor devoravam, aos poucos, a minha consciência. Eu abracei a barriga com força, sentindo os movimentos do bebê ficando cada vez mais fracos.

Fechei os olhos para poupar energia, contando cada respiração.

Com o tempo se arrastando, o desespero tomou conta de mim. A ligação tinha completado? Ou a Maria nem tinha tido coragem de fazer?

Minha visão começou a embaçar. Então, ouvi um leve raspar lá em cima.

Barulhos estranhos vindo do duto de ventilação.

Eu forcei os olhos inchados e vi a tampa metálica no teto se mexer.

O rosto de Maria apareceu na abertura.

— Madame! Rápido! Segura a corda!

Ela me puxou com desespero para dentro do duto, e cada tranco parecia rasgar ainda mais os meus ferimentos.

— Maria... — eu arquejei. — A ligação...

— Ninguém atendeu! — ela disse, enquanto engatinhava. — Liguei três vezes, ninguém atendeu! Mas eu não podia ficar te vendo morrer lá dentro!

Meu coração afundou, mas não havia tempo pra lamentar. Eu precisava sobreviver.

— Aguenta firme, a gente tá quase chegando. — Maria me incentivou, mais à frente.

A luz da lua entrava pela ponta do duto. Finalmente, nós saímos, cambaleando na direção do portão dos fundos da propriedade.

O vento da noite bateu no nosso rosto, com cheiro de grama no ar.

— Rápido! Pra lá! — Maria apontou para o portão dos fundos, na escuridão.

Nós corremos, desesperadas — vinte metros, dez metros, cinco metros...

— Duas mosquinhas, rastejando bem rápido.

A voz preguiçosa de Sophia veio de trás de nós.

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