Capítulo 1 1

LACEY

— Lala? Acorda!

Viro para o outro lado da cama e puxo a coberta até a cabeça, tentando me esconder da voz insistente que interrompia o melhor sono que tive durante toda a semana.

— Não, Tori! — reclamo, apertando os olhos. — Me deixa dormir.

— Não! Você precisa acordar. É hoje!

As palavras dela levam alguns segundos para fazer sentido dentro da minha mente sonolenta.

É hoje.

Meu coração dá um pequeno salto antes mesmo de eu abrir os olhos novamente.

Hoje era meu aniversário.

O dia em que finalmente completava dezoito anos.

O dia em que deixaria de ser responsabilidade do orfanato.

O dia em que pisaria no mundo completamente sozinha.

Abro os olhos devagar e encontro Tori sentada na beirada da minha cama, sorrindo para mim. Seus olhos claros pareciam ainda mais brilhantes naquela manhã.

— Parabéns, Lacey.

Por um instante, apenas fico olhando para ela.

Era estranho pensar que aquele seria o nosso último despertar juntas.

Durante anos, dividimos o mesmo quarto, os mesmos medos, as mesmas decepções e as mesmas pequenas alegrias. Tori esteve presente em praticamente todas as lembranças importantes que eu tinha daquele lugar.

Então percebo a pequena caixa que ela segurava.

Sento-me rapidamente na cama.

— Você não precisava me dar nada.

— Claro que precisava.

Recebo a caixinha e sinto um aperto no peito antes mesmo de abri-la.

Quando levanto a tampa, encontro um delicado cordão prateado com um coração pendurado.

Sem conseguir evitar, meus olhos se enchem de lágrimas.

Antes mesmo de agradecer, abraço Tori com toda a força que consigo.

Ela ri baixinho enquanto retribui o abraço.

Durante todos aqueles anos, quando eu quis desistir, foi ela quem me segurou. Quando chorei pelas famílias que nunca vieram me buscar, foi ela quem ficou ao meu lado. Quando achei que não conseguiria suportar mais uma rejeição, foi ela quem me lembrou que eu ainda tinha alguém.

— Obrigada, Tori.

Minha voz sai falha.

— Você vai embora e não sabemos como será. Então decidi te dar algo para que nunca se esqueça de mim e da nossa amizade.

Volto a olhar para o colar e abro o pequeno coração.

Dentro dele havia uma fotografia nossa.

Eu e Tori aparecíamos abraçadas, sorrindo como se não existissem problemas no mundo.

Lembro exatamente daquele dia.

Tínhamos passado a tarde inteira inventando histórias e rindo de coisas que hoje nem consigo recordar.

Mas o sorriso na foto era real.

Assim como nossa amizade.

Tori era, sem dúvida, a melhor pessoa que eu conhecia.

A melhor garota daquele orfanato.

Talvez do mundo inteiro.

— Eu amo você. — digo, abraçando-a novamente. — Independente de qual seja o meu destino, eu vou voltar para te encontrar. E mesmo se não for possível, vou dar um jeito de te avisar onde vou estar. Daqui a pouco, você que vai estar saindo daqui. Somos as únicas que nunca foram adotadas.

Ela sorri, mas consigo perceber a tristeza escondida atrás da expressão.

Nós duas sempre soubemos que aquele dia chegaria.

Ainda assim, ele parecia doloroso demais agora que estava acontecendo.

— Está ansiosa?

Solto uma pequena risada nervosa.

Ansiosa era uma palavra gentil para definir o que eu estava sentindo.

— Com medo também. Não sei o que vou encontrar lá fora.

Pela janela, observo os primeiros raios de sol iluminando o pátio do orfanato.

Durante dezoito anos, aquele lugar foi tudo o que conheci. Agora eu estava prestes a sair sem ter certeza de onde dormiria no dia seguinte. Sem saber quem era minha família.

Sem saber se alguém, em algum lugar, sequer se lembrava de mim.

— Primeiro, um emprego. — diz, rindo. — E depois, sua família. Todo mundo merece saber o que aconteceu e sair do escuro.

Eu invejava Vitória.

Não por maldade. Na verdade, era exatamente o contrário.

Eu a admirava tanto que às vezes doía.

Além de ser uma garota linda, com a pele negra e os olhos claros que chamavam atenção de qualquer pessoa, ela possuía algo que eu desejava desde que me entendia por gente: respostas.

Mesmo que a verdade sobre sua família fosse triste, pelo menos ela conhecia sua história.

Sabia de onde tinha vindo, quem eram seus pais e sabia o que havia acontecido.

Eu não tinha nada disso.

A mãe de Tori morreu durante o parto. O pai, incapaz de lidar com a perda, faleceu dois anos depois, consumido pela depressão. O único parente vivo era uma tia que mal conseguia cuidar de si mesma, quanto mais de uma criança.

Tori chegou ao orfanato quando tinha quase dois anos.

Ao longo da infância, passou por alguns lares adotivos. Em todos eles, porém, a história terminava da mesma forma: ela voltava.

Tori era intensa, teimosa, falava o que pensava e se recusava a ser moldada para agradar os outros. Muitas famílias não sabiam lidar com isso.

Para mim, era exatamente isso que a tornava especial.

— Vou fazer de tudo para descobrir minhas raízes.

Ela sorriu ao ouvir minha resposta.

Depois de mais alguns abraços e lágrimas de despedida, fomos tomar banho.

Enquanto a água escorria pelo meu corpo, tentei me convencer de que estava pronta para partir.

Mas não estava.

Aquele lugar podia ter sido um orfanato. Podia ter sido cheio de dificuldades. Mas ainda assim, era o único lar que eu conhecia.

Eu iria embora logo depois do café de aniversário.

Minha única mala estava pronta desde a noite anterior.

Todas as meus dezoito anos de vida cabiam dentro dela.

Aquela constatação era estranha.

Peguei algumas coisas que ainda estavam espalhadas pelo quarto e as acomodei nos espaços vazios.

Observei o ambiente uma última vez.

A cama.

O armário.

A janela pela qual tantas vezes fiquei olhando o mundo lá fora.

Respirei fundo antes de pegar a mala e descer.

Assim que entrei no refeitório, fui recebida por um coro animado de "Parabéns para você".

Não consegui evitar o sorriso.

Mesmo com a tristeza da despedida pairando sobre todos nós, eles estavam tentando tornar aquele momento especial.

A primeira pessoa a me abraçar foi Kieran.

— Parabéns, meu amor.

Meu amor...

Revirei os olhos internamente.

Kieran simplesmente não conseguia aceitar que eu não queria nada com ele.

Passávamos semanas sem trocar mais do que algumas palavras, e então, do nada, ele reaparecia como se fôssemos um casal apaixonado.

Ora me roubava beijos escondidos; Ora fingia distância; Ora jurava que me amava.

Não importava quantas vezes eu dissesse não ou quantas vezes eu explicasse que meus sentimentos não eram os mesmos.

Kieran sempre voltava.

— Obrigada, Kieran.

Ele depositou um beijo em meu rosto antes que eu pudesse impedir.

Assim que tive oportunidade, me afastei e fui cumprimentar os outros órfãos.

Talvez pela primeira vez, percebi o quanto sentiria falta deles. Até mesmo daqueles com quem brigava constantemente.

Afinal, crescemos juntos.

Todos aguardávamos a chegada da diretora para começar o café da manhã.

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