Capítulo 4 4

Depois de muito chorar de alegria e alívio, agradeci Aby de joelhos.

Literalmente.

Naquele momento, eu não me importava se estava sendo dramática.

Eu havia passado o dia inteiro ouvindo portas se fecharem. Ouvindo pessoas me dizerem, de maneiras diferentes, que eu não era boa o suficiente.

E então, quando já estava quase desistindo, recebi um sim.

Justamente no lugar onde eu menos parecia pertencer.

A dor que atravessou meu joelho quando me ajoelhei foi ignorada completamente.

Nada conseguiria estragar aquele momento.

— Lacey, terei que colocar você em um dos nossos quartos de hóspedes. O de empregadas não está... habitável.

Levanto a cabeça.

— Por quê?

A pergunta escapa antes que eu consiga segurá-la.

Aby parece ponderar por um instante.

— Nossa última empregada morreu lá. Então vou mandar fazer uma reforma geral e espiritual.

Meus olhos se arregalam.

— Tudo bem...

Era provavelmente a única resposta possível.

Antes de subirmos, ela pede para Úrsula buscar o kit de primeiros socorros.

Para minha surpresa, é a própria Aby quem se senta diante de mim para cuidar do meu joelho.

Aquilo me deixa desconfortável.

Não porque eu não gostasse. Mas porque não estava acostumada.

Pessoas como ela normalmente não faziam curativos em pessoas como eu.

— Vai arder um pouquinho.

— Um pouquinho quanto?

— Bastante.

Nem tive tempo de reclamar.

Assim que o líquido encostou na ferida, uma ardência intensa percorreu minha perna.

— Ai...

Meu rosto se contorce imediatamente.

— Desculpe, querida, mas essa dor é importante. Esse remédio fará com que a dor suma em poucas horas.

Solto um suspiro.

— Obrigada.

— Não foi nada. — ela responde com um sorriso. — Faz tempo que não pratico essas coisas.

Franzo a testa.

— A senhora é médica?

— Oh, não.

Ela se levanta e começamos a caminhar em direção à escadaria principal.

— Antes de me casar, eu praticava enfermagem. Mas Mark é contra trabalhos, e por amor, não construí uma carreira.

A resposta me surpreende.

Eu não conseguia imaginar alguém desistindo de uma profissão inteira.

Principalmente uma tão importante.

— E o que fez desde então?

Aby me olha.

Seu sorriso se torna diferente. Era mais suave. Afetuoso.

— Fui mãe.

A forma como ela diz aquilo me faz entender que não se arrepende da escolha.

Chegamos ao segundo andar. O corredor parecia não ter fim. Tapetes elegantes cobriam o piso e enormes janelas deixavam a luz dourada do fim da tarde entrar.

Aby para diante da última porta.

— Esse será seu quarto.

Meu quarto. Aquela palavra soava estranha.

Ela gira a maçaneta e abre a porta.

Meu queixo quase encontra o chão.

O cômodo era enorme.

Não.

Enorme era pouco.

Eu tinha certeza de que aquele quarto sozinho era maior do que todo o dormitório feminino do orfanato.

No centro havia uma cama king-size coberta por roupas de cama impecáveis. Uma televisão gigantesca ocupava uma das paredes. Uma penteadeira elegante ficava próxima à janela. E ali também havia um sofá.

Assim como no orfanato.

Mas infinitamente mais bonito.

A janela dava vista para os jardins da propriedade.

Tudo parecia ter saído de um sonho.

— Aby... esse quarto... eu não posso...

Ela imediatamente balança a cabeça.

— Eu jamais deixaria você dormir onde uma pessoa morreu. Venha, vou te mostrar o closet.

Ainda estava ocupada demais absorvendo o quarto quando ela abriu uma porta dupla.

E então descobri que o closet era praticamente outro quarto.

Ou talvez três.

Havia armários por todos os lados. Gavetas, espelhos, prateleiras, bancadas.

Mais espaço do que eu poderia usar em uma vida inteira.

— Oh meu Deus...

Dou uma volta lenta observando tudo.

— Aby, eu mal vou usar uma gaveta. Isso aqui é enorme.

— E lindo, não é?

Assinto imediatamente.

— É o menor dos closets.

Paro de andar.

— O menor?

Ela começa a rir.

— Sim.

Eu não sabia se ficava impressionada ou preocupada.

— Venha ver o banheiro.

Quando atravessamos a próxima porta, percebo que ainda não tinha visto nada.

O banheiro parecia uma suíte de hotel cinco estrelas. A banheira era tão grande que facilmente poderia acomodar várias pessoas.

Os acabamentos eram impecáveis. Tudo seguia os mesmos tons claros do quarto. Branco e lavanda.

Detalhes delicados que transmitiam uma sensação quase imediata de tranquilidade.

Então meus olhos encontram a enorme janela.

— Que vista!

A paisagem dos jardins parecia uma pintura.

— A senhora tem certeza de que posso ficar nesse quarto?

— Absoluta certeza!

Olho novamente para tudo ao meu redor.

Ainda custava acreditar.

Naquela manhã eu não tinha casa e agora estava hospedada em uma mansão.

— Obrigada. Por tudo isso.

Aby sorri.

— Não precisa me agradecer. Agora vamos, pois irei te mostrar o que preciso que faça.

Saímos do banheiro, atravessamos o closet, passamos pelo quarto e pouco depois, estávamos novamente no corredor.

Foi então que uma gritaria vinda do andar de baixo ecoou pela casa.

— JÁ CANSEI DE REPETIR PARA NÃO CORRER COM O CARRO!

Aby suspira imediatamente.

Como alguém que já conhecia aquela discussão.

— EU NEM ESTAVA CORRENDO!

A voz masculina soa mais jovem. E irritada.

— VOCÊ ATROPELOU UMA PESSOA, BRANDON!

Caminho até o topo da escada e olho para baixo. Dali consigo ver duas figuras discutindo.

Um homem mais velho e um rapaz de costas para mim. Alto. Ombros largos. Cabelos escuros ligeiramente bagunçados.

— Ele o quê? — Aby desce alguns degraus ao ouvir a acusação.

O rapaz passa a mão pelo rosto em evidente irritação.

— Ah, ótimo. — resmunga. — Era exatamente o que faltava.

— Ele estava correndo de novo, Abigail! Eu não falei que não era para deixá-lo dirigir?

— A chave estava escondida, Mark. Eu nem sabia que ele tinha saído. E que história é essa de atropelamento?

— É exagero dele. A menina se jogou na calçada. — olho automaticamente para o meu joelho. — E foi aqui dentro. Então deve estar bem.

Aby volta os olhos para mim. Seu olhar desce para o curativo que ela mesma havia feito há poucos minutos.

Depois faz um pequeno gesto com a mão.

— Desça, querida.

Obedeço imediatamente.

A cada degrau que desço, sinto os olhos dos dois sobre mim.

— Essa é a Lacey.

O rapaz finalmente se vira. E eu quase perco o próximo degrau.

Meu coração simplesmente esquece como funciona por alguns segundos.

— A menina que você atropelou.

Foi difícil me concentrar quando finalmente consigo ver o rosto do responsável pelo quase acidente.

Brandon era bonito.

Não.

Bonito era uma palavra pequena demais.

Ele era absurdamente lindo.

O cabelo escuro parecia ter sido bagunçado pelo vento e permanecido daquele jeito de propósito. A barba por fazer destacava ainda mais seu maxilar definido e lhe dava uma aparência mais madura.

Mas eram os olhos que chamavam atenção.

Azuis.

De um azul tão intenso que pareciam irreais.

Por um segundo, tive a impressão de que nunca tinha visto uma cor tão viva.

Era possível confundir o mar com aqueles olhos.

Ou se afogar neles.

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