Capítulo 1

Morri em agonia no dia do meu próprio aniversário, e ninguém na minha família sequer percebeu.

Eles estavam ocupados decorando para a festa da Stella, reclamando que eu estava fazendo mais um chilique, sem nunca perceber que eu só estava ali como uma alma.

Eu flutuava acima da sala de estar, observando minha mãe entrar carregando de fora um urso de pelúcia em tamanho real.

— Esta é a edição limitada de que a Stella não para de falar há três meses! — disse ela, empolgada. — Fiquei quatro horas na fila.

Meu pai veio logo atrás com uma capa de vestido sob medida.

— Não deixa amassar. Isso veio de Paris, enviado de avião.

O George entrou por último, carregando uma caixa de bolo com “Para a Nossa Pequena Princesa Stella” escrito.

Ninguém ligava que hoje também era o meu aniversário.

— Stella, meu amor, senta e descansa — meu pai foi direto até ela. — Você está exausta? A gente cuida do resto.

A Stella estava usando o vestido branco que eu tinha querido para o meu aniversário no ano passado, mas não me deixaram ter. Ela disse com doçura:

— Eu estou bem, papai. Deixa eu ajudar.

— Não, não, não. Hoje você é a princesinha, não precisa fazer nada — minha mãe fez um gesto com a mão. — A Diana já desce pra ajudar.

O George gritou para o andar de cima:

— Diana? Desce e ajuda com as coisas. Só porque é seu aniversário não quer dizer que você pode deixar a Stella fazer tudo sozinha.

Todo mundo assumia, naturalmente, que o nosso aniversário compartilhado era “um dia para servir a Stella”.

Como nos últimos vinte e oito anos.

Só que agora eu não era nada — invisível, sem voz, sem poder, incapaz até de servir a Stella.

O George franziu a testa e pegou o celular para ligar para o meu número.

O toque veio na direção do depósito.

— Estranho — murmurou o George — por que o celular dela…

— A mana deve estar tomando banho — a Stella foi até lá com naturalidade e desligou a ligação. — George, deixa eu te ajudar a decorar. Eu sei direitinho de que estilo a mana gosta~

O George pressionou de leve o ombro dela.

— Tá tudo bem, vai descansar. Eu espero a Diana vir ajudar.

A Stella assentiu.

E a expressão gentil do George desapareceu na mesma hora.

Ele discou meu número de novo e, dessa vez, deixou uma mensagem na caixa postal:

— Diana, desce. A festa já vai começar. Hoje é pra comemorar o aniversário da Stella, então não estraga o clima.

Minha mãe saiu da cozinha, revirando os olhos:

— A Diana está fazendo birra de novo.

— Sempre que alguma coisa não sai do jeito dela, ela some — o George enfiou o celular no bolso, com a voz cheia de impaciência. — Ela sempre fica esperando alguém ir lá implorar pra ela voltar.

Meu pai disse:

— Ela é mimada… A verdadeira princesa dessa festa é a Stella. Tanto faz se a Diana aparece ou não. Deixa ela.

Foi então que a Stella começou de novo:

— Papai, não fala assim… Hoje também é o aniversário da mana. Como a gente vai comemorar sem ela? Eu vou procurar.

— A nossa Stella é tão bondosa — minha mãe disse, acariciando o cabelo dela com carinho.

A família inteira elogiou como ela era doce e atenciosa, completamente cega ao fato de que ela não tinha intenção nenhuma de procurar.

Eu vi a Stella caminhar em direção ao depósito e chutar a porta, escancarando-a.

O feixe da lanterna varreu a pilha de tralha, iluminando eu jogada no canto — o pescoço torcido num ângulo impossível, os olhos semiabertos, sangue seco no canto da boca.

Ela se assustou no primeiro instante e depois levou a mão à boca — não de horror, mas para conter uma risada animada.

Eu a vi se agachar e dar um chute de leve na minha canela com a ponta do pé:

— Ei, você tá brincando de morta pra quê? Levanta, mana. Não tenta roubar a atenção nem estragar a minha festa.

Nenhuma resposta. Porque eu já estava morta.

— Stella? Você tá aí? — a voz do George veio da sala.

A Stella se levantou depressa, empurrando meu corpo mais para dentro da pilha de tralha antes de sair.

—Durma bem, irmã —sussurrou ela. —Hoje à noite, eu vou ser a única princesinha da mamãe e do papai.

Depois, ela saiu do depósito e se jogou nos braços do George:

—Me desculpa, George. A culpa é minha. Eu procurei em todo lugar, mas não consigo achar a Diana.

George respondeu:

—Então esquece ela. Hoje é o seu dia.

Eu observei tudo aquilo com um sorriso amargo.

De fato, aos olhos deles, todos os nossos aniversários pertenciam à Stella.

Lembrando dos aniversários passados — o bolo sempre vinha com “Feliz Aniversário, Stella”; os presentes eram sempre “deixa a Stella escolher primeiro”; e a mamãe e o papai sempre exigiam que o meu pedido de aniversário fosse “eu espero que a Stella seja feliz”.

Mas este ano eu não vou fazer esse pedido nunca mais.

Um mês atrás, o médico me disse que eu estava com insuficiência cardíaca e não tinha muito tempo de vida.

O diagnóstico estava ali, escancarado, mas meus pais só riram e disseram que eu estava “fazendo teatro e pagando de vítima pra ganhar pena”.

Enquanto eu ficava ali parada, uma sensação esmagadora de absurdo tomou conta de mim — o meu desespero, os meus medos e os sinais trêmulos de socorro que eu estendia eram, para eles, apenas um show ridículo.

Só que eles não sabiam de uma coisa: eu nunca quis disputar nada com a Stella. Eu já tinha aceitado, fazia tempo, ser “a coadjuvante da Stella”. E eu preparei com todo cuidado um presente de aniversário para a Stella.

Este ano, o meu único desejo de aniversário era passar o dia com a babá Rena — a única pessoa que se importava comigo — e depois me transferir em silêncio para cuidados paliativos.

Mas eu não cheguei até esse dia.

Hoje de manhã, quando eu estava em casa, um grupo de marginais arrombou a porta de repente. Eles me estupraram e filmaram.

Eu implorei para que me deixassem ir, mas isso só deixou eles mais excitados. Eles me humilharam de novo e de novo, me fazendo sorrir e posar para a câmera, até eu desmaiar.

Bem no limite de perder a consciência, minha mão roçou no gravador de voz escondido no meu bolso — o mesmo aparelho que eu usava para registrar inspirações musicais.

Eu apertei o botão de gravar.

—Avisa a Stella que o vídeo tá pronto —disse um deles, enquanto se vestia. —Agora a irmã dela nunca mais vai atrapalhar.

No fim, eles me largaram no depósito e foram embora.

Quando eu acordei, meu celular tinha caído ao meu alcance — mas meu braço estava quebrado, eu não conseguia alcançá-lo.

Eu usei o queixo para puxar o telefone aos poucos para mais perto, até finalmente desbloquear a tela.

George estava no topo dos meus contatos. Eu liguei para ele, ele desligou. Depois eu liguei para os meus pais, e eles desligaram também.

Por fim, chegou a resposta do George: “Tô ocupado com a festa da Stella. Não me enche, só fala comigo se for importante.”

Eu me lembrei do primeiro dia em que a gente começou a namorar, quando ele prometeu: “Meu celular fica ligado 24 horas. Se você me ligar, mesmo que eu esteja do outro lado do mundo, eu pego um avião e volto na hora.”

Naquela época, eu até ri, achando que ele estava sendo dramático demais. O que poderia acontecer comigo que exigisse que ele aparecesse do meu lado imediatamente?

Eu nunca imaginei que, quando esse dia realmente chegasse, ele não ia nem atender.

Agarrada ao meu último fiapo de esperança, eu liguei para o George uma última vez.

Mas ele desligou na minha cara de novo.

Naquele momento eu entendi — ele não se importava mais comigo.

Então eu recebi outra mensagem: “Diana, para de ligar. O que você pode ter de tão importante assim? Para de ficar incomodando a gente de propósito. Te vejo na festa hoje à noite.”

Eu encarei aquelas palavras até elas se embaralharem no meio das minhas lágrimas.

Eu não vou aparecer nessa festa. Eles nunca mais vão me ver nesta vida.

Eu estou morta.

Quando me encontrarem, a única coisa que vão ver é o meu corpo retorcido, esquecido no depósito, junto com os presentes de despedida que eu preparei com tanto cuidado para eles.

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