Capítulo 2
Eu flutuava acima da sala de estar, olhando para baixo para o que deveria ter sido a nossa cena de aniversário compartilhada.
O nome de Stella estava gravado no piano.
Na parede, havia uma faixa escrita “Feliz Aniversário, Stella”, com várias fotos dela logo abaixo. Algumas fotos tinham marcas óbvias de recorte — deveriam ser imagens de nós duas juntas, mas a minha figura tinha sido cortada por completo.
Que capricho… fazer questão de não deixar nenhum vestígio de mim.
A sala de estar estava cheia de rosas vermelhas, as preferidas da Stella. Lembrei de ver a mamãe jogando no lixo, hoje de manhã, todos os meus lírios brancos tão amados, resmungando: “flores mortas deprimentes”.
Não havia nenhuma decoração de aniversário relacionada a mim em nenhum canto da casa.
— Mãe, não seria melhor… — a voz de Stella vinha com aquele tom afetado, quase de manha — colocar o nome da minha irmã no bolo? Para agradecer todos esses anos de… bem, “apoio inspirador”? Senão aqueles críticos de música vão voltar a escrever fofoca sobre “desavença entre irmãs”.
Lana bufou com frieza:
— Não precisa. Que inspiração ela poderia te dar? Nada além de barulho desafinado. Além do mais, ela tem algum admirador? Todos esses anos, tirando a velha babá Rena, quem mais ia querer chegar perto dela?
Stella fez uma expressão preocupada, mas um lampejo de satisfação brilhou nos olhos dela.
— Você é boa demais. — A voz de Lana ficou ainda mais dura. — Pensa em como ela te tratou todos esses anos. Toda vez que você ganha um prêmio, ela faz aquela cara azeda. No mês passado, quando você ganhou a medalha de ouro, ela ainda fingiu um ataque do coração e foi parar no hospital — claramente só para sabotar a sua festa de comemoração!
Senti uma dor fantasma no peito.
Fingi? Eu realmente tive um ataque do coração naquele dia, depois de ficar trancada na sala do piano por três dias seguidos “revisando partituras”.
Stella estava atrás de mim, repetindo sem parar:
— Toca de novo, os acordes aqui ainda não estão perfeitos o bastante. Você não vai querer que eu passe vergonha no palco, vai?
Lembrei do quanto eu mimava a Stella desde criança. Quando ela tinha cinco anos e disse que queria aprender piano, eu dei a ela o dinheiro que eu juntava aos poucos para comprar partituras.
Para o recital de formatura dela, aos dezoito, eu virei três dias e três noites fazendo arranjos para ela. A apresentação foi um sucesso enorme.
A mídia não falava de outra coisa: “O Talento Incrível de Stella Lawrence para Arranjos”, “Nasce uma Nova Estrela no Mundo da Música”.
Mas depois disso, tudo mudou.
Ela tapou minha boca, e, pela primeira vez, os olhos dela mostraram aquela maldade de serpente:
— As suas composições são minhas. É melhor você ser minha compositora fantasma direitinho, ou então… — os dedos dela roçaram de leve no meu pescoço — o seu coração não aguenta muito estresse.
Eu tentei contar para os meus pais, mas eles não acreditaram em mim.
— Diana, para de ter inveja da sua irmã — meu pai sempre dizia. — A Stella é um gênio, e você é só… comum.
Se a Stella fosse até eles chorando, dizendo que eu machuquei ela, eles fariam de tudo para consolar. Mas os meus hematomas? O meu medo? Era só inveja.
Relembrar essas memórias fazia meu coração doer, tomado de amargura.
Mas Stella continuou com a encenação: “Não fala isso, mãe... e se a minha irmã ouve? Hoje também é aniversário dela. Eu... eu até preparei escondido um presentinho pra ela, uma pulseira com as iniciais dos nossos nomes gravadas...”
A atuação dela ficava cada vez melhor.
A expressão de Lana se tornou ainda mais enojada: “Você vai dar presente pra ela? Ela merece? Ela não roubou seu colar de pérolas mês passado? E ainda se recusou a admitir!”
Aquele colar tinha sido dado a mim pela própria Stella, mas depois ela chorou e disse que eu tinha roubado dela.
Stella abaixou a cabeça e forçou duas lágrimas: “I-isso... isso pode ter sido um mal-entendido meu. Minha irmã não roubaria...”
“Hmph! Não fala nela. Dá azar.” Nos olhos da minha mãe havia só desprezo.
Era isso que eu era para a minha própria mãe — não uma filha, e sim uma maldição.
A festa estava prestes a começar, e Stella voltou pro quarto pra trocar e vestir o vestido da apresentação.
George desceu as escadas, os olhos presos no celular sem parar.
Com a testa franzida, ele falou com meus pais: “Eu procurei a Diana em todo lugar. Parece que ela comentou que queria comemorar o aniversário com a Rena, mas a Rena insiste que ela não está aqui.”
Meu pai deu um tapa na mesa: “Procurar o quê! Ela está se escondendo de propósito, querendo deixar todo mundo preocupado!”
Mesmo assim, George pegou o celular de novo e mandou uma última mensagem de áudio: “Diana, chega disso. Eu sei que você está de olho naquele relógio de bolso da família de presente de aniversário, mas eu prometi à vovó que só te daria quando a gente se casasse. Volta. Eu comprei um relógio de pulso novo pra você. Hoje é um dia importantíssimo; por favor, não faça a Stella passar vergonha.”
Eu vi ele subir correndo as escadas, provavelmente pra buscar o relógio de pulso novo que tinha mencionado.
Mas eu já não sentia mais nada.
Se ele descobrisse que a noiva que ele procurava desesperadamente estava jogada no depósito, com o corpo grotescamente retorcido, a pele marcada de roxos e inchada, os olhos turvos e saltados... qual seria a reação dele?
Eu não levei esse pensamento adiante. Meu olhar caiu na caixa de presente em cima do suporte do piano, imaginando quais seriam as expressões deles quando abrissem aquela caixa.
Nesse momento, Stella saiu do quarto já trocada e perguntou: “Mãe, pra onde o George foi?”
“Provavelmente procurar a Diana.” O tom da minha mãe transbordava desprezo. “Ele é bom demais. Um noivo perfeito. Se você quer saber, você é a única que merece ele.”
O sorriso de Stella vacilou por um segundo; um lampejo de maldade atravessou seus olhos, e então ela voltou rápido pro quarto.
Logo depois, George desceu com uma caixinha elegante de relógio de pulso. Bem na hora em que ele ia pegar o celular de novo—
“Ahhhh—!”
Um grito agudo explodiu do quarto da Stella: “Minha partitura! Quem rasgou a minha partitura? Meus troféus estão quebrados!”
