Capítulo 3

Stella estava encolhida no chão, o corpo convulsionando, a mão direita apertando com força pedaços de partitura, os dedos espetados pelas bordas afiadas do troféu de cristal.

—Meu Deus! Stella!

Mamãe entrou correndo no quarto e se ajoelhou ao lado dela sem hesitar.

—Meu amor... sua mão! Sua mão está sangrando! —a voz de mamãe tremia; ela estava realmente apavorada, com medo de que Stella sofresse nem que fosse o menor machucado.

Stella chorava sem conseguir parar.

—Mãe... ontem à noite eu tranquei as partituras no cofre. Só eu e a minha irmã sabíamos a senha.

—Porque ela disse que queria olhar de novo a música que eu compus, pra aprender com ela...

Ela se pintava como uma vítima inocente, enquanto eu, já morta, ainda tinha que carregar a culpa de destruir a “obra da vida” dela.

Quando papai viu a bagunça no chão, ele explodiu de vez.

—Diana, aquela desgraçada! Ficou tão louca de inveja da Stella assim?! Quando ela voltar, eu mesmo vou quebrar os dedos dela de tocar piano! Vamos ver como ela vai competir com a Stella depois!

George subiu as escadas às pressas.

—Ficar com raiva não vai ajudar agora. —George esfregou as têmporas. —Tem convidados lá embaixo, e a estreia do aniversário de hoje não pode ser cancelada. Vou dar uma olhada no quarto de depósito… a Diana às vezes enfia rascunhos em pastas velhas de música.

Mas Stella, de repente, agarrou a manga do terno de George.

—George... não tem como. Minha irmã deve ter levado todos os manuscritos.

Mamãe levou a mão à boca, ofegante.

—Sumiu tudo. —Stella assentiu, lágrimas novas escorrendo. —Ela deve me odiar... odiar que eu sou melhor do que ela, então quis destruir tudo o que é meu.

Ao ver as lágrimas de Stella, George largou imediatamente a ideia de checar o depósito e correu para consolá-la.

Ele se ajoelhou e enxugou com cuidado as lágrimas do rosto de Stella.

—Vai ficar tudo bem. Eu vou lidar com os críticos. O mais importante é você aproveitar a sua apresentação de aniversário.

—A Stella é tão sortuda por ter alguém como você pra se apoiar... —disse mamãe, chorando de gratidão, olhando para George com os olhos cheios de admiração.

Mamãe e papai saíram depressa do quarto para acalmar os convidados lá embaixo.

No instante em que a porta se fechou, o clima do quarto mudou de repente.

Stella ergueu a mão e, com a ponta dos dedos, tocou de leve a bochecha de George.

—Você já disse que eu era “diferente” da minha irmã. Agora... você ainda ama a minha irmã?

Stella foi se aproximando devagar, dando a ele tempo suficiente para recusar ou recuar. Mas George não recuou.

Quando Stella o beijou, George ficou atônito no começo e, por instinto, tentou se afastar. Só que a mão de Stella deslizou para a nuca dele.

Eu vi George fechar os olhos, os braços envolvendo a cintura de Stella enquanto o beijo se aprofundava.

Naquele momento, eu senti como se estivesse sufocando —mesmo já estando morta.

Quando se separaram, Stella riu baixinho e disse:

—A Diana nunca poderia te amar do jeito que eu amo.

George não a contradisse.

E eu, de repente, entendi tudo.

Nosso casamento, sempre adiado —as desculpas de George sempre envolviam Stella: acompanhar Stella em turnês pela Europa porque “é importante pra carreira dela”; acompanhar Stella em viagens porque “ela precisa de inspiração”; ajudar Stella com todo tipo de coisa das apresentações porque “ninguém entende produção musical melhor do que eu”.

No fim, todos os sinais estavam ali. Eu é que escolhi fingir que não via.

Eu me lembrei da carta de pedido de casamento escrita à mão que George me deu um dia: “Diana, eu vou te amar e te proteger até o fim do mundo.”

Naquela época, as mãos dele tremiam quando me pediu em casamento. Naquela época, ele não conseguia dormir sem me desejar boa noite. Naquela época, ele vivia dizendo que Stella era só uma “criança que precisava de orientação”.

Agora, eu via aquelas mesmas mãos acariciarem o rosto da minha irmã com uma ternura que ele nunca tinha mostrado comigo.

Mas nada disso importava mais.

Nessa festa de aniversário, eu devolveria a promessa dele.

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