Capítulo 2

Tentei fugir, mas descobri que alguma força invisível me mantinha presa ali.

Quando a festa chegou ao auge, os garçons trouxeram o bolo em um carrinho.

No bolo estava escrito: “Feliz aniversário, Chloe”.

Só Chloe.

Nós fazíamos aniversário no mesmo dia, mas eu não importava. Nesta casa, sempre existiu uma única aniversariante — Chloe.

— Faça um pedido, querida! — disse Margaret.

Chloe fechou os olhos, com uma expressão de gratidão no rosto.

Então a expressão dela mudou para algo quase… constrangido.

— Espera. A gente não deveria… também colocar o nome da Elena? É aniversário dela também.

Margaret primeiro fez um carinho de leve na mão de Chloe:

— Minha filha, você é tão doce, sempre tão gentil, sempre pensando nos outros.

Depois, a voz dela ficou gelada:

— Mas você não precisa desperdiçar compaixão com aquela vadia ingrata.

— Mãe, eu só pensei que—

— Ela roubou seu bracelete dois dias atrás, Chloe! — a voz da minha mãe se elevou. — E ainda teve a cara de pau de dizer que você tinha dado pra ela!

Eu me lembrava daquele dia com nitidez. Chloe tinha colocado o bracelete na minha mão, com lágrimas nos olhos, dizendo que queria que eu ficasse com ele.

Mas dois dias depois, ela gritou que tinha sumido. Encontraram o bracelete na minha gaveta. E meus protestos foram engolidos pela fúria deles.

— Ela não merece ter o nome no bolo — declarou Margaret.

Flutuando acima deles, senti as lágrimas escorrendo pelo meu rosto.

— Eu não roubei! A Chloe me deu! — eu gritei, desesperada, repetindo aquelas palavras que eu tinha dito incontáveis vezes enquanto estava viva — e que nunca acreditaram.

Mas eles não me ouviam de jeito nenhum.

Sussurros se espalharam entre as socialites e os parceiros de negócios.

— Mesmo a Elena sendo a filha biológica, sinceramente…

— Talvez tantos anos no orfanato tenham deixado marcas. Tão grosseira, tão… vulgar.

— Coitada da Chloe, amada desde pequena, e agora tem que dividir tudo com aquela criatura invejosa.

— Invejosa mesmo. Viram ela tentando dizer que aqueles quadros eram dela? Todo mundo sabe que a verdadeira artista da família é a Chloe.

Aqueles quadros eram meus. Mas, quando eu ganhei o prêmio, meu pai exigiu que eu deixasse a Chloe receber no meu lugar.

— Elena, você não merece subir naquele palco — meu pai disse, frio. — Quem tem talento de verdade é a Chloe. Esse prêmio tem que ir pra Chloe. Só ela merece.

Eu obedeci. Eu sempre obedecia.

Meus quadros, expostos com o nome da Chloe. Minha honra, a medalha dela.

A cerimônia de cortar o bolo continuou. Chloe deu a primeira fatia na boca de Mark, e os dedos dela demoraram um pouco nos lábios dele.

Mark — o homem que eu conheci na faculdade. Ele passou três meses estudando Caravaggio pra me impressionar, me pediu em casamento com um anel que juntou dinheiro por meses pra comprar.

Mas toda aquela beleza mudou depois que Mark conheceu Chloe.

O olhar dele já não me procurava; as mensagens ficaram secas, os encontros eram adiados de novo e de novo.

— Você está paranoica — ele disse quando eu finalmente confrontei ele. — Ela é sua irmã. Eu só estou sendo simpático.

Agora, quando a festa atingia o clímax, Mark tirou do paletó uma caixinha de veludo.

— Chloe, você trouxe tanta luz pra esta família. Pra minha vida.

A mão da minha mãe voou até a boca. Os olhos do meu pai brilharam, aprovando.

Mark abriu a caixa.

O colar de rubis, a joia de família.

— Mark… — os olhos de Chloe se encheram de lágrimas.

Mark prendeu o colar no pescoço dela com devoção.

Os convidados soltaram suspiros comovidos de admiração.

Meu coração parou de vez.

Era o colar que Mark tinha prometido pra mim na noite em que me pediu em casamento, aquele que ele jurou, incontáveis vezes, que me daria no nosso casamento.

A festa foi até depois da meia-noite. Os convidados foram embora com a língua solta e fofocas pra espalhar. Por fim, só a família ficou.

Margaret observou os estragos da comemoração.

— Acho que a gente devia deixar alguma coisa pra Elena — ela disse de repente. — Se não deixar, o pessoal pode comentar.

— Eu não queria que ninguém dissesse que a gente tem preferida. — Margaret pegou um pedaço de bolo amassado. — Aqui. Deixa isso pra ela.

Eu encarei aquela oferta miserável, com o coração se rasgando como papel picado.

Então Chloe gritou.

Ela cambaleou para trás, arranhando o vestido de forma frenética, o rosto contorcido de dor.

— O que foi?! — Margaret correu até ela.

— Meu vestido… tem alguma coisa aqui dentro… — as mãos de Chloe rasgaram o tecido. — Agulhas! Tem agulhas costuradas no forro!

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