Capítulo 4

A expressão do pai passou da confusão ao desprezo e, em seguida, virou deboche.

“Um corpo feminino encontrado num galpão abandonado?” O pai deu uma risada fria. “Vocês entenderam tudo errado. Isso é com certeza uma farsa armada pela própria Elena, minha filha! Ela só está usando esse truque patético pra fugir do castigo. Ela machucou a irmã e agora está com medo demais de encarar a gente, então—”

Ele foi interrompido por uma voz mais firme do outro lado da linha.

“Sr. Vance, preciso enfatizar mais uma vez que este é um caso criminal grave. Precisamos que familiares compareçam imediatamente ao local para identificar a vítima. Se o senhor continuar se recusando a cooperar, nós vamos—”

“Tá bom, tá bom, eu vou.” O pai respondeu, impaciente. “Mas já estou avisando: quando eu desmascarar esse teatrinho, ela vai pagar por isso.”

Ele desligou.

“Richard, o que foi?” A voz da mãe estava cheia de preocupação. “É a Elena?”

“Dessa vez ela passou dos limites.” O pai disse, frio. “A polícia disse que encontrou um corpo feminino num galpão abandonado e que pode ser a Elena. Aquela garota idiota… pra fugir da responsabilidade, ela ainda armou esse show ridículo.”

“O quê?” Um choque passou pelo rosto da mãe, rapidamente substituído por desdém. “Como ela se atreve! A Chloe ainda está de cama, doente, e em vez de voltar pra pedir desculpas, ela—”

“Eu mesmo vou desmascarar isso.” A voz do pai estava carregada de raiva. “Dessa vez eu vou garantir que ela entenda que, nesta família, ela nunca vai conseguir simpatia com esses truques baixos.”

Chloe mordeu o lábio, com os olhos vacilando.

“Eu vou com vocês.” A voz de Mark foi firme, mas os olhos dele estavam cheios de raiva. “Quero ver com meus próprios olhos até onde ela é capaz de ir com essa encenação.”

Ele puxou o celular e deixou mais um recado na caixa postal.

“Elena, você me dá nojo. Fingir que morreu? Acha que isso vai te render pena? Você machucou a Chloe e agora quer fugir com esse truque desprezível? Estou te dizendo: você só vai mostrar pra todo mundo o quanto você é cruel e calculista de verdade.”

Os quatro entraram no carro. Meu espírito se sentou no teto.

A mãe foi no banco do passageiro, reclamando sem parar: “A Elena enlouqueceu de vez dessa vez. Chegar ao ponto de envolver a polícia e mentir dizendo que foi assassinada… se isso vazar, a família Vance vai passar a maior humilhação!”

“Quando ela voltar, eu vou transformar o quarto dela num depósito.” O pai apertou o volante, com a voz cheia de nojo. “Não, numa casinha de cachorro. Ela vai morar na casinha de cachorro.”

“Richard, eu acho que a gente devia é mandar ela pra um hospital psiquiátrico.” A mãe virou pra olhar pra ele, com os olhos frios. “Que pessoa normal faria uma coisa dessas? Ela deve ser doida.”

Chloe se encolheu no banco de trás, nos braços de Mark.

Mark a abraçou com força, com os olhos cheios de carinho. “Sr. e Sra. Vance, eu tenho um pedido.”

“Quando a Elena voltar, eu quero cancelar nosso noivado imediatamente. Eu não posso me casar com uma mulher tão cruel e calculista.”

A mãe riu. “Mark, você devia ter feito isso há muito tempo. Sinceramente, desde o começo eu senti que você e a Chloe foram feitos um pro outro.”

“Margaret está certa.” Papai assentiu. “A Elena não é digna de você. Cresceu num orfanato — essa natureza mesquinha e baixa já vem no sangue. Mas a Chloe… a Chloe é uma verdadeira dama, fina, de boa criação.”

“Pai, mãe…” O rosto de Chloe ficou vermelho quando ela baixou a cabeça, tímida.

Por trás dos cílios abaixados, os olhos dela brilhavam de triunfo.

Mark beijou a testa de Chloe com carinho. “Na verdade, eu me arrependo disso há muito tempo. Se eu tivesse conhecido a Chloe primeiro, nem teria olhado duas vezes pra Elena.”

“Mark…” Chloe se encostou nele, com a voz melosa.

“Todos nós nos arrependemos de ter trazido aquela desgraça de volta.” Mamãe suspirou. “Se a gente soubesse que ela ia dar tanto problema pra esta família, era melhor ter deixado ela se virar sozinha naquele orfanato.”

Eu pairava acima da cabeça deles, ouvindo os três conversarem, animados, sobre como me destruir — a caminho de reconhecer o meu cadáver.

O carro finalmente parou diante das ruínas do galpão.

O cheiro acre de coisa queimada encheu o ar. A fita amarela da polícia isolava toda a área, e as luzes das viaturas piscavam em vermelho e azul na escuridão.

Papai abriu a porta do carro com força e foi em direção ao policial que o aguardava. O rosto dele estava cheio de impaciência e arrogância.

“Policial, eu cheguei.” O tom não tinha nenhuma preocupação, só deboche. “Vamos ver que tipo de espetáculo a minha filha ‘genial’ aprontou.”

O policial era um homem na casa dos quarenta, de expressão séria. Ao encarar o rosto do meu pai, franziu a testa com força. “Sr. Vance, preciso alertar o senhor: este é um caso de homicídio extremamente grave. A vítima sofreu tortura brutal antes de morrer, e o corpo está severamente queimado. Por favor, se prepare psicologicamente.”

“Me preparar?” Papai zombou. “Policial, minha filha enganou você. Ela faz teatro desde pequena. Isso é só mais um—”

“Sr. Vance.” O policial o interrompeu, com um lampejo de nojo inconfundível no olhar. “Por favor, me acompanhe.”

Quando ele se virou, eu o ouvi dizer baixinho ao policial mais jovem ao lado: “Nunca vi familiares assim — a filha pode estar morta, e eles tratam como se estivessem assistindo a uma comédia.”

Papai veio atrás. Mamãe amparava Chloe, e Mark estava com o braço em volta do ombro dela.

Eu flutuei à frente, vendo os três caminharem em direção àquele lençol branco — onde meu corpo retorcido e carbonizado estava.

O policial parou diante do lençol e se virou. “Precisamos que vocês identifiquem alguns pertences pessoais.”

Antes que ele terminasse, papai avançou de repente e deu um chute forte no corpo sob o lençol.

“Levanta!” ele berrou. “Para de fingir! Você acha que isso vai—”

As palavras morreram na garganta.

Ele estendeu a mão e puxou o lençol.

Foi a primeira vez que ele estendeu a mão pra mim.

Não quando eu implorava desesperada, não quando eu estava sendo torturada, não quando as chamas me engoliam.

Mas agora, quando eu já estava morta, quando nada mais podia ser desfeito.

Ele arrancou o lençol. Papai cambaleou alguns passos para trás, as pernas falharam, e ele desabou no chão coberto de cinzas.

“Elena…”

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