Capítulo 2 O coração interior da criança
A voz de Jessica foi cortada de repente, como se o ar tivesse sido arrancado violentamente de seus pulmões.
“Você não pode—” Ela usou a última força que tinha, gritando em meio ao choro. “É seu filho!”
Mas Benjamin puxou a perna para trás sem a menor piedade, o rosto exibindo apenas frieza e impaciência. “Eu já mandei fazer uma amniocentese. Quem sabe de que bastardo você está grávida?”
Ele zombou. “Mas, se isso puder ajudar na doença da Harper, pelo menos a vida dessa criança não vai ser em vão.”
“Não!” Ela o viu se afastar, impotente, tentando explicar desesperadamente.
Ela nunca tinha estado com outro homem. A criança só podia ser carne e sangue de Benjamin.
Mas seu corpo parecia afundar num abismo de gelo, e os sons ao redor foram ficando distantes, embaralhados.
Ela ouviu vagamente os médicos gritando: “Hemorragia”, sentiu a picada surda de agulhas perfurando suas veias e, em seguida, um líquido gelado invadindo seu corpo.
Sua consciência pairou na borda da escuridão, como neblina prestes a ser dispersa pelo vento.
Depois do que pareceu minutos — ou horas — frases quebradas atravessaram a névoa e perfuraram seus ouvidos—
“Acabou de nascer e já mandaram pra sala de cirurgia...”
“...Meu Deus... como isso pode acontecer...”
“O coração foi tirado... que horror...”
O coração de Jessica se apertou.
Ela arregalou os olhos, tão fraca que mal conseguia se mexer, mas aquelas palavras ficaram marcadas na mente dela como ferro em brasa.
“A criança...” ela grasnou, com a voz quase inaudível.
A empregada ao lado da cama se assustou e se inclinou depressa. “Senhora, você acordou? Está precisando de alguma coisa?”
“A criança...” Jessica agarrou o pulso da empregada com força, uma força que parecia impossível para alguém que tinha acabado de sofrer uma hemorragia. “Meu filho... onde ele está?”
O rosto da empregada perdeu toda a cor. “E-ele... está no berçário...”
“Me leva até lá!” Jessica tentou se erguer da cama. O ferimento recém-suturado no abdômen lançou uma dor dilacerante pelo corpo dela, mas ela não se importou. “Me leva agora!”
“Senhora, a senhora não pode sair da cama! A senhora ainda está sangrando—”
“Me leva!” A voz de Jessica saiu aguda e desesperada, como o rugido de um animal moribundo. “Ou eu me jogo pela janela!”
A empregada tremeu e só conseguiu ajudá-la a sair da cama.
As pernas de Jessica estavam tão fracas que mal a sustentavam. Cada passo parecia andar sobre lâminas, e a gaze no abdômen logo ficou encharcada de sangue fresco.
Ela não se importou.
Aquelas palavras quebradas ecoavam na mente dela.
“O coração foi tirado...”
Não.
Impossível.
O que Benjamin disse era só pra assustá-la.
Ele não podia ser tão cruel com o próprio filho.
O corredor era longo, e o carpete grosso engolia qualquer som de passos.
A mansão inteira estava assustadoramente silenciosa — nenhum choro de bebê, nenhum vai-e-vem de empregados, só a respiração áspera e dolorida dela.
O berçário ficava na ala oeste da casa, e ela precisava atravessar todo o salão principal.
Quando Jessica finalmente cambaleou até a porta do berçário, viu que estava entreaberta, e um cantarolar baixinho de Harper vinha de dentro, estranho e alegre.
Ela empurrou a porta.
Harper estava de costas para ela, ao lado de uma grande incubadora no centro do quarto.
A tampa de vidro da incubadora estava embaçada, impossibilitando ver o que havia dentro.
Ao ouvir a porta se abrir, Harper se virou devagar.
Ela usava um conjunto rosa-claro, a maquiagem impecável, um sorriso discreto no rosto.
“Você acordou?” A voz dela era suave como água de nascente. “Por que você saiu da cama? Você acabou de dar à luz — precisa descansar.”
O olhar de Jessica se prendeu à incubadora. “A criança... o meu filho...”
O sorriso de Harper se alargou. “A criança? Adivinha.”
Jessica cambaleou até a incubadora, limpando o embaçado do vidro com as mãos trêmulas—
A incubadora estava vazia.
“Onde está a criança?” Jessica se virou num giro, os olhos afiados como lâminas de gelo. “Onde está o meu filho?!”
O sorriso de Harper era doce a ponto de ser cruel — veneno embrulhado em açúcar.
“Comigo.” A palma da mão dela deslizou até a barriga, antes inchada, e a acariciou com uma ternura debochada. “Jessica, meu corpo estava falhando. Eu queria viver... então eu peguei o coração do seu filho — um catalisador pra manter a minha vida acesa por mais um pouco.”
O ar ficou pesado, pressionando os pulmões de Jessica. A respiração travou, a visão afunilando, como se o mundo inteiro estivesse desabando para dentro.
“O quê... você disse?”
Os lábios de Harper se curvaram, os olhos brilhando com uma satisfação doentia. “Eu disse que o coração da criança já está dentro de mim — me mantendo viva, como o catalisador mais precioso de uma droga rara.”
A cabeça de Jessica girou. Ela desabou de joelhos, chorando de desespero. “Por mais que ele me odeie, a criança ainda é carne e sangue dele! O Benjamin é humano?”
“O que você quer dizer com filho dele? Aquela criança era do Henry.” O sorriso de Harper sumiu. “Oito meses atrás, você foi pra cama do Benjamin, mas antes daquela noite você já tinha dormido com o Henry, não tinha? Então essa criança era o filho póstumo do Henry.”
Ela saboreou a expressão completamente despedaçada de Jessica. “O Benjamin odeia tanto o irmão... como ele ia tolerar você carregando o filho dele e mentindo que era dele?”
“Não...” Jessica balançou a cabeça. “Impossível... eu e o Henry nunca... aquela noite foi a primeira vez...”
“Primeira vez?” Harper zombou. “Jessica, você interpreta muito bem. Pena que a prova está aí. O teste de paternidade mostrou que essa criança não tem nenhuma relação com o Benjamin, mas bate com o DNA do Henry.”
Ela caminhou até a incubadora, batendo com os dedos no vidro frio, os lábios se repuxando num sorriso doentio. “Então, tá vendo? O Benjamin deixou seu filho recém-nascido ir pro céu encontrar o pai.”
Ela fez uma pausa, um lampejo de prazer gelado nos olhos. “Uma família, no mesmo lugar... pra nunca mais se separar. Você não acha?”
Jessica sentiu o ar ser arrancado, incapaz de respirar.
Harper riu ainda mais, alegre demais, inclinando-se até a orelha dela e falando num sussurro baixo, quente. “O Benjamin inicialmente planejou dar o que restou da criança pros cachorros. Eu disse que alimentar cachorro era desperdício — por que não transformar em adubo? Assim, as flores do jardim iam florescer todo ano.”
As pupilas de Jessica se contraíram, virando dois pontos.
“Ele concordou.”
Jessica soltou um grito que rasgou a garganta e avançou enlouquecida em Harper, tentando estrangulá-la.
Harper se desviou com agilidade. Dois enfermeiros correram para dentro, segurando Jessica com força pelos dois lados.
“Me solta! Sua demônia! Esse é meu filho! Devolve ele pra mim!” Jessica se debateu, histérica, e o ferimento se abriu, sangue fresco manchando rápido a camisola do hospital e pingando no carpete. Ela parecia não sentir dor — só ódio infinito e loucura.
Harper recuou com frieza calculada. “Jessica, não se exalte — cuidado pra sua loucura não atacar de novo.”
Jessica desabou no chão, arranhando o carpete, as unhas quebrando e sangrando.
Ela ergueu a cabeça; os olhos injetados, o olhar já não era humano, mas cheio do veneno de um bicho morrendo.
“Harper”, cada palavra espremida entre os dentes, “eu... vou te matar...”
“Me matar?” Harper zombou. “Jessica, você mal consegue se salvar.”
“O Benjamin disse que, assim que terminar de cuidar do funeral da criança, vai te mandar pra um hospital psiquiátrico.”
