Capítulo 3 A avó está morta

—Mas na próxima primavera —murmurou Harper, com uma doçura distorcida escorrendo na voz—, o meu amado jardim de rosas vai estar em plena floração. E, quando esse dia chegar, eu vou mandar te tirarem do manicômio... só pra você ver com os próprios olhos. Essas flores… são alimentadas pelo coração do seu filho.

O corpo de Jessica convulsionou com violência, como se cada osso dentro dela estivesse se estilhaçando sob o peso do ódio e do desespero puros.

O filho dela —o bebê que ela tinha lutado para trazer ao mundo— fora aberto à força, o coração arrancado, transformado no catalisador vivo que mantinha a vida de Harper ardendo.

E Benjamin —o homem em quem ela um dia acreditara que protegeria a criança—, sob a mentira venenosa de Harper, tinha dado a ordem para massacrar o próprio sangue.

A boca de Jessica se retorceu num sorriso, e uma gargalhada vazia e delirante escapou, despedaçando o silêncio como vidro quebrando num quarto vazio.

Os olhos de Harper se estreitaram, impacientes.

—Você enlouqueceu?

—Sim. Sim, enlouqueci. —Jessica ergueu a cabeça; as lágrimas escorriam pelo rosto, ao mesmo tempo em que algo selvagem, febril, se acendia no olhar.— Você me levou a isso... Harper, vai ter consequência. Você e Benjamin... vocês vão pagar pelo que fizeram.

Harper soltou uma risadinha, com aquele tipo de crueldade casual.

—Consequência? Jessica, você tem problemas maiores pra se preocupar.

Ela falou como se estivesse comentando uma bobagem qualquer.

—Você não ficou sabendo, ficou? A vovó morreu hoje à tarde.

O ar travou na garganta de Jessica.

—O quê... o que você disse? —Ela ergueu o olhar, os olhos se enchendo de terror e incredulidade.— A vó? Qual—

—Qual você acha? —Harper inclinou a cabeça, numa falsa compaixão.— A única que de fato se importou com você depois que você voltou pra família Martinez. Tirando a sua mãe desequilibrada, claro. Evelyn Martinez —minha avó do lado da minha mãe— a sua avó de verdade.

Cada palavra entrou como uma lâmina entre as costelas de Jessica.

—Não... isso não é possível... —Ela balançou a cabeça com força, as lágrimas despencando.— A vó estava bem... eu fiz uma videochamada com ela mês passado. Ela disse que ia tricotar uma mantinha pro meu bebê com as próprias mãos...

—Isso foi mês passado. —A voz de Harper continuou plana, clínica.— Ela teve um AVC enorme. Morreu antes de conseguirem salvar. Aliás, deixou alguma coisa pra você no testamento. Embora, do jeito que você está agora, duvido que tenha condições de reivindicar.

Jessica se apoiou na parede, lutando pra ficar de pé.

—Como ela poderia ter tido um AVC? Ela tomava os remédios direitinho. Os exames dela sempre davam bons—

—Porque alguém empurrou ela pro limite. —Harper cortou, a voz doce agora com uma ponta de gelo.— Jessica, aquele vídeo seu pendurada numa árvore, parindo? E aquela sex tape falsa? Os dois ficaram em primeiro lugar nos assuntos mais comentados do país.

Ela tirou o celular, tocou na tela e enfiou o aparelho na cara de Jessica.

Lá estava ela —suspensa na árvore, nua, em trabalho de parto— capturada numa definição brutal.

Os ângulos eram deliberadamente cruéis. Mesmo com o desfoque estrategicamente colocado, o rosto dela era inconfundível.

O vídeo vinha com legendas inflamadas e uma música de fundo manipuladora. O número de comentários já tinha passado de um milhão.

—A vó viu isso e caiu na hora. —Harper puxou o celular de volta.— Quando levaram ela pro hospital, já era tarde demais. Os médicos disseram que foi uma hemorragia cerebral por estresse.

O mundo de Jessica implodiu.

O filho dela estava morto —dilacerado, transformado em adubo, consumido.

A avó dela estava morta —morta de raiva e de dor depois de ver aqueles vídeos falsificados feitos pra destruir.

—Foi você... —A voz de Jessica tremia.— A vó também te amava. Ela amava a sua mãe. Por que você faria isso com ela?

—“Amaram a gente?” —a risada de Harper saiu amarga. —Depois que sua mãe perdeu a filha e a sanidade, a vovó amou ainda mais a sua mãe por causa disso. A minha mãe era a filha de verdade dela, mas ela tratava a gente como se fosse de fora. —A expressão dela endureceu. —Agora a família Martinez te considera uma vergonha. Eles apagariam você da existência se pudessem. Ninguém nem se deu ao trabalho de te contar que ela morreu. Eu só estou aqui por pura bondade —achei que você merecia saber.

Ela se agachou, ficando na altura do olhar vazio de Jessica. —Quer se despedir?

Os lábios de Jessica tremeram, mas nenhum som saiu.

—Eu te levo até ela. —Harper se levantou e bateu palmas uma vez.

Dois enfermeiros apareceram e puxaram Jessica para ficar de pé.

—Troquem a roupa dela —ordenou Harper. —Ela vai a um velório. Tem que estar apresentável.

Arrastaram Jessica para fora do quarto como uma boneca quebrada e a enfiaram à força num vestido preto.

O vestido era novo, mas dois números maior, frouxo no corpo esquálido dela, deixando ainda mais evidente o quanto ela tinha se perdido.

Empurraram-na para dentro de um sedã preto. Harper entrou e sentou ao lado dela, retocando o batom com toda a calma.

O carro parou em frente à mansão da família Martinez.

Quando os enfermeiros puxaram Jessica para fora, as pernas dela quase cederam.

O ferimento no abdômen tinha se aberto ainda mais durante a luta. Ela sentiu o sangue quente escorrendo pela parte de dentro das coxas, encharcando o tecido preto.

Mas ela já não conseguia sentir dor.

Só restava um pensamento: ela precisava ver a avó uma última vez.

Harper foi na frente, sob um guarda-chuva preto, olhando por cima do ombro com um sorriso nos lábios. —Jessica, se despeça direito. É a última vez que você vai ver ela.

Jessica cerrou os dentes, afastou as mãos dos enfermeiros e cambaleou para a frente sozinha.

No instante em que ela apareceu, toda conversa morreu.

Dezenas de olhos se fixaram nela —cheios de medo, evasão, nojo. Não havia nem sinal de calor humano.

—Por que ela está aqui? —sussurrou um parente, alto o bastante para todo mundo ouvir. —O sr. Benjamin Jones não proibiu ela de botar os pés na mansão dos Martinez de novo?

—Sem a Evelyn pra proteger, quem vai defender ela agora?

—Ela é uma maldição. O sr. Jones está descontando em todos nós por causa dela.

Jessica ignorou. Ou talvez tivesse ficado insensível ao peso daqueles olhares.

Cada gota de força que ainda tinha foi para aqueles poucos passos até a cama de Evelyn.

—Vó... —Ela caiu de joelhos, o corpo tremendo de fraqueza e agonia, mas ainda assim insistindo em esticar a mão para puxar o lençol branco que cobria aquela forma imóvel e gelada. —Eu vim te ver...

—Não encosta nela!

A voz de Jeremy saiu mais dura do que ela já tinha ouvido.

Ele avançou e agarrou o pulso de Jessica com uma força brutal, esmagando os ossos do pulso.

—Jessica! Quem te deu permissão pra vir aqui?! —O rosto dele não mostrava luto; só repulsa, sem disfarce. —Você ainda não causou dano suficiente a esta família?!

Jessica ergueu o olhar para o homem que ela tinha chamado de pai por doze anos.

O gelo e o desprezo nos olhos dele eram reais demais —piores do que nunca.

—Pai... —A voz dela saiu rouca, quebrada. —Eu só... eu só queria ver a vó uma última vez...

—Cala a boca! —Jeremy Martinez arremessou a mão dela para longe como se ela estivesse contaminada. —Não me chama assim! Eu não sou seu pai! A família Martinez cortou laços com você faz tempo!

Ele se virou para os parentes reunidos, a voz subindo, agitado: —Vocês esqueceram o que o sr. Jones disse?! Por causa dessa mulher, o Grupo Jones rompeu todas as parcerias que tinha com a gente! Roubaram o projeto da Zona Oeste debaixo do nosso nariz, os bancos estão cobrando os empréstimos, fornecedores estão rompendo contratos! A família Martinez está à beira do colapso —tudo por causa dela!

Ele apontou para Jessica, o dedo tremendo de raiva. —O sr. Jones deixou claríssimo: enquanto a família Martinez reconhecer ela, enquanto a gente mantiver qualquer ligação com ela, ele vai garantir que a gente seja completamente destruído! Vocês querem afundar a família inteira junto?!

Então era isso. Benjamin tinha usado a sobrevivência da família Martinez como alavanca, obrigando todos a abandonarem Jessica por completo.

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