Capítulo 5 Canil
Ele não se virou. As costas ficaram rígidas, travadas no lugar.
Harper tremia nos braços dele, enterrando o rosto ainda mais no peito dele. A voz dela saiu engasgada de tanto chorar, quase um sussurro só para ele. “Benjamin, vamos embora... Meu pescoço dói demais... Eu tô com medo...”
O corpo de Benjamin relaxou um pouco. Ele baixou os olhos para os hematomas violentos ao redor do pescoço de Harper, e a mente voltou, num lampejo, ao ataque descontrolado de Jessica instantes antes. O último resquício de dúvida no peito dele se apagou por completo, substituído por uma raiva ardente.
Ele lançou as palavras como estilhaços de gelo, cortando o ar.
“Jessica, para com essa encenação. A partir de hoje, você vai ficar na Mansão Jones e pensar no que fez. Você não vai a lugar nenhum sem a minha permissão.
“E se você encostar na Harper de novo, ou fizer qualquer outra gracinha...”
Ele fez uma pausa, com a intenção assassina na voz, crua e sem disfarce. “Eu não vou hesitar em transformar você num cadáver de verdade.”
Dito isso, ele carregou Harper para fora do salão do velório sem olhar para trás.
Jessica desabou no chão, tossindo com violência, como se os pulmões gritassem a cada respiração.
O olhar dela acompanhou os dois se afastando — ele segurando Harper com tanta delicadeza — e então deslizou até o corpo da avó, imóvel no caixão, antes de varrer os rostos dos membros da família Martinez. Medo, nojo, até satisfação — ela viu tudo nos olhos deles.
A dor do pulso quebrado se espalhava fundo pelos ossos. O ferimento no abdômen ainda sangrava. Mas nada disso se comparava ao vazio gelado que crescia dentro do peito dela.
A equipe de segurança de Benjamin invadiu o local, ignorando a reação de todo mundo, agarrou Jessica pela gola e a arrastou para fora como se fosse uma encomenda.
Ela não resistiu. Só encarou o vazio, deixando que fizessem o que quisessem.
A família Martinez assistiu enquanto a filha, antes privilegiada, era levada embora na mais completa humilhação.
Quando o carro entrou na propriedade, o fim de tarde já tinha caído.
Harper tinha trocado de roupa e estava com um conjunto confortável, com a garganta envolta em ataduras brancas impecáveis. Ela se apoiava em Benjamin, murmurando alguma coisa em voz baixa.
Benjamin ouvia com atenção, a expressão suave — uma transformação completa do homem selvagem no salão do velório.
O carro parou em frente à casa principal.
Benjamin tirou Harper com cuidado e a carregou direto em direção à mansão, toda iluminada, sem lançar um único olhar para Jessica, que estava sendo puxada para fora do veículo atrás deles.
“O Sr. Jones deu instruções específicas”, disse friamente o chefe da segurança ao mordomo. “A Sra. Jones vai ser colocada no quarto especial no jardim dos fundos. Cuide dela. Ninguém chega perto sem a permissão da Srta. Anderson. E nada de atendimento médico.”
O mordomo fez uma leve reverência. “Entendido, senhor.”
Quarto especial?
Jessica foi arrastada, entorpecida, para as partes mais afastadas da propriedade, atravessando jardins impecavelmente cuidados, passando pela piscina iluminada, até chegarem a um canto isolado.
Ali havia uma área cercada por um alambrado pesado — o canil de Benjamin, onde ficavam vários cães de guarda grandes.
Ao lado do canil, havia uma estrutura de concreto recém-construída, baixa e sem janelas. Tinha uma porta de ferro grossa, com uma aberturinha na parte de baixo, grande o bastante apenas para passar uma tigela.
A porta de ferro se abriu. O fedor de bicho misturado com mofo úmido bateu no rosto dela. Lá dentro não havia nada além do chão de concreto nu e um monte de palha num canto.
“Entra!” O segurança a empurrou para dentro, sem cerimônia.
A porta de ferro se fechou com força atrás dela. A tranca fez um clique, com uma finalização brutal.
O mundo mergulhou numa escuridão turva e num silêncio morto. Só a pequena abertura na parte de baixo da porta deixava entrar um fio de luz fraca.
Jessica desabou sobre o concreto gelado e implacável. O pulso quebrado e o ferimento no abdômen latejaram ao mesmo tempo, e pontinhos pretos começaram a dançar diante dos seus olhos.
Ela se encostou na parede áspera, ofegando, e cada respiração parecia rasgar ainda mais as lesões.
Depois do que pareceu uma eternidade, passos se aproximaram, acompanhados do rosnado baixo de um cachorro.
A portinhola rangeu ao abrir. Uma tigela de aço inox foi enfiada de qualquer jeito, com meia porção de algo que parecia uma papa e tinha um cheiro rançoso.
— Jantar, dona Jones. — A voz debochada de uma empregada veio do lado de fora. — A senhorita Anderson foi tão boazinha que mandou a cozinha preparar uma refeição nutritiva só pra você.
Jessica encarou a tigela, sentindo o estômago embrulhar.
Mas ela sabia que precisava comer.
Com a perda de sangue e a fraqueza depois do parto, ela morreria se não comesse.
E ela ainda não podia morrer.
Se morresse, quem faria justiça pelo filho assassinado?
Jessica tinha certeza de que o bebê era do Benjamin. A Harper devia ter trocado o resultado do teste de paternidade.
Com a mão esquerda, a única que não estava machucada, tremendo, ela puxou a tigela para mais perto. Prendendo a respiração, foi engolindo aquela comida nojenta aos poucos, cada gole como se fosse engasgar com a humilhação e o ódio.
Quando terminou, se sentiu mais faminta do que antes, sem satisfação nenhuma.
A noite caiu. Os dobermans e rottweilers do canil ficaram inquietos, andando de um lado para o outro e rosnando baixo.
Eles tinham sentido o cheiro de um estranho. Esse novo vizinho os deixava desconfiados, hostis.
Na manhã seguinte, Jessica acordou com uma agitação lá fora.
Pela fresta debaixo da porta e pela portinhola, ela viu vários jardineiros cavando buracos e plantando roseiras perto do canil.
Harper estava ali por perto, sob um guarda-sol elegante, supervisionando tudo pessoalmente.
As ataduras no pescoço tinham sido substituídas por pequenos curativos adesivos, quase imperceptíveis.
— Aí mesmo, isso. Plantem mais juntinhas. — A voz dela trazia um prazer evidente. — Na primavera que vem, eu quero essa área inteira florindo com as rosas mais lindas. Usem o melhor adubo. Cuidem delas com atenção especial.
Os jardineiros murmuraram concordando.
O coração de Jessica despencou.
Ela quase conseguia sentir o cheiro — aquele perfume enjoativo, doce demais, se misturando à terra recém-revirada.
Harper pareceu perceber o olhar dela. Virou-se para a estrutura de concreto e abriu um sorriso ao mesmo tempo bonito e venenoso.
Ela ainda acenou com elegância, articulando em silêncio: “Jessica, bom dia. Você gostou do seu novo lar?”
Jessica mordeu o lábio de baixo até sentir gosto de sangue e se obrigou a desviar o olhar.
Os dias seguintes foram um inferno.
Duas refeições por dia, enfiadas pela portinha do cachorro. Porções tão pequenas que mal davam pra chamar de comida. O gosto dava ânsia, e às vezes vinha até terra misturada.
Para sobreviver, Jessica tinha que comer.
E ela era extremamente alérgica a pólen.
À medida que as roseiras cresciam, o ar se enchia de pólen.
Ela começou a espirrar sem parar. O nariz escorria. Os olhos inchavam e coçavam. A garganta parecia arranhada em carne viva. Respirar ficava cada vez mais difícil.
O cubículo de concreto não tinha ventilação. Muitas vezes ela acordava no meio da noite engasgando, puxando o ar com a boca escancarada, certa de que no segundo seguinte seria o fim.
E, com tudo isso, a pouca comida que recebia mal conseguia mantê-la viva.
Ela foi definhando. As bochechas ficaram fundas. As costelas começaram a aparecer.
Um dia, a refeição veio ainda menor do que de costume. A maior parte tinha derramado, sobrando só restos.
A fome queimava dentro do estômago.
Ela ouviu o responsável pelo canil alimentando os cães — carne crua fresca e ração premium.
Os animais rosnaram, satisfeitos, enquanto comiam; sons de contentamento ecoaram pelo ar.
Um pensamento desesperado criou raiz na mente dela.
