Capítulo 6 Seu sangue funcionará para ela
Depois que o tratador saiu, ela espiou pela fresta da porta de ferro e avistou as tigelas de comida — um montinho de ração e vários pedaços de carne ainda sobrando.
O instinto de sobrevivência esmagou o último fiapo de dignidade e de medo que ela ainda tinha.
Com a mão que não estava ferida, ela mexeu na pequena abertura na parte de baixo da porta, forçando-a a se alargar, milímetro por milímetro, numa dor excruciante. As bordas ásperas do ferro rasgaram seus dedos, e o sangue escorreu pela palma, mas ela mal sentiu a dor.
Ela se achatou contra o concreto gelado, esticando o braço pela abertura o máximo que alcançava, avançando devagar em direção às tigelas dos cães.
Vários cães a observavam com desconfiança alerta, rosnados baixos vibrando no fundo da garganta.
Mas ela estava faminta.
Por fim, seus dedos roçaram a borda de uma tigela. Ela a puxou para mais perto e, desesperada, agarrou punhados de ração e pedaços de carne crua, enfiando tudo na boca.
Os grãos duros arranharam sua garganta até arder. A carne fedia a sangue e gordura. Ainda assim, ela engoliu de forma frenética, voraz, como se fosse o melhor banquete do mundo.
O maior dobermann latiu. Avançou rosnando e, antes que ela conseguisse recuar, cravou as mandíbulas no antebraço exposto dela.
O grito dela rasgou o ar.
Os dentes afiados afundaram fundo na carne. O sangue jorrou na hora.
Ela se debateu descontrolada, chutando a porta de ferro, e o estrondo metálico ecoou pelo canil.
Empregados ao longe ouviram a confusão e vieram correndo. Quando viram o que estava acontecendo, não espantaram o cão. Em vez disso, ficaram ali zombando dela, se divertindo com o espetáculo.
— Olha só... Tá tão desesperada que até rouba a comida dos cachorros?
— Bem feito. É isso que ela ganha por machucar a senhorita Anderson.
— Deixa. Que ela aprenda a lição.
Só quando o ferimento no braço de Jessica já tinha sido rasgado até o osso, e o sangue se acumulava sob ela, foi que um dos empregados finalmente assobiou, preguiçosamente, chamando o dobermann de volta.
O cão soltou a mordida, lambendo o sangue dos dentes, lançando a ela um olhar frio antes de voltar para o seu lugar.
Jessica desabou no chão, com o braço reduzido a um amontoado de carne dilacerada. O sangue escorria da ferida em filetes contínuos.
A ferida infeccionou imediatamente. Somado ao inchaço severo nas vias respiratórias por causa da alergia ao pólen, ela passou três dias inteiros presa entre a febre ardente e a asfixia.
Na manhã do quarto dia, a porta de ferro finalmente raspou ao abrir.
Uma luz ofuscante inundou o lugar. Ela estava encolhida no canto, entre a palha, mal consciente.
Alguém a colocou numa maca. O mundo virou um borrão de sacolejos.
Quando recobrou a consciência, ela se viu num quarto limpo — quase luxuoso. Parecia ser um dos quartos de hóspedes da propriedade. Ar fresco, sem pólen. Cama macia. O braço dela tinha sido limpo, suturado e enfaixado por mãos profissionais.
Um médico de jaleco branco preparava um soro na veia. O remédio pingava nas veias dela, frio e calmante, aliviando a febre e a inflamação.
Benjamin... ele finalmente tinha enxergado por trás da máscara de Harper?
O pensamento cintilou como uma chama frágil na mente dela — fraca, mas teimosa, mexendo nas águas paradas da esperança morta.
Ela sabia que as chances eram impossivelmente pequenas. Mas até no inferno a gente se agarra ao fio de salvação mais improvável.
A porta se abriu de leve.
Jessica forçou os olhos a se moverem, olhando na direção do som.
Benjamin entrou, como ela esperava.
Ele vestia outro terno impecável, absurdamente bonito, parando ao lado da cama e olhando para ela de cima.
— Você acordou? — A voz dele não tinha emoção.
Os lábios de Jessica se entreabriram. A garganta estava seca demais para sair qualquer som.
Benjamin fez um gesto para o médico ir embora.
Ficaram sozinhos.
— Seu tipo sanguíneo é raro. Rh negativo. — A voz de Benjamin permaneceu sem emoção, clínica. — A Harper precisa de transfusões regulares. O tipo sanguíneo dela também é Rh negativo.
Os olhos de Jessica se arregalaram um pouco.
— Os bancos de sangue de Northgate City não têm reserva suficiente desse tipo. A Harper não pode esperar. — Benjamin olhou para ela, o olhar sem nenhum calor — só cálculo frio. — O seu sangue serve pra ela.
Então não era verdade, afinal.
Era só porque o sangue dela tinha valor para a Harper.
Aquela chama frágil de esperança se apagou, afundando numa escuridão ainda mais profunda.
Jessica quis rir, mas não tinha força nem para mexer os lábios.
— A partir de hoje, uma vez por semana. Toda semana, vamos tirar uma bolsa inteira. — O tom de Benjamin fazia parecer que ele estava marcando uma reunião de trabalho. — Descanse. Recupere as forças. Não atrapalhe o “estoque” da Harper.
Jessica fechou os olhos. As lágrimas escorreram em silêncio pelo rosto.
Então tinham tirado ela do canil e cuidado dos ferimentos só para transformá-la numa bolsa de sangue novinha.
Benjamin observou o rosto pálido de Jessica e as lágrimas caindo, e franziu levemente a testa.
Mas logo reprimiu seja lá o que tivesse sido aquele lampejo de sentimento, e a voz voltou a ficar fria.
— Só que… imaginar o seu sangue imundo correndo no corpo da Harper…
Ele fez uma pausa, e o tom se encheu de nojo, sem disfarçar.
— Antes de cada coleta, mandem esfregar essa mulher de cima a baixo com desinfetante. Principalmente… essas partes que Deus sabe quantos homens já puseram as mãos.
O corpo de Jessica tremeu com violência — não de medo, mas da humilhação e do ódio absolutos, prestes a explodir de dentro daquela casca quebrada.
O que ele achava que ela era?
Benjamin terminou de falar e se virou para sair, sem olhar para trás.
— Benjamin. — Jessica forçou a palavra para fora, com a voz em frangalhos.
Os passos dele hesitaram.
— Você acha que ela é algum tipo de santa? Ela é mentirosa, maldosa e depravada, cruel num nível absurdo! — A voz de Jessica saiu desesperada e cortante. — Eu prefiro sangrar até morrer a deixar alguém tão nojenta quanto a Harper usar o meu sangue!
As costas de Benjamin enrijeceram.
— Cala essa boca! — Ele se virou num giro, com os olhos injetados, atravessou até a cama em três passos e agarrou o queixo dela num aperto que parecia capaz de quebrar osso. — Jessica! Você acha que meia dúzia de mentiras vai colocar a Harper contra mim? Eu sei exatamente que tipo de pessoa ela é — melhor do que qualquer um! Ela se deixou ser pisoteada para me proteger. Ela morreria por mim!
A respiração dele saiu áspera, de raiva, enquanto ele encarava Jessica de cima.
— E você — uma mulher que faria qualquer coisa para subir na vida, que matou o próprio noivo — que direito você tem de questionar a Harper?!
O maxilar de Jessica latejava com uma dor que começava a ficar dormente. Lágrimas escorreram pelos cantos dos olhos, mas por dentro ela só sentia uma ironia amarga. Um homem frio como Benjamin, realmente comovido por uma dívida de infância.
Mas ela não conseguia entender esse tipo de devoção. Desde que fora levada para a Mansão Martinez aos doze anos, tinha perdido toda a memória do que veio antes.
A infância dela era só um vazio.
E, ainda assim… o suposto sacrifício da Harper por ele — por que Jessica tinha que pagar essa dívida?
O corpo dela também tinha sido cuidadosamente reconstruído ao longo de dez anos na Mansão Martinez!
— Benjamin, se você realmente quer retribuir a ela… — Jessica fitou aqueles olhos vermelhos, articulando cada palavra. — Por que não dá logo a ela uma morte misericordiosa? Poupa ela de sofrer com essa doença.
— Você…! — A fúria de Benjamin chegou ao auge. A mão dele se ergueu para bater.
