Capítulo 7 Carne higienizada
Jessica apertou os olhos com força.
Ele encarou o rosto pálido e abatido dela; os dedos dele se fecharam um pouco mais, mas, no fim, ele não conseguiu se obrigar a bater.
— Você não tem escolha. — A voz dele era fria e implacável, como aço contra concreto. Ele deixou aquela sentença gelada no ar e saiu do quarto a passos largos.
A porta bateu atrás dele, e o impacto surdo reverberou pelas paredes.
O corpo de Jessica amoleceu sobre a cama; o maxilar latejava com uma dor ardente, enquanto um frio entorpecido, que se espalhava, tomava conta do peito dela.
Pouco depois, duas enfermeiras grandes e robustas entraram, cada uma carregando vários baldes de desinfetante forte. O fedor acre queimou as narinas de Jessica.
— O senhor Jones mandou fazer uma desinfecção de corpo inteiro na senhora Jones. — Uma das enfermeiras falou com frieza, puxando o cobertor fino de cima de Jessica sem hesitar.
Jessica não resistiu. Apenas fechou os olhos, como se estivesse desligando qualquer sensação.
Desinfetante gelado e altamente concentrado foi despejado brutalmente sobre o corpo dela; o líquido escorreu pela pele e se infiltrou em cada fresta.
A dor subiu cortante pelos olhos, invadiu as narinas e a boca, fazendo-a engasgar e tossir com violência. Infiltrou-se nas feridas íntimas que ainda cicatrizavam e nos cortes do braço, disparando ondas de agonia excruciante por todo o corpo.
Elas esfregaram a pele dela repetidas vezes com escovas ásperas, como se estivessem limpando um equipamento velho e imundo.
A pele ficou vermelho-viva antes de se abrir. O desinfetante entrou nas feridas novas, fazendo o corpo inteiro dela se contrair.
— Aqui... e aqui... homens tocaram nesses lugares, não tocaram? Precisam de atenção extra. — A voz da enfermeira era sem emoção. Os movimentos dela ficaram ainda mais brutais.
A humilhação tomou Jessica como uma maré subindo.
Mas ela só mordeu o lábio com mais força, se recusando a deixar qualquer som escapar.
Ela não ia chorar.
Ela não ia implorar.
Para Benjamin e Harper, lágrimas e súplicas não valiam nada.
O processo de desinfecção durou quase uma hora.
Quando as enfermeiras finalmente pararam, Jessica estava encharcada; a pele, inchada e coberta de pequenas fissuras e queimaduras químicas, como se uma camada de proteção tivesse sido arrancada. Ela ficou deitada, fraca e tremendo, sobre os lençóis frios e molhados.
O médico entrou para refazer os curativos. Um lampejo de compaixão passou pelos olhos dele, mas, no fim, ele não disse nada.
Do outro lado da propriedade, no quarto principal da casa grande, Harper estava recostada na cabeceira; a tez um pouco pálida, mas o ânimo lá em cima.
Ela tomou aos poucos o tônico para fortalecer o sangue que Benjamin encostava nos lábios dela.
— Benjamin, tratar a Jessica assim... não é um pouco... — O tom dela era frágil; os olhos exibiam uma hesitação e uma relutância perfeitamente calculadas.
Benjamin interrompeu o movimento por um instante. A voz dele baixou. — É o que ela te deve. A sua saúde importa mais do que qualquer coisa.
Harper se aninhou no abraço dele, falando baixo: — Eu só me preocupo... que a Jessica passe a nos odiar.
— O ódio dela? — O riso de Benjamin foi seco e gelado, e o olhar dele ficou afiado como lâmina. — Que direito ela tem de odiar alguém?
Mesmo dizendo isso, os olhos ocos e desolados de Jessica voltaram a invadir os pensamentos dele.
Ele sacudiu a cabeça, irritado, empurrando aquela sensação indesejada para o fundo.
— Não pense nela. Descanse. Na semana que vem... você vai ter o sangue dela.
Harper assentiu, obediente. Num ângulo que ele não via, o canto da boca dela se curvou num sorriso quase invisível.
Ao cair da tarde, a porta do quarto de Jessica se abriu, e Harper entrou sozinha.
— Jessica, pelo jeito você está se recuperando bem?
Jessica estava encostada na cabeceira, encarando-a com frieza, sem dizer nada.
Harper não pareceu se incomodar. Ela foi até a janela, com os dedos brincando de leve com a cortina.
—Imagino que, se você tentasse me queimar viva, o Benjamin não ia te perdoar.
Ela sorriu de leve, abrindo um isqueiro com um estalo. A chama lambeu a barra inferior da cortina.
As pupilas de Jessica se contraíram de repente.
O fogo explodiu na mesma hora, subindo depressa pelo veludo ressecado, e uma fumaça grossa se espalhou em ondas.
No instante em que as chamas pegaram, Jessica se debateu para sair da cama.
A fumaça desceu pela garganta dela. Jessica tossiu com violência quando o calor escaldante bateu no rosto. As cortinas, o carpete, os móveis de madeira — tudo pegou fogo. O quarto virou um inferno.
O instinto de sobrevivência atropelou qualquer outra coisa.
Ela cambaleou em direção à porta, mas o corpo debilitado deixou os movimentos lentos, pesados.
—Jessica... me ajuda... —Harper estendeu a mão, lágrimas escorrendo pelo rosto, a imagem perfeita do pânico.
Jessica só lançou um olhar para ela, sem estender a mão, concentrada apenas em escapar.
Mas, no segundo em que Jessica passou por Harper, algo cruel brilhou nos olhos dela. Harper avançou e agarrou o tornozelo de Jessica.
Pegando-a desprevenida, Jessica foi puxada para trás e caiu com força no chão.
Uma viga decorativa em chamas despencou de cima, soltando um rastro de faíscas, e bateu nas costas dela.
A dor foi como ter a carne tostada até o fundo. Jessica soltou um grito agudo, de cortar o ar.
Harper largou o tornozelo e rastejou para fora do quarto, sem esquecer de gritar, com voz apavorada:
—Socorro! Alguém ajuda! A Jessica ainda está lá dentro! Fogo!
Passos desordenados, gritos, o chiado de extintores — tudo se juntou num caos que chegou rápido.
Jessica tentou se levantar, mas a queimadura nas costas e a fumaça densa fizeram sua visão escurecer, e suas forças foram embora.
Antes de perder a consciência, ela viu Benjamin entrar de supetão, o olhar procurando frenético até parar em Harper, que chorava fraco bem do lado de fora da porta.
Ele correu até ela na mesma hora, pegando-a no colo, com a voz mais desesperada do que Jessica já tinha ouvido:
—Harper! Você está bem? Onde foi que se machucou?!
—Benjamin... eu tô bem... a Jessica... ela... —Harper amoleceu contra ele, apontando na direção das chamas.
Só então Benjamin olhou para Jessica, caída no meio do inferno. A testa dele se franziu. Ele rosnou para os seguranças que chegavam:
—Tirem ela daí!
Depois, carregando Harper, ele se afastou a passos largos sem olhar para trás, atrás de um médico.
Quando Jessica acordou de novo, estava na enfermaria subterrânea da mansão. As costas ardiam com uma dor lancinante, e cada respiração trazia a ardência do estrago da fumaça.
Ela forçou os olhos a se moverem e viu Benjamin e Harper ali.
Harper estava numa cadeira de rodas, a parte de baixo da perna envolta em ataduras, as bochechas marcadas de lágrimas, a própria personificação da vulnerabilidade. Benjamin estava ao lado dela, com uma expressão sombria, encarando Jessica na maca.
—Doutor, as queimaduras nas costas da Harper... vão afetar a aparência da pele dela para sempre? —a voz de Benjamin era grave.
O médico responsável hesitou.
—As queimaduras nas costas da srta. Anderson não são extensas, mas são bem profundas. Mesmo depois de cicatrizar, é provável que fiquem cicatrizes importantes e alterações de pigmentação...
As lágrimas de Harper caíram mais rápido ao ouvir aquilo. Ela choramingou baixinho:
—Isso quer dizer que... eu nunca mais vou poder usar vestido decotado nas costas... Benjamin, eu tô com tanto medo...
Benjamin apertou a mão dela com uma ternura dolorida; o gesto foi breve, mas possessivo. Então ele se virou para o médico, com a voz fria como gelo:
—Faça um enxerto de pele. Use a melhor pele possível pra reparar a dela.
O médico assentiu.
—Estamos procurando a fonte doadora mais compatível...
—Use a dela. —Benjamin levantou a mão, apontando para Jessica na maca. O tom dele era firme e impiedoso. —O tipo sanguíneo dela é compatível. A pele dela está em boas condições. Ela já tem queimaduras nas costas que precisam de tratamento de qualquer forma. Tirem da parte intacta. Tem o suficiente pra cobrir as costas da Harper por completo.
