Capítulo 8 Reviva-a

O coração de Jessica travou, como se uma mão de gelo o apertasse, parando de vez.

Usar a pele dela... para enxertar nas costas da Harper?

O médico hesitou. “Sr. Jones, a Sra. Jones também está com queimaduras graves, e o estado físico dela é extremamente ruim. Retirar enxertos grandes traz um risco enorme. Ela pode muito bem—”

“Desde que ela não morra.” Benjamin o interrompeu, o olhar varrendo com frieza o rosto sem cor de Jessica. “Esse é o preço que ela tem que pagar. Se não fosse por ela, como a Harper teria se machucado?”

Harper puxou de leve a manga de Benjamin, a voz frágil. “Benjamin, talvez seja melhor deixar isso pra lá... A Jessica, ela—”

Mas o tom de Benjamin não cedeu. “Harper, você não pode ser boazinha assim. Ela quase te matou. Esse preço não é nada perto do que ela merece.”

A cirurgia foi marcada imediatamente.

Jessica foi levada em uma maca para o centro cirúrgico. Enquanto a anestesia a puxava para baixo, os sussurros distantes de médicos e enfermeiros chegaram aos seus ouvidos. Ela pescou pedaços da conversa:

“De onde vamos retirar?”

“O Sr. Jones especificou a parte interna das coxas. A pele ali tem a melhor textura, é a mais adequada para enxertar nas costas da Srta. Anderson. Enxerto de espessura total das duas coxas internas. O suficiente para cobrir completamente as feridas das costas.”

“Mas a paciente também tem queimaduras nas costas que precisam de enxerto—”

“O Sr. Jones disse que as costas dela podem ser cobertas com pele sintética. A prioridade é ela sobreviver, é isso que importa.”

A escuridão a engoliu por completo.

Quando acordou de novo, uma dor aguda e esmagadora irradiava das costas e de dentro das duas coxas.

A dor na parte interna das coxas era especialmente intensa — queimava com tanta força que a encharcou de suor frio e quase a puxou de volta para a inconsciência.

Ela lutou para olhar para baixo. As duas pernas estavam envoltas em camadas grossas de gaze, que já deixavam passar sangue e um líquido misturado com pus. A queimadura nas costas também tinha sido tratada, mas os curativos eram grosseiros, com as bordas vazando secreção.

O médico franziu a testa, falando baixo com a enfermeira: “Infeccionou. As feridas estão muito contaminadas. A paciente está extremamente fraca, quase sem resposta imunológica. Começa com os antibióticos mais fortes que a gente tiver. Precisamos tentar controlar isso.”

As feridas apodreceram, e o fedor ficou pesado no ar.

A febre alta fez a consciência dela vacilar, escorregando entre momentos de lucidez e um delírio profundo.

“Ela não vai aguentar. O choque séptico está começando, e a falência de múltiplos órgãos já começou. A paciente quase não tem vontade de viver. Eu temo que—”

“Salvem ela.” Uma voz fria e familiar cortou o ambiente — Benjamin.

“Sr. Jones, isso—”

“Eu disse pra salvar.” A voz de Benjamin carregava a autoridade implacável de quem está acostumado a mandar. Ele foi até a beira da cama, se inclinou bem perto e falou baixo no ouvido de Jessica, cada palavra clara e deliberada: “Jessica, escuta bem. Sua mãe pode estar fora de si, mas ainda está na clínica de cuidados da família Martinez.”

Os cílios de Jessica tremeram violentamente.

“Se você se atrever a morrer, eu vou parar a medicação dela na mesma hora e encerrar o tratamento.” Benjamin disse isso com calma, a voz mais fria do que uma lâmina. “Vou deixar ela sofrer, consciente, definhando como um cachorro abandonado naquele quarto imundo de hospital.”

A respiração de Jessica ficou irregular, cada inspiração trêmula e desigual. Uma única lágrima turva escorreu do canto do olho bem fechado, traçando um caminho silencioso pela bochecha.

“Se você não quer que ela morra, então você vive.” Benjamin se endireitou, a voz gelada se dirigindo ao médico. “Usem os melhores medicamentos disponíveis. Não poupem despesas. Eu preciso dela viva.”

A equipe médica entrou em ação.

Estimulantes cardíacos, antibióticos de primeira linha, suporte nutricional, depuração do sangue... toda intervenção possível foi acionada imediatamente.

O corpo de Jessica era como um fole quebrado, lutando para puxar ar, agarrado a um fio frágil de vida sob o ataque implacável de medicamentos potentes.

Ela não podia se dar ao luxo de morrer.

A mãe dela ainda estava nas mãos deles — aquela mulher meio louca que, em momentos raros, tinha lhe oferecido algum calor, embora sempre temperado com veneno e mentiras.

E, ainda assim, era a mãe dela — o último fio frágil que prendia Jessica a um mundo frio e indiferente.

O ódio subiu pelas veias como uma toxina fatal, mas também virou o estimulante mais feroz para o coração vacilante dela, obrigando-a a se agarrar à vida apesar de tudo.

Movida pela força implacável dos remédios e pelo fogo ardente do seu ódio, a infecção de Jessica foi, contra todas as probabilidades, controlada; a febre foi baixando aos poucos.

Ela ainda estava fraca como uma vela tremendo ao vento, mas aquele fio fino de vida — contra todas as probabilidades — resistiu.

Benjamin ficou do lado de fora da janela de observação da sala médica, observando a mulher lá dentro — esquelética, atravessada por tubos — com uma expressão indecifrável.

Ele não sabia por que o peito tinha virado um vazio quando o médico disse que ela talvez não sobrevivesse. Não entendia por que tinha recorrido a um método tão desprezível para forçá-la a continuar viva.

Ele só sabia de uma coisa: ela não podia morrer. Não agora.

Jessica finalmente abriu os olhos num breve momento de lucidez.

Samuel Harris, o médico responsável pelos curativos diários dela, entrou carregando não só o seu kit médico, mas também um buquê de lírios brancos, elegantemente embrulhado.

Ele colocou as flores na mesinha ao lado da cama e começou a trocar os curativos.

— Srta. Martinez, na verdade eu venho observando você há bastante tempo. Eu sei o quanto você é maltratada aqui — o tom de Samuel tinha um quê de sedução insistente. — Eu posso te ajudar.

Ele estendeu a mão para segurar a dela, onde repousava ao lado do corpo. — Fica comigo, e eu vou cuidar de você.

Jessica puxou a mão de volta num solavanco; o movimento repentino piorou a dor dos ferimentos e fez a testa dela se franzir.

A mão de Samuel parou no ar. A expressão dele escureceu. — Você acha que é boa demais pra mim? Quem mais ia te querer agora?

Jessica olhou para ele, com um sorriso de deboche nos lábios. — Dr. Harris, o que exatamente a Harper te ofereceu pra você encenar esse teatrinho?

O rosto de Samuel ficou vermelho de raiva. Ele puxou o cobertor com violência e pressionou com força os ferimentos de Jessica. — Quem te deu permissão pra difamar a Harper?

A dor brutal arrancou um gemido baixo e involuntário da garganta de Jessica, ecoando a intensidade do sofrimento dela.

Nesse instante, a porta se escancarou.

A silhueta de Benjamin ocupou a entrada, com o rosto sombrio como uma tempestade se formando. — Que porra é essa aqui?

Samuel recuou num tranco e caiu de joelhos na hora. — Me desculpe, Sr. Jones! A culpa é toda minha! Por favor, não responsabilize a Srta. Martinez — ela estava tão sozinha que pediu pra eu fazer companhia pra ela...

O olhar de Benjamin ficou glacial, cravando em Jessica como se pudesse dissecá-la só com os olhos.

Jessica sustentou o olhar dele, o rosto vazio, sem nem se dar ao trabalho de se defender.

Benjamin foi devagar até a beira da cama e olhou para baixo. — O que ele disse é verdade?

Os lábios de Jessica se curvaram de leve. — Faz diferença o que eu diga?

Aquela única frase acendeu a fúria que Benjamin vinha segurando.

Ele pegou uma garrafa ainda lacrada de álcool hospitalar de alta concentração da bandeja ao lado.

— Não! Sr. Jones! Não! A Srta. Martinez ainda tem feridas abertas! — Samuel gritou, horrorizado, avançando por instinto para impedir. — A culpa é minha! Me puna! Não machuque ela!

Aquele gesto de proteção só confirmou o caso na cabeça de Benjamin.

Os olhos dele brilharam com uma intenção letal. Ele chutou Samuel para o lado com brutalidade.

Então ele girou a tampa, abriu a garrafa e, sem hesitar, despejou o álcool diretamente sobre o corpo imobilizado de Jessica.

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