Capítulo 1

A agonia da carne sendo dilacerada ainda ardia na minha memória.

Mas eu tinha renascido.

Com as mãos tremendo, toquei o rosto no espelho. Inteiro, sem marcas. Aquilo era real?

Poucos instantes antes, eu estava lutando na beira da morte, e agora estava num corpo de dezoito anos. Tudo parecia surreal demais.

A alcateia inteira ainda achava que eu era aquela Elena ingênua, vivendo para sempre à sombra da minha irmã puro-sangue, Sarah. Eles não sabiam que eu tinha visto a verdade mais sombria.

A porta se escancarou de repente, e Sarah entrou carregando uma xícara de chá quente.

— Elena, não se estressa. — A voz dela trazia um ar de superioridade. — Dada a sua... situação, a Deusa da Lua seria mais compreensiva.

Ao ver o sorriso impecável dela, quase me deu enjoo. Esse rosto, essa expressão — eu já tinha visto isso incontáveis vezes na minha vida passada.

— Sobre companheiros predestinados e tudo mais... — Sarah acariciou meu ombro com delicadeza. — Não é algo que você seja obrigada a seguir. Se você achar o Alfa Lucas mandão demais, escolher um Alfa mais gentil também é uma boa opção. Eu vou ficar do seu lado de qualquer jeito.

Ficar do meu lado? Quase dei risada.

Na minha vida passada, eu tinha sido cegada justamente por essas palavras. Eu tinha deixado outras oportunidades de lado e escolhido o meu companheiro predestinado, o Alfa Lucas, só para virar uma ferramenta — um disfarce para os sentimentos verdadeiros dele.

A verdade só veio à tona na festa de aniversário da Sarah. Quando as garras dos lobos renegados miraram nela, aquele homem que dizia me amar havia anos não hesitou em me empurrar em direção à alcateia.

Enquanto eu desabava numa poça do meu próprio sangue, com as garras abrindo cortes profundos na minha carne, eu vi Lucas amparando Sarah de forma protetora, enquanto ela agarrava a própria barriga em pânico.

— Salvem a Sarah! Rápido, salvem ela! A criança na barriga dela... — Lucas a levou às pressas para a enfermaria.

Ninguém deu atenção a mim, caída numa poça de sangue. Para todos, só a Sarah importava.

— A culpa é toda minha — Sarah disse, fraca. — Se eu não tivesse engravidado, a Elena não teria surtado de ciúme...

O quê? Ela realmente disse que eu tinha surtado de ciúme?

— Elena, me desculpa... Eu vou te compensar na próxima vida. — Lucas me lançou um último olhar, os olhos cheios de culpa.

Próxima vida?

Você me matou e ainda queria que eu te desse uma chance na próxima vida? Nem sonhando!


Quando abri os olhos de novo, eu tinha voltado ao dia da cerimônia de escolha do companheiro.

— Sarah, você é mesmo uma irmã tão boa pra mim. — Pousei a xícara de chá, observando a culpa passar pelos olhos dela. — Sempre tão atenciosa.

— Claro, somos irmãs. — O sorriso dela pareceu forçado. — Elena, você está falando estranho hoje. Você está se sentindo bem?

Claro que eu estava diferente. Eu já tinha morrido uma vez.

— Vamos, Sarah. — Eu ajeitei meu vestido cerimonial. — Vamos para essa... cerimônia de escolha.

O salão principal ardia em luz, com os membros da alcateia reunidos em suas vestes cerimoniais. Na plataforma elevada, minha madrasta, Luna Isabella, estava sentada com elegância no assento principal, com Lucas à esquerda dela e Kieran à direita.

Lucas parecia especialmente bonito naquela noite, o cabelo dourado brilhando à luz das velas. Kieran continuava o mesmo de sempre, frio, com os olhos negros sem revelar emoção alguma.

“Por decreto da Deusa da Lua, Elena e o Alfa Lucas, da Matilha Garra de Prata, são companheiros destinados.” A voz da mamãe ecoou pelo grande salão. “Mas, de acordo com a tradição, uma Luna tem o direito de escolher o próprio Alfa. Elena, você pode escolher aceitar o vínculo de companheiros destinados ou...” Ela olhou na direção de Kieran.

Kieran franziu a testa, o nojo cintilando nos olhos.

“...escolher o Alfa Kieran, da Matilha Stormridge.”

Todos os olhares se voltaram para mim. Sarah mordeu o lábio inferior, nervosa; os olhos de Lucas oscilaram com emoções complexas, enquanto Kieran permanecia friamente indiferente.

Caminhei devagar até a frente do estrado. “Pessoal”, minha voz soou clara por todo o salão, “eu agradeço à Sarah pelo conselho de mais cedo. Já que ela acha que o Alfa Kieran é mais adequado pra mim...”

O rosto de Sarah ficou instantaneamente pálido, como se tivesse perdido todo o sangue.

“Portanto, eu rejeito o vínculo de companheiros destinados e escolho Kieran como meu Alfa.”

O salão explodiu na mesma hora em conversas ruidosas.

“Elena!” A voz de Sarah tremeu. “Você sabe muito bem que eu e o Kieran...”

“Sabe o quê?” Inclinei a cabeça, fingindo inocência. “Você não acabou de me dizer pra eu escolher livremente?”

Lucas se levantou de repente, o choque e... a cautela brilhando nos olhos. “Elena, o que exatamente você está pensando?”

TAPA!

Um tapa estalado acertou meu rosto. Isabella tremia de raiva: “O que você acha que é essa cerimônia? Agir desse jeito, tão teimosa, na frente de todas as matilhas — você quer transformar a Matilha Ravenspire em motivo de piada?”

“Olha quantas lágrimas a Sarah derramou por você, e você ainda quer machucar ela assim?”

Cobri a bochecha ardendo, mas sorri ainda mais: “A senhora não acabou de dizer que eu tinha liberdade de escolher? Então como é que, quando eu escolhi, de repente isso virou motivo de piada pra matilha?”

“Elena, por favor, não faz isso...” Sarah chorou, com um ar de coitada. “Eu só queria te ver feliz...”

Bem quando toda a atenção se prendeu à nossa discussão, Lucas tomou uma decisão que chocou o salão inteiro.

Ele foi direto até Isabella: “Luna Isabella, eu gostaria de fazer uma proposta. Estou disposto a transferir para a Matilha Ravenspire os direitos de exploração de três minas de prata controladas pela Matilha Garra de Prata, em troca.”

O ar pareceu congelar.

“A condição é”, Lucas olhou com ternura para a Sarah, que chorava, “eu quero que a Sarah se torne minha Luna.”

Meu coração despencou.

Não, isso estava errado. Na minha vida passada, ele tinha mantido a fachada de devoto por anos, só mostrando a verdadeira natureza no fim. Ele nunca abandonaria a encenação de um jeito tão direto — a menos que soubesse que fingir já não fazia mais sentido.

O que poderia causar uma mudança tão drástica?

Nossos olhos se encontraram, e emoções complexas passaram pelo olhar dele antes de ele desviar rápido.

Aquelas emoções... tinha algo familiar ali, algo que não deveria existir.

Será que... ele também tinha renascido?

Ao ouvir “direitos de exploração de três minas de prata”, os olhos de Isabella brilharam na hora. Aquilo representava uma fortuna enorme, o suficiente para a família dominar esse território.

“Isso...” o tom dela suavizou visivelmente. “Alfa Lucas, sua devoção à Sarah é realmente tocante...”

Sarah pareceu “comovida” além das palavras: “Lucas... por mim, você...”

Mas, no instante seguinte, o Alfa Kieran, que permanecera em silêncio, finalmente falou.

Ele se levantou devagar, o rosto exibindo um sorriso de deboche: “Calma aí. Vocês parecem ter esquecido de perguntar a minha opinião.”

“Elena, você acha que eu iria querer um lixo como você?” O olhar dele varreu na minha direção, cheio de desprezo. “Uma meio-sangue miserável ousa sonhar em virar minha Luna? Ridículo! Patético!”

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