Capítulo 2
O insulto de Kieran deixou o salão inteiro num silêncio sepulcral.
Eu devia chorar, devia implorar por misericórdia, devia aguentar tudo como aguentei na minha vida passada.
Mas eu, renascida, só queria rir.
— Linhagem impura? Já que, pelo visto, eu não sou digna de ninguém... — varri o salão com o olhar. — Então por que vocês dois não dividem a Sarah? Afinal, um Alfa só talvez não seja o suficiente pra divertir ela.
O salão explodiu na mesma hora.
O rosto de Lucas ficou pálido, sem cor:
— Elena, o que você está dizendo?!
Os olhos de Kieran arderam de fúria:
— Como você se atreve a insultar a Sarah desse jeito?
Os dois Alfas avançaram na minha direção ao mesmo tempo.
Mas então Sarah os segurou com delicadeza.
— Não... não fiquem com raiva da Elena. Ela só está falando no impulso. Afinal, foi a Elena que salvou vocês na floresta, dez anos atrás...
Se ela não tivesse tocado no assunto, aquela lembrança distorcida quase teria ficado enterrada.
A verdade era que, dez anos antes, quando Kieran e eu ainda éramos apaixonados desde crianças, nós fomos atacados por lobisomens renegados enquanto brincávamos na floresta da fronteira.
Aqueles renegados, cruéis, queriam despedaçar Kieran. Eu, desesperada, usei o meu próprio corpo como escudo, e de propósito cortei o pulso para sangrar e puxar a atenção da alcateia para longe dele.
Eu acabei gravemente ferida e desmaiei, enquanto Kieran conseguiu escapar. Sarah só chegou depois.
Só que, quando eu acordei, todo mundo dizia que tinha sido a Sarah quem salvou Kieran, e que eu só tinha “atrapalhado”.
Pior ainda: disseram que, quando eu sangrei, eu fui “corrompida” pela essência contaminada dos renegados, e que minha linhagem deixara de ser pura a partir daquele momento.
Kieran me lançou um olhar cheio de ódio:
— Elena, para de falar de dez anos atrás! Se você não tivesse agido como uma irresponsável e sido corrompida por aqueles renegados, eu nem teria precisado ser salvo!
— Foi a Sarah que percebeu sua corrupção a tempo e purificou a essência contaminada do lugar — Lucas pegou o embalo. — A Elena vive usando esse suposto “ato de salvar uma vida” pra jogar culpa em cima da gente, mas não admite que quase fez o Kieran morrer!
Um traço de triunfo apareceu no rosto de Sarah, mas ela logo disfarçou; as lágrimas e os soluços voltaram a entrar em cena.
— Não... não culpem a Elena por minha causa. Não era algo que ela pudesse controlar...
Ouvindo essas acusações que transformavam o preto em branco, a fúria queimou no meu peito.
Na minha vida passada... eu realmente tinha me sentido culpada por essas mentiras?
Kieran então disse, frio:
— Elena, você devia ser grata por a Sarah estar disposta a encobrir a corrupção da sua linhagem. Se não fosse por isso, você já teria sido expulsa da alcateia há muito tempo.
— Exatamente — Lucas concordou. — Você devia aprender a ser grata em vez de causar confusão aqui. A Sarah salvou sua reputação, e você fica provocando ela.
— Se a Elena se comportar, a gente ainda está disposta a manter ela — os olhos de Sarah brilharam com triunfo. — Afinal, deixar uma Luna desonrada vagar pelo mato faria outras alcateias rirem da gente por sermos sem coração...
Ao ouvir isso, eu não aguentei mais.
Ela virou minha salvadora? A corrupção da linhagem era culpa minha? E eu ainda tinha que agradecer?
— E se eu disser que eu não tô nem aí pra nada disso? — eu me levantei devagar, com uma calma assustadora na voz.
Lucas e Kieran me encararam, com desprezo nos olhos.
Isabella bateu na mesa, furiosa:
— Sua linhagem já está manchada! Como você tem coragem de ser tão arrogante aqui?
Eu sustentei o olhar dela, sem vacilar:
— Então eu vou provar que a minha linhagem é mais pura do que a de qualquer um aqui. Eu vou pro Território do Norte encarar a prova ancestral da linhagem de Luna.
As memórias me inundaram — na minha vida passada, eu fui trancada no porão por causa da minha linhagem “corrompida” e, todos os dias, me aplicavam injeções dos tais “soros de purificação”, enquanto Sarah roubava tudo o que era meu...
Agora, vivendo de novo, eu nunca mais seria presa a essas mentiras.
Lucas tentou agarrar meu braço. De repente, um poder intenso explodiu do meu corpo e o lançou para trás, fazendo Lucas cambalear vários passos.
— Já que vocês todos acham que tem alguma coisa errada com a minha linhagem, então me deixem ir provar... quem exatamente está mentindo.
Três meses depois, nas montanhas nevadas do Território do Norte.
Eu rompi todos os vínculos de alcateia com Ravenspire, cortando completamente qualquer ligação com o passado.
Com o “consentimento” relutante de Isabella, eu vim aos terrenos sagrados da antiga alcateia das Terras Desoladas do Norte. Ela achava que eu ia fracassar na prova da Deusa Lua e morrer com o contragolpe do antigo poder lunar.
Ela estava errada.
Quando entrei no santuário da Deusa da Lua e aceitei a prova sagrada da antiga herança de Luna, a montanha inteira estremeceu sob a luz do luar.
—Luna Elena —o sacerdote da Deusa da Lua ajoelhou-se com reverência, a voz trêmula—, a Deusa da Lua concedeu a bênção divina! Você recebeu a mais alta marca sagrada em mil anos —o Selo da Lua de Prata!
E não foi só isso: eles descobriram uma verdade estarrecedora.
—Na sua linhagem foram implantadas marcas de maldição artificialmente, mas, sob a proteção da Deusa da Lua, elas foram completamente purificadas. Só alguém com...
—Só uma devoção absoluta à Deusa da Lua e um espírito puro durante o despertar da linhagem conseguiria isso —completei, com calma.
No fim, a fúria e o despertar da minha renascença tinham, de fato, me rendido o favor da Deusa da Lua, ajudando-me a purificar a maldição implantada em Sarah.
Nesse instante, o pingente de pedra da lua que fazia parte das coisas da minha mãe ficou quente contra o meu peito. A voz de Isabella ecoou de dentro dele:
—Elena! Volte imediatamente! O rito memorial da sua mãe está chegando! Como filha dela, como você se atreve a não voltar?
O rito memorial da minha mãe... era uma corrente emocional que eu não conseguia recusar.
Sorri com frieza. Eu já imaginava que usariam isso para me chamar de volta.
—Eu vou voltar —respondi, sem emoção.
Já que estavam tão desesperados para me trazer de volta, eu queria ver que jogo, de verdade, eles estavam armando.
Sob a lua cheia, eu mal tinha tomado meu lugar diante do altar cerimonial quando vozes conhecidas soaram atrás de mim.
—Elena, você finalmente voltou —Sarah sorriu com doçura, mas um lampejo de inveja passou pelos olhos dela. —Ouvi dizer que você passou por maus bocados na sua prova no Território do Norte?
—Afinal, a prova da Deusa da Lua é tão perigosa. Conseguir voltar viva já é algo impressionante —a voz dela escorria de falsa preocupação. —Isabella disse que, como sua linhagem ainda tem problemas, ela vai deixar eu continuar o tratamento de purificação em você.
Ignorei o que ela disse e ergui friamente a mão esquerda.
O Selo da Lua de Prata brilhou ao luar, e o poder sagrado dele preencheu todo o espaço num instante.
—O que é isso? —o rosto de Sarah ficou lívido.
—O Selo da Lua de Prata concedido diretamente pela Deusa da Lua —falei com calma. —A marca sagrada mais alta em mil anos. Prova da mais pura linhagem de Luna.
—Impossível! —Sarah gritou, histérica. —Sua linhagem estava corrompida! Como você poderia... Isso tem que ser falso!
—Ainda quer continuar mentindo? —sorri, gelada. —O poder da Deusa da Lua também revelou outra verdade: na minha linhagem foram implantadas marcas de maldição artificialmente. Sarah, você sabe de alguma coisa sobre isso?
Sarah tremeu da cabeça aos pés.
—Eu... como eu poderia saber! Eu sempre estive ajudando você a purificar isso!
—É mesmo? Então por que você está tão apavorada? —dei um passo à frente. —Porque, se a verdade aparecer, você não vai mais conseguir roubar a minha linhagem?
Sarah encarou meus olhos determinados e entendeu que as mentiras dela tinham sido completamente desmascaradas.
O rosto dela se contorceu, e uma loucura cintilou no olhar.
—Elena! Mesmo que você tenha conseguido essa maldita marca, eu não vou desistir! Eu vou agora mesmo provar que sou mais digna do reconhecimento da Deusa da Lua do que você!
—Eu vou até as ruínas da Deusa da Lua na Floresta Proibida! Esse é o verdadeiro teste da herança de Luna!
Ela disparou do altar em desespero, correndo feito louca em direção à Floresta Proibida, na fronteira da alcateia.
Eu não a impedi; só observei, fria, enquanto ela sumia na noite.
A Floresta Proibida... aquele lugar era realmente perigoso, mas já não tinha mais nada a ver comigo. Eu estava prestes a deixar aquele lugar para sempre.
Bem cedo na manhã seguinte, eu estava arrumando minhas coisas para deixar a alcateia de vez.
De repente, Lucas e Kieran invadiram o meu quarto.
—Elena! —o rosto de Lucas estava branco de pânico. —Sarah não voltou ontem à noite! De manhã, a nossa patrulha encontrou sinais de luta e o rastro do cheiro dela na beira da Floresta Proibida!
Então os olhos de Kieran arderam de raiva:
—A culpa é toda sua! Se você não tivesse pressionado ela, por que ela iria sozinha para um lugar tão perigoso?
Lucas também apontou para mim, furioso:
—Elena, venha com a gente resgatar a Sarah agora! Isso aconteceu por sua causa —você tem que assumir a responsabilidade!
—E nem pense em fugir! Até a Sarah voltar em segurança, você não vai a lugar nenhum!
