Capítulo 5

Ponto de Vista de Elodie

"Essa pequena humilhação não vai acabar com a vida dela. Ela está bem."

Essas palavras não saíam da minha cabeça. A voz de Calhoun… tão calma, tão certa, ecoava sem parar nos meus ouvidos. Não era a risada cruel de Carmela. Não eram os suspiros nem os sussurros dos convidados. Só ele. De novo e de novo, como uma faca girando no meu peito.

Minhas lágrimas não paravam, caíam livremente pelo meu rosto enquanto eu apertava contra o peito os pedaços rasgados do meu vestido, tentando em vão cobrir o que tinham arrancado de mim.

A multidão que tinha se reunido para ver a minha humilhação começou a se dispersar aos poucos. Tentei me levantar, mas meus joelhos cambalearam, meu corpo fraco e trêmulo.

E então uma jaqueta caiu bem no meu rosto. Piscando por entre as lágrimas, olhei para cima e vi o garçom que carregava a bandeja de prata de Carmela jogá-la na minha direção e ir embora sem dizer nada.

Sem pedido de desculpa. Sem reconhecimento. Nada. Só mais um lembrete de que eu era invisível, indigna até da menor gentileza.

Enrolei a jaqueta em mim, mas ela não impediu os tremores que percorriam meu corpo. Choque. Dor. Medo. Humilhação. Grudavam em mim como uma segunda pele, infiltrando-se nos meus ossos.

Lá fora, a chuva caía forte. Quando tropecei para a rua, parecia que até o céu queria me castigar. A água gelada encharcava a jaqueta, encharcava meus cabelos, escorria pelo meu rosto junto com as lágrimas. Eu já nem sentia mais frio. Só andava, vazia, entorpecida.

Eu estava quase chegando em um beco quando um carro buzinou ao meu lado. Congelei. O coração disparou. Virei devagar.

Era Calhoun.

Ele estava ao volante, me encarando com aquela intensidade de sempre. Fez sinal para eu entrar.

Uma onda de ódio e dor explodiu dentro de mim. Eu queria gritar, xingar, mandar ele ir para o inferno. Mas as palavras não saíram. Meu corpo mal respondia. Minha visão já estava escurecendo nas bordas.

Então eu o ignorei.

Continuei andando, os pés arrastando pelas poças d’água. A buzina tocou de novo, insistente. Depois veio a voz dele, cortando a chuva:

"Elodie! Entre no carro agora!"

Parei. Cada nervo do meu corpo gritou. Uma raiva quente e furiosa explodiu dentro de mim, queimando mais forte que a chuva gelada batendo na minha pele. No passado, eu teria entrado em pânico. Teria corrido até ele, ansiosa para agradar, desesperada para não aborrecê-lo. Mas não agora. Não depois de hoje.

Girei nos calcanhares lentamente, deixando a chuva escorrer pelo meu rosto enquanto eu o encarava, dando-lhe o olhar mais frio e vazio que consegui.

"Pra quê?" cuspi, minha voz tremendo de fúria e desespero. "Por que eu entraria no seu carro agora? Não perde seu tempo, Alfa Calhoun. Eu sou só uma Gama. Não tenho motivo algum pra estar no mesmo carro que você."

As palavras pairaram no ar, e eu me virei, avançando devagar, deixando cada passo me afastar mais dele, de tudo em que um dia acreditei. Eu não me importava com a expressão dele. Não me importava se ele vinha atrás.

Mas então ouvi a porta do carro bater, passos correndo na minha direção. Meu coração disparou em pânico, mas eu não olhei. Justo quando dei mais um passo, uma mão agarrou meu pulso com força e me puxou para trás. A dor explodiu no meu braço, e eu arfei, tropeçando.

O olhar dele era puro fogo, furioso e inflexível.

"Você não me ouviu quando eu pedi pra você entrar?" A voz dele saiu áspera. "Por que você tá tão irritada? Eu entendo, o dia foi péssimo. Mal-entendidos pra todo lado. Mas eu fiz o que precisava fazer! Eu não queria perder a Carmela de novo. Já perdi ela uma vez; nunca vou deixar isso acontecer de novo. Vou dar um jeito de compensar você, não se preocupa! Você não pode estragar tudo por causa desse mal-entendido bobo!"

As palavras dele me atingiram mais forte do que qualquer tapa. Arderam. Puxei meu pulso da mão dele, ignorando a dor aguda. Ri, mas foi um riso vazio, oco, amargo.

"Você já se olhou no espelho?" sussurrei, recuando, a voz quebrando de raiva e mágoa. "Não sentiu vergonha? Deixou sua companheira pra correr atrás de uma amante? Fica tranquilo, Alfa Calhoun. Eu sei qual é o meu lugar. Sou só a assistente. Nunca esperei mais que isso. Satisfeito? Agora posso ir?"

Algo nos olhos dele se partiu. Assassino. Furioso. Ele avançou, apontando pra mim, gritando, a voz tremendo com uma emoção que eu não consegui decifrar.

"Você sabe que não foi isso que eu quis dizer! Nunca menosprezei você! Fiz o que precisava lá fora pra acalmar a Carmela, senão teria sido um caos que eu jamais conseguiria controlar! E—"

As próximas palavras não chegaram até mim. Meu mundo virou, a chuva girando, a rua desaparecendo. A última coisa que ouvi antes de tudo escurecer foi ele chamando meu nome. Depois, dor. Depois, o asfalto frio e molhado contra meu corpo, cada parte de mim latejando.

A luz da manhã queimava meus olhos quando atravessou a janela. Fiz uma careta, tentando abri-los, até ser surpreendida por um bipe. Meus olhos se abriram de vez, e arfei.

E ali, ao meu lado, havia uma figura, os ombros tremendo enquanto chorava. Meu coração falhou uma batida.

"Elodie…" ela sussurrou, destruída, o rosto se desmanchando ao levantar a cabeça.

Era Mila.

Ela pulou da cadeira, desabando em lágrimas de novo. "Ah, meu amor, olha só pra você", ela choramingou, agarrando-se à grade da cama como se as pernas fossem fraquejar. "Achei que tinha perdido você. Você ficou inconsciente por mais de trinta e seis horas!"

Piscando, atordoada, quase certa de que estava alucinando, abri a boca. "Mila?" murmurei, a voz rouca, irreconhecível. "É você?"

Ela assentiu várias vezes, lágrimas escorrendo pelo rosto. "Sim. Sou eu. Sou eu de verdade."

Foi o suficiente.

A barreira que eu vinha tentando manter se quebrou. Desabei a chorar, soluços rasgando meu peito com tanta força que cada costela doía. A dor atravessava meu corpo a cada respiração, mas eu não conseguia parar. Mila se inclinou sobre mim, me envolvendo no abraço mais delicado, seus lábios tocando minha testa úmida várias vezes enquanto me embalava.

"Shh… eu tô aqui", ela sussurrou por entre os próprios soluços. "Tô aqui, meu amor. Você tá segura agora. Tá segura."

"Eu soube do que aconteceu no momento em que pousei de volta na Alcateia", ela murmurou, a voz falhando. "Elodie… Calhoun tá impossível! Deixa aquela garota falsa enrolar ele todinho, cego pro que é real e pro que é só porcaria barata."

Forcei um sorriso, embora parecesse que eu estava abrindo um machucado à força.

"Eu tô bem", menti, as palavras amargas como cinza na língua. Meus lábios tremiam. "Eu… eu vou ficar bem."

Meu sorriso se quebrou, minha voz falhou. "Nosso relacionamento agora é estritamente profissional. Quanto a nós… não tem nada. Acabou."

"Ah, Elodie…" ela sussurrou.

Então o tom dela mudou.

"Tá bom então", ela disse com um bufar. "Se você terminou com ele, bora pro próximo. Olha pra você, ferida mas ainda linda. Essa sua bunda arredondada? Alfa nenhum ia resistir. Tudo que você precisa é mostrar pro mundo que tá solteira, sem companheiro, e pronto, olha a mágica acontecer. Tô falando sério, Elodie, vou arrumar alguém pra você. Fica tranquila. Vai que seu companheiro tá bem aqui por perto."

Um sorriso pequeno, involuntário, puxou o canto da minha boca com a bobagem dela — só por um segundo. Mas o barulho da porta da enfermaria escancarando arrancou isso de mim.

Calhoun entrou como uma tempestade, os olhos assassinos, a presença dele engolindo todo o ar da sala. Meu fôlego travou, mas mantive a expressão neutra, mesmo quando o olhar dele se fixou em Mila com veneno suficiente pra queimá-la. Ela não recuou. Só devolveu o olhar, dura.

A voz dele saiu baixa, mas trovejante. "O que você acabou de dizer? Você não vai arrumar homem nenhum pra ela. Aqueles caras não são dignos nem de respirar perto dela. Só querem transar com ela e depois descartá-la pelas verdadeiras companheiras deles. Elodie é minha responsabilidade, e eu não vou permitir que seja jogada pros lobos que vão usar e jogar fora."

Mila bufou, recostando-se no sofá como se a fúria dele não fosse nada.

“Cara, por favor. Relaxa. Ainda existem homens decentes por aí. Ela só precisa sair, conhecer gente nova e, quem sabe… encontrar o companheiro dela. O destino funciona de jeitos misteriosos. E além disso… por que você se importa? Que diferença faz com quem ela fica? Nem todo mundo é como você, Calhoun. Nem todo mundo brinca com os sentimentos de duas mulheres ao mesmo tempo. Cego que nem um morcego, sem nenhum gosto de verdade pra escolher parceira."

Uma veia saltou na têmpora dele, o maxilar travando tão forte que parecia doer. A voz dele estalou. "Nem pense. Nunca tente forçá-la a ter sentimentos vazios por esses homens. Se fizer isso, Mila… vai se ver comigo."

Antes que Mila respondesse, eu me meti. "Alfa Calhoun, precisava de alguma coisa? Não liga pra Mila… ela tá só brincando."

"Não tô brincando", Mila murmurou ao meu lado, teimosa.

Mas ele a ignorou completamente. Os olhos dele voltaram pra mim, indecifráveis. Ele abriu a boca, mas parou, engolindo o que queria dizer. Quando finalmente falou, o tom saiu seco. "Vim garantir que Mila volte pra casa da família dela em segurança. E… pra ver como você está."

Forcei um sorriso amargo e assenti de leve. "Obrigada."

Mila se moveu rápido, quase me protegendo. Ela colocou a mão no peito dele e o empurrou, suave mas firme, em direção à porta. "Pronto, hora de ir. Elodie precisa descansar, não de mais drama."

Ele resistiu no começo, relutante, o olhar ainda preso em mim como se quisesse memorizar cada detalhe. Mas por fim, deixou-se conduzir. Mila bateu a porta atrás dele com mais força do que precisava, deixando o silêncio engrossar de novo.

Quando voltou pra perto de mim, ela suspirou, os olhos suavizando. "Não liga pra ele, El. Eu sei que ele parece frio, até cruel às vezes, mas lá no fundo? Aquele homem realmente se importa com você. Mais do que ele quer admitir."

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