Capítulo 1 O julgamento humano
"Rufus, por favor... me dê alguma coisa para a dor. Eu não aguento mais."
O rosto de Cecilia Thorne perdeu a cor ao olhar para o homem à sua frente — Rufus Chapman, impecavelmente composto, com uma expressão esculpida em gelo. A voz dela tremia de desespero.
Seu corpo estava no limite.
Ela não sabia se era por testar a medicação de Blair Ember por tempo demais ou se as combinações recentes estavam entrando em conflito em seu organismo. Desta vez, a dor estava pior do que nunca — como milhares de dentes minúsculos e impiedosos roendo seus ossos.
Os lábios de Rufus se curvaram lentamente, mas seus olhos continuaram frios. "Você quer alívio? Eu vou te dar."
A esperança brilhou nos olhos de Cecilia.
Mas, no instante seguinte, Rufus puxou o casaco dela e a empurrou na cama, seu corpo prendendo-a contra o colchão.
Suas pupilas se contraíram. Ela lutou para empurrá-lo. "Rufus, eu estou sentindo muita dor. Eu não quero fazer isso... por favor, me solte."
Todos os dias, ela ingeria inúmeros medicamentos experimentais, em busca de um que funcionasse melhor para Blair com o menor dano possível. Os testes prolongados haviam deixado seu corpo em ruínas.
Mas Rufus nunca entendeu o conceito de misericórdia. Na cama, ele era implacável — mudando de posição, forçando-a até além da exaustão.
Para ela, a intimidade havia se tornado uma forma de punição.
Suas forças haviam acabado. Mesmo quando ela colocava tudo o que tinha para resistir, para ele não era nada — como afastar uma pena.
Seus pulsos finos pressionavam fracamente contra o peito dele, um gesto que parecia menos um desafio e mais uma provocação sem vontade.
Ele segurou as mãos dela com facilidade, prendendo-as acima da cabeça dela, com um olhar glacial.
"Pare de fingir. Sua boca diz não, mas seu corpo é sempre honesto. Quando você se casou comigo e me dopou para me seduzir, não era exatamente isso que você queria?"
Seus olhos se voltaram para o frasco de comprimidos vazio na mesa de cabeceira — o novo lote que ela já havia engolido.
"Lembra do sistema de recompensas de que te falei? Toda vez que você toma o remédio, eu te recompenso."
Lágrimas brotaram em seus olhos, embaçando as bordas de sua visão. Ela não sabia se vinham da dor... ou da humilhação.
"Eu não..." ela começou.
Mas suas palavras foram engolidas pelo beijo dele — duro, inflexível, deixando-a sem fôlego.
A lágrima presa no canto de seu olho finalmente escorreu.
Quando acabou, ela ficou mole contra os lençóis, sentindo como se já tivesse morrido uma vez. A dor em seu corpo não era nada comparada à dor em seu peito.
Ela havia dado a Rufus tudo o que tinha, amado-o sem restrições... e era isso que recebia em troca. Nem mesmo um pingo de respeito.
O som da água corrente parou.
Rufus saiu do banheiro, abriu a gaveta da mesa de cabeceira e tirou duas pílulas brancas. Ele as estendeu para ela. "Tome."
Amargura e tristeza apertaram sua garganta. Seus lábios tremeram. "Podemos pular isso hoje? Eu prometo que não vou engravidar... Eu já estou sentindo muita dor."
Ela suspeitava que as drogas experimentais estavam reagindo mal com os anticoncepcionais. Toda vez que as tomava, parecia que lâminas invisíveis se contorciam em seu abdômen.
Era uma agonia insuportável.
O olhar de Rufus se aguçou, frio como uma lâmina. "Planejando engravidar para poder parar de fazer os testes para Blair?"
Se Cecilia carregasse um filho, ela não poderia continuar os testes.
Seus olhos se demoraram no frasco de comprimidos. Lentamente, ela se endireitou e engoliu as pílulas.
Pelo bem dos testes, cada dose do anticoncepcional era administrada pelo próprio Rufus. Era um dos raros momentos em que ele a tratava com algo parecido com gentileza.
Ela achou que a dor seria a mesma de antes — uma questão de ranger os dentes e esperar passar. Mas ela subestimou a força do medicamento.
A agonia a atingiu como uma onda gigante, dilacerando seu corpo. Ela cambaleou até o banheiro e, desta vez, o que vomitou não foi bile... foi sangue.
Ela desabou no chão, agarrando o abdômen, a dor partindo-a ao meio.
Quando ela finalmente conseguiu se levantar e voltar para o quarto, os olhos de Rufus encontraram os dela — frios, indecifráveis.
A porta se abriu. O Dr. Lyle Warner entrou. "Sr. Chapman."
"Colha o sangue dela", ordenou Rufus, com um tom inexpressivo.
O corpo de Cecília estremeceu.
Fazia parte de sua rotina diária. Rufus se recusava a usar o sangue de Blair para os exames, então usava o dela em vez disso.
Ela observou a agulha deslizar para dentro de sua veia, o vermelho escuro derramando-se no frasco — um reflexo de sua própria vida se esvaindo.
A perda de sangue a deixou pálida, com a cabeça girando. Ela mordeu a parte interna da bochecha, forçando-se a permanecer consciente, com o olhar fixo em Rufus.
"Rufus."
Hoje era seu aniversário.
E, naquela manhã, ela havia descoberto que tinha três meses de vida. Se continuasse com os testes, esse tempo se reduziria a um mês.
Ela queria pedir a ele — implorar a ele — que passasse esses três meses com ela. Depois de todo o sangue que havia dado, todos os comprimidos que havia engolido... ele poderia lhe dar pelo menos isso?
Ele virou a cabeça para ela. "O que foi?"
"Eu só...", ela começou.
Mas o toque estridente do celular dele a interrompeu.
Ela não conseguia ver o identificador de chamadas, mas não precisava. A expressão dele se suavizou instantaneamente, e ela soube.
Blair — apenas Blair conseguia derreter o gelo nos olhos de Rufus.
"Não está se sentindo bem? Já estou indo", disse ele, com a voz suave — um abismo de distância da forma como falava com Cecília.
Ele desligou, saiu sem hesitar e não lhe dirigiu um único olhar.
Cecília abaixou a cabeça, a tristeza turvando seus olhos.
Ninguém se lembrava de que era seu aniversário.
Rufus não tivera nem mesmo a paciência de ouvi-la até o fim.
Após a coleta de sangue, ela mergulhou na inconsciência. Quando acordou, já era o dia seguinte.
Seu celular tocava sem parar. O identificador de chamadas mostrava: Brad Ember.
Brad era seu pai biológico, mas, como uma filha ilegítima, ela nunca havia pertencido de verdade à família Ember.
Ela atendeu. A voz de Brad soou, ríspida e autoritária. "Cecília, Blair quer você na festa de aniversário dela. Venha agora."
Ela apertou o celular com mais força. Elas dividiam o mesmo pai. Seus aniversários tinham apenas um dia de diferença.
Mas seus mundos não poderiam ser mais diferentes.
"Eu entendo", disse ela.
Depois de desligar, ela escolheu um casaco pesado para esconder seus membros frágeis e as marcas deixadas por inúmeras agulhas.
Quando ela chegou à Mansão Ember, a festa estava prestes a começar.
Blair estava no centro do salão, coroada com uma tiara exclusiva, cercada pela adoração da família Ember. Seu vestido era feito sob medida, cada detalhe perfeito.
Rufus se aproximou, segurando uma caixa de joias. "Feliz aniversário, Blair."
Os olhos dela brilharam. "É a pulseira que eu sempre quis! Rufus, você é tão bom para mim."
De seu lugar nas sombras, Cecília sentiu a dor em seu peito se intensificar... e seus olhos arderem.
