Capítulo 10 Mal-entendido

Verdade seja dita, Cecilia nunca imaginou que engolir seu orgulho não lhe renderia nada além do desprezo de Rufus.

Ela permaneceu em silêncio até que ele saísse do quarto. 

Só então ela finalmente entendeu: mesmo que tivesse se despedaçado bem na frente de alguém que não se importava com ela, a pessoa ainda acharia que ela estava fazendo cena.

Depois de todos os anos juntos, Rufus deveria ser quem a conhecia melhor. No entanto, ele escolheu distorcer as palavras dela, destruindo cada pedaço de esperança que lhe restava.

Mas a vida não parava por causa de um coração partido.

Cecilia discou um número para o qual não ligava há anos. A linha chamou por três segundos antes que uma voz masculina e calorosa atendesse.

"O que foi, Cecilia?" O tom de Leroy era gentil, como a luz do sol rompendo as nuvens. Seus pensamentos inquietos se acalmaram, mesmo que apenas um pouco.

A tensão em seu peito diminuiu. "Leroy, preciso que você me ajude a vender os quadros que minha mãe deixou."

"O que aconteceu?" A voz de Leroy Hamilton ficou mais tensa. 

Ele sabia que aqueles quadros não eram apenas arte — eram heranças de família com história. Se Cecilia estava disposta a se desfazer deles, ela devia ter chegado a um ponto de desespero.

Ela não deu detalhes, apenas pediu que ele lhe concedesse esse favor.

Houve uma longa pausa. Então Leroy disse: "Eu faço isso. Mas, em troca, preciso que você concorde com uma coisa."

Não era um pedido absurdo, e ela concordou sem hesitar. Ela já havia feito as contas: vendendo os quadros, dando vinte por cento a Leroy, o restante cobriria as despesas médicas de Patrick por um bom tempo.

Mas Leroy não queria dinheiro. "Onde você está agora, Cecilia? Eu quero te ver."

No hospital, Leroy congelou ao vê-la. Na última vez em que se encontraram, ela estava com uma beca de formatura, o rosto iluminado por confiança e sonhos. Agora ela parecia frágil, engolida pelas dobras largas de uma camisola de hospital. Seus olhos... vazios.

Ela forçou um sorriso. "Obrigada, Leroy. Por ainda vir me ver."

Ele colocou as flores na mesa de cabeceira e sentou-se de frente para ela. "O que aconteceu depois da formatura? Que doença é essa? Me diga como posso ajudar."

Cecilia apenas balançou a cabeça com um sorriso fraco.

"Não há mais nada que você possa fazer. Apenas isso." Ela lhe entregou um papel dobrado. "Quando os quadros forem vendidos, tire a sua parte e envie o resto para esta conta."

Ela mesma deveria ter cuidado da venda, mas com sua saúde, não tinha certeza se duraria tempo suficiente. Era melhor deixar tudo arranjado agora.

Leroy assentiu. "Eu vou te ajudar. Não estaria aqui se não fosse por isso. Mas não vou cobrar comissão. Só preciso que você me diga a verdade."

A insistência dele a pegou de surpresa. Ela abriu a boca para responder — mas, de repente, seu nariz ardeu, e o sangue jorrou, quente e incontrolável.

Ela encarou o tom carmesim que manchava suas mãos e os lençóis, com a mente em branco.

Leroy agiu no mesmo instante, ajudando-a a se sentar e pressionando uma toalha úmida e morna na nuca dela. Em seguida, apertou o botão de chamada na parede.

Meia hora depois, o quarto estava calmo novamente. Lençóis limpos na cama, Cecilia no banho. Leroy aguardava do lado de fora, de braços cruzados, vigiando a porta.

Foi nesse momento que Rufus entrou. Seu olhar pousou em Leroy, que estava sentado na cadeira.

Achando que Cecilia havia saído do banheiro, Leroy falou sem levantar a cabeça, enquanto cortava uma maçã:

— Sente aqui um instante, Cecilia. Eu seco o seu cabelo.

— Quem é você? — a voz de Rufus soou fria, cortando o ar.

Cecilia saiu do banheiro, envolta pelo vapor do chuveiro. O olhar de Rufus alternou entre os dois, e então ele soltou uma risada seca.

— Parece que cheguei em uma péssima hora.

Ela conhecia aquele tom — estava carregado de acusação. Não se importava se ele interpretasse a situação de forma errada, mas não deixaria Leroy ser envolvido naquilo.

— Você entendeu errado. Ele estava um ano à minha frente na faculdade, Leroy Hamilton — ela disse rapidamente. Em seguida, virou-se para Leroy, apresentando Rufus: — Este é Rufus Chapman.

Os olhos de Rufus se estreitaram.

— Por que não diz a ele que sou seu marido?

Ele sempre evitou assumir o casamento deles, mas hoje havia tocado no assunto por conta própria.

Como ela não respondeu, Rufus a puxou para os seus braços.

— O que foi? Eu disse alguma mentira, Cecilia? — Sua voz soou baixa, imitando o tom que Leroy usara antes.

Percebendo o mal-entendido, Leroy tentou se explicar:

— Sr. Chapman, acho que o senhor está enganado. Cecilia e eu...

Rufus o interrompeu de forma ríspida:

— Estou falando com a minha esposa. O que isso te interessa?

Ele pressionou a língua contra o interior da bochecha, fervendo de irritação. Seu aperto se intensificou no pulso de Cecilia.

— Você está tão desesperada assim por um homem? Arranjando amantes em hospitais?

Ele se inclinou, a voz direcionada apenas para os ouvidos dela.

— Qual é o problema? Eu não sou o suficiente? Preciso te lembrar de quem estava chorando e implorando na cama?

As palavras foram obscenas, especialmente com outra pessoa no quarto. A expressão de Cecilia escureceu. Ela ergueu a mão para esbofeteá-lo, mas ele segurou seu pulso com facilidade.

— Já senti como é levar um tapa na cara, e não gostei nem um pouco. Não faça isso de novo.

Ele lançou um último aviso a Leroy:

— Não me importo com o que você é dela. Esta é a primeira vez que pego vocês dois juntos, e espero que seja a última. Você deve saber do que eu sou capaz.

Cecilia não o entendia. Ele agia como se a desprezasse, mas sua possessividade era feroz. Talvez fosse orgulho — Rufus não queria que uma mulher com quem ele havia dormido fosse tocada por mais ninguém.

Mas ela estava exausta. Cansada de ser desrespeitada e humilhada.

Ela estava prestes a falar quando Gia irrompeu no quarto, ofegante:

— A Srta. Ember acabou de desmaiar!

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