Capítulo 2 Calúnia

O sangue as unia como irmãs.

Blair era a garota que todos adoravam, aquela que a família carregava na palma da mão. Cecília, por outro lado, estava prestes a morrer... e não havia uma viva alma que se importasse.

O olhar de Blair de repente se voltou para ela. — Cecília, por que você está tão pálida? Rufus só está me dando um presente de aniversário, você não deveria ficar chateada com isso.

Suas palavras funcionaram como um holofote, atraindo todos os olhares do salão para Cecília.

— Então essa é a filhinha ilegítima e secreta da família Ember? E ela ainda teve a audácia de aparecer na festa de aniversário da Blair?

— Ouvi dizer que, se a Cecília não tivesse jogado sujo no passado, seria a Blair quem estaria casada com o Rufus agora.

— Tal mãe, tal filha, como dizem.

Os sussurros cortavam o ar. O rosto de Cecília ficou tenso. Sua voz saiu rouca: — Não estou chateada. — Como se ela tivesse o direito — ou a posição — de ficar.

Os olhos escuros de Rufus pousaram nela, vislumbrando um antebraço frágil que despontava debaixo de seu casaco largo demais. Parecia um graveto quebradiço que poderia se partir ao menor toque. Ela parecia ainda mais magra do que antes.

Brad lançou-lhe um olhar de advertência, a voz estalando como um chicote: — Estamos aqui para comemorar o aniversário da Blair. É para todo mundo estar de bom humor. Por que essa cara amarrada?

Cecília apertou os lábios. Era óbvio que ninguém ali a queria por perto. — Não estou me sentindo muito bem. Já vou indo.

Ela se virou para sair, mas Blair entrou em seu caminho, com os olhos brilhando de uma falsa inocência. — Cecília, você quer ir embora porque não gosta de mim? Hoje é o meu aniversário. Eu queria muito que você ficasse e me ajudasse a cortar o bolo.

Cecília cerrou os punhos ao lado do corpo. Seu olhar pousou no imponente bolo de sete andares — deslumbrante, perfeitamente confeitado. Ninguém nunca havia lhe dado uma festa de aniversário... muito menos algo tão extravagante.

O cenho levemente franzido e o olhar sombrio de Rufus fizeram a recusa morrer em sua garganta. No fim, ela assentiu com relutância. — Tudo bem.

O sorriso de Blair se abriu na mesma hora. Ela segurou a mão de Cecília como se fossem verdadeiras irmãs. Mas, assim que chegaram à mesa do bolo, o caos se instalou.

Blair cambaleou para a frente, o corpo caindo direto em cima do bolo. Em um instante, o imponente doce desabou, espatifando-se no chão e arrastando Blair junto com ele.

A atmosfera elegante e festiva foi completamente arruinada.

— Blair! — Rufus correu para a frente, puxando-a do meio dos destroços.

Blair tremia nos braços dele, com os olhos marejados enquanto olhava para Cecília, incrédula. — Por que você me deu uma rasteira?

Cecília paralisou, a confusão estampada no rosto. — Quando foi que eu te dei uma rasteira?

Elas tinham caminhado lado a lado o tempo todo. Cecília sequer havia se inclinado na direção de Blair, muito menos esticado a perna. Mas a acusação já pairava sobre ela como uma corda no pescoço.

Seu peito apertou. Foi então que ela se deu conta: Blair havia planejado aquele exato momento desde o segundo em que insistiu para que cortassem o bolo juntas.

A expressão de Rufus se fechou, a voz baixa e perigosa.

— Cecília.

Apenas o nome dela, mas carregava todo o peso de sua fúria. Seu olhar era frio o bastante para congelá-la até os ossos.

Ela olhou nos olhos dele, mordendo o lábio.

— Eu...

A voz de Brad a interrompeu, dura e implacável.

— Cecília, como você ousa fazer esse tipo de jogo sujo com a Blair?

Ele avançou furioso. A mão dele estalou contra o rosto dela. O golpe virou o rosto de Cecília para o lado; um calor se espalhou sob a pele e o gosto metálico de sangue inundou sua boca.

— Eu não fiz isso — ela disse, a voz embargada e trêmula de dor. — Não tenho motivos para machucá-la.

Brad trincou o maxilar.

— Inveja é motivo suficiente. Você cobiça tudo o que a Blair tem. Mas essas coisas sempre foram dela por direito; você não merece nada disso. Me arrependo de não ter acabado com a sua vida no momento em que você nasceu.

O ódio puro na voz dele fez o peito dela doer. Ela já havia desistido de qualquer esperança de afeto paterno há muito tempo, mas ouvir seu próprio pai falar daquele jeito ainda revirava algo doloroso dentro dela.

Cecília forçou o olhar na direção de Blair, que estava aninhada em segurança nos braços de Rufus. Aparentemente, Blair parecia aterrorizada e frágil — mas Cecília captou o rápido brilho de triunfo nos olhos dela.

Era uma armadilha. Ontem, quando Brad a forçou a comparecer, Blair já devia ter planejado como tudo isso ia se desenrolar.

Cecília respirou fundo, tentando se manter firme.

— Você diz que eu fiz você tropeçar... onde estão as provas? Estávamos andando lado a lado. Como eu poderia ter passado na sua frente para colocar a perna no seu caminho? E, com todo mundo olhando, você realmente acha que eu seria idiota o bastante para tentar algo assim bem aqui?

Blair encolheu-se, frágil, nos braços de Rufus, a voz falhando.

— Então você está dizendo que eu mesma armei tudo isso? Passei dois meses inteiros planejando esta festa. Por que eu estragaria tudo só para incriminar você? Sei que você não gosta de mim, mas tenho tentado consertar as coisas entre nós. Não esperava que você cometesse um erro e depois jogasse a culpa em mim.

As unhas de Cecília se cravaram nas palmas das mãos, mas, antes que ela pudesse responder, a voz de Rufus a interrompeu — fria e autoritária.

— Peça desculpas.

Ela o encarou, a dor transbordando em seus olhos.

— Por que você nunca acredita em mim? Por que quer que eu peça desculpas por algo que não fiz?

O nojo no olhar dele foi como uma faca apontada direto para o seu coração.

— Você mente e manipula desde o dia em que te conheci. Agora peça desculpas à Blair e vá embora.

— Eu não vou pedir desculpas. — A voz dela tremia, mas as palavras saíram firmes. — Não vou admitir algo que não fiz.

A fúria de Brad se intensificou.

— Ainda vai retrucar? Pelo visto, aquele tapa não foi o bastante.

Ele avançou contra ela novamente, mas, antes que a mão dele a atingisse, o corpo de Cecília cedeu. Tudo ficou escuro.

Enquanto a escuridão a engolia, ela foi levada, semiconsciente, de volta a três anos atrás — para o dia em que a encontraram na mesma cama que Rufus. Por mais que tentasse explicar que havia sido a vítima, ninguém acreditou nela. Exatamente como hoje.

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