Capítulo 3 Doação de órgãos
Quando Cecilia acordou novamente, já era tarde da manhã seguinte.
A marca da mão de Brad ainda queimava em sua bochecha. Até mesmo o menor movimento provocava uma fisgada aguda em sua pele. As lembranças da noite anterior voltaram à tona, rasgando feridas que ela achava que já haviam cicatrizado.
A porta se abriu bruscamente. Rufus entrou, com uma expressão sombria e fria. Um grupo de médicos e enfermeiros entrou logo atrás, cada um carregando vários frascos de medicamentos.
O medo transpareceu em seus olhos. Ela se encolheu. "O que vocês estão fazendo?"
Ela estava acostumada a tomar meio frasco por dia para os testes clínicos. Agora, havia quatro frascos enfileirados à sua frente.
Quatro frascos significavam que sua vida se esvairia ainda mais rápido.
Rufus a olhou de cima, com a voz fria como gelo. "Por causa do que você fez ontem à noite, o estado da Blair se desestabilizou novamente. Estes são os medicamentos que você terá que testar hoje, todos eles... até encontrarmos o que causará menos danos a ela."
As lágrimas brotaram instantaneamente. Sua voz tremia. "Não fui eu, Rufus... Meu corpo não aguenta mais isso. Se eu tomar tudo isso, vou morrer."
Ele deu uma risada curta e desdenhosa, atravessando o quarto para agarrar o queixo dela, forçando-a a encará-lo. "Você toma esses medicamentos há anos e ainda está respirando. Achei que finalmente tivesse aprendido o seu lugar, mas ainda assim ousou machucar a Blair."
Cecilia lutou para se desvencilhar, mas seu corpo estava fraco, mole, inútil. "Me solte..."
O aperto dele se intensificou até parecer que a mandíbula dela iria se despedaçar. As lágrimas escorriam livremente, pingando nas costas da mão dele. Em todos os seus anos de testes e coletas de sangue, ela nunca havia chorado.
Agora, não conseguia parar.
"Eu nunca menti para você", disse ela, com a voz falha. "É você quem se recusa a acreditar em mim. Os truques da Blair são tão óbvios... eu sei que você consegue perceber."
Antes, sua dor era apenas tristeza. Agora, era algo mais profundo... um desespero vazio e sufocante.
Ela se sentia como uma planta deixada para murchar no parapeito de uma janela, com suas folhas se curvando em direção à morte.
Fosse pelo calor de suas lágrimas ou pela força de sua angústia, Rufus de repente empurrou o rosto dela bruscamente. "Se fazer de vítima não vai funcionar. Você tem duas opções: engolir tudo sozinha, ou mandarei alguém forçar você a engolir."
Seus lábios se curvaram em um sorriso amargo. "Se eu morrer por causa disso... Se um dia você perceber que me matou com as próprias mãos, vai se arrepender? Nem que seja por um momento?"
Houve um tempo em que ela esteve desesperada o bastante para sonhar em roubar apenas mais três meses ao lado dele. Ela o amava tão profundamente que o nome dele estava gravado em seu coração.
Mas agora, ela não tinha mais nada a oferecer.
"Até encontrarmos o medicamento mais adequado para a Blair, eu não vou deixar você morrer", disse Rufus, saindo do quarto sem olhar para trás.
A equipe médica se aproximou, abrindo os frascos.
"Não..." Seu protesto foi inútil.
Os medicamentos a atingiram como uma tempestade. Mais tarde, ela estava de joelhos no banheiro, vomitando até seu corpo convulsionar. Desta vez, leves traços de sangue rodopiavam na água.
Suas forças se esvaíram. Ficar de pé era como tentar se equilibrar nas nuvens. Seu estômago se contraiu violentamente mais uma vez, fazendo-a cambalear de volta para o banheiro.
Mas, ao passar por um consultório, ela paralisou. A voz de Rufus ecoava pela porta entreaberta.
De onde estava, ela conseguia vê-lo conversando com um médico.
"Essa é a única opção?"
O tom do médico era de resignação. "A saúde da Srta. Ember está se deteriorando rápido. Mesmo o medicamento mais adequado ainda causará danos ao corpo dela. Em vez de continuarmos com os testes, um transplante de rim seria a melhor opção."
Um calafrio percorreu o corpo de Cecilia. Um transplante.
Ela e Blair compartilhavam o mesmo sangue. Se os medicamentos funcionavam para Blair, o rim dela também funcionaria.
O olhar de Rufus era indecifrável. Seus dedos batiam levemente na mesa — um hábito que ele tinha quando estava imerso em pensamentos. "Como Blair está agora?"
Lyle voltou a falar. "Os sintomas dela só pioraram. Desde a noite passada, a Srta. Ember está com uma febre persistente. Sr. Chapman, o senhor precisa tomar uma decisão em breve. Qualquer atraso causará ainda mais danos."
Após um momento de silêncio, Rufus perguntou: "Para quando a cirurgia pode ser marcada?"
"Para depois de amanhã."
"Certo."
Aquela única palavra soou aos ouvidos de Cecilia como uma sentença de morte silenciosa. No estado em que se encontrava, ela não sobreviveria à cirurgia. Sua vida não passava de uma ferramenta para Rufus.
Ela nem se lembrava de como havia conseguido voltar para o seu quarto.
Brad a esperava, com os olhos transbordando irritação. "Onde você estava? Tenho um documento que você precisa assinar."
A voz dela soou apática. "Que documento?"
Ele o tirou do envelope. Assim que viu as palavras, o corpo dela enrijeceu.
Termo de consentimento para doação de rim.
Eles já estavam decididos a tirar o órgão dela.
Ela empurrou o papel com a pouca força que lhe restava. "Eu não vou assinar isso."
A voz de Brad endureceu. "É isso que você deve à Blair. Já passou da hora de pagar a sua dívida com ela."
Uma risada amarga escapou dos lábios dela. "Dever a ela? O que exatamente eu devo? Nós duas somos suas filhas... por que você me trata desse jeito?"
"Porque você é minha filha ilegítima. A minha vergonha. Toda vez que você dá as caras, as pessoas se lembram do meu caso. A culpa é da sua mãe... ela me seduziu."
O sangue dela gelou. "Você não tem o direito de falar da minha mãe. Você mentiu para ela. Escondeu o seu casamento para poder enganá-la. O único que errou aqui foi você."
Anos atrás, a mãe de Blair, Natalia Ruth, havia tido dificuldades para engravidar. Brad, impaciente, fingiu ser solteiro e seduziu a mãe de Cecilia, Bronte Thorne, para que ela tivesse um filho dele. Pouco tempo depois de Bronte descobrir a gravidez, Natalia também descobriu a sua.
Cecilia nasceu primeiro, o que a tornava a filha mais velha. O escândalo levou Bronte à loucura. Todos cuspiam no nome de sua mãe, mas Cecilia sabia a verdade: o homem parado à sua frente era a verdadeira desgraça.
Sua respiração estava ofegante. Ela apontou para a porta. "Eu nunca vou concordar em doar. Saia daqui."
Os olhos de Brad se estreitaram. "Você não está em posição de barganhar. Não se esqueça: o seu avô ainda está nas minhas mãos. Posso cortar o tratamento médico dele a hora que eu quiser."
Cecilia paralisou. Seu avô, Patrick Thorne, era a única pessoa no mundo que realmente havia se importado com ela. Anos atrás, depois de ter sido abandonada por Bronte, Patrick a acolheu. Sem ele, ela teria morrido sozinha ao relento.
