Capítulo 4 Outro ato de disfarce

Cecília já havia aceitado há muito tempo que não existia nenhum laço de pai e filha entre ela e Brad. Ela nunca imaginou que o homem que ainda chamava de "pai" um dia usaria a vida de Patrick contra ela como uma arma.

A ameaça drenou o último resquício de suas forças. Ela sentiu como se desmoronasse por dentro, como um balão murchando aos poucos.

"Passei anos mantendo seu avô vivo", disse Brad, com a voz carregada de prepotência. "Isso é mais misericórdia do que você merece. Você deveria ser grata."

Uma risada amarga escapou dela. Seus olhos se fixaram nos dele, inabaláveis. "Grata? Por mentir para o meu avô? Por me rotular como bastarda para que eu nunca mais possa mostrar o rosto em público?"

Algo nas palavras dela o atingiu. O rosto de Brad se contorceu; ele ergueu a mão num ímpeto e desferiu um tapa forte no rosto dela.

Seu corpo já estava frágil devido a anos de testes de medicamentos para Blair. O golpe cortou seu lábio, e o sangue escorreu por seus dentes. Brad paralisou por um instante ao ver a cena — mas Cecília apenas limpou o sangue com as costas da mão, como se aquilo não fosse novidade.

"Pense bem", disse ele, friamente. "A vida de Patrick está em suas mãos." Dito isso, ele se virou e foi embora, deixando-a apenas com a silhueta nítida de suas costas se afastando.

Não havia tempo para lamentações. Ela se levantou, cada passo sendo uma batalha, e seguiu para o quarto de hospital de Patrick.

No dia em que descobriu que seu próprio tempo estava se esgotando, seus únicos pensamentos — além da dor que ainda carregava por Rufus — foram para Patrick. Se ela morresse, Brad continuaria pagando pelo tratamento de Patrick?

Ela abriu a porta. O bipe constante dos monitores preencheu seus ouvidos, substituindo a voz calorosa que ela tanto amava. Ela odiava aquele som; odiava que aquilo tivesse se tornado a única maneira de Patrick falar com o mundo.

Três anos atrás, o acidente de carro o havia destruído. Os médicos salvaram sua vida, mas o deixaram preso em um corpo que já não lhe obedecia. Sempre que Cecília não tinha para onde ir, ela vinha até ali e ficava sentada ao lado da cama dele por uma ou duas horas. Às vezes, ela conversava. Outras vezes, não dizia absolutamente nada.

Uma lágrima escorreu por seu rosto. Ela queria poder abraçá-lo mais uma vez, provar de sua comida mais uma vez… antes do fim.

"Vovô, me desculpe por não ter sido forte o suficiente." Ela ergueu a mão dele e a pressionou contra o próprio rosto.

Desde o início, ela duvidava que a batida tivesse sido um acidente. Patrick sempre tinha sido um motorista cuidadoso — nunca foi imprudente, nunca foi de infringir as regras.

No entanto, o relatório afirmava que ele havia avançado três sinais vermelhos naquele dia, acelerado o carro até a velocidade máxima e perdido o controle antes de bater no guard-rail.

Durante anos, ela buscou a verdade, mas uma mão invisível sempre bloqueava seu caminho, destruindo suas pistas antes mesmo que pudessem criar raízes.

Ela não iria parar.

"Mesmo que seja a última coisa que eu faça, vou conseguir justiça por você", ela murmurou.

Meia hora depois, ela saiu do quarto, com o corpo se arrastando de volta para sua própria cama. Na porta, encontrou o secretário de Rufus, Noah Fields, à sua espera.

Noah lhe deu um aceno seco com a cabeça, com os olhos cheios de desdém.

Ela não precisava perguntar — Rufus estava lá dentro.

Um sorriso cansado surgiu em seus lábios. Ela nunca teve forças para recusá-lo.

Quando ela abriu a porta, Rufus se virou, fixando o olhar nela. Para sua surpresa, ele não perguntou onde ela estava. Em vez disso, deslizou uma pasta pela mesa na direção dela.

— Seu corpo desenvolveu resistência a este lote de medicamentos — disse ele, em um tom inexpressivo. — E eles não estão produzindo os resultados que eu quero. Vou suspendê-los. — Ele exalou a fumaça em uma espiral lenta.

Cecília assentiu.

— Você sempre tomou essas decisões sozinho. Por que se dar ao trabalho de me contar?

O tom dela provocou um lampejo de irritação. Ele descruzou as pernas, levantou-se e encurtou a distância entre eles. Sua mão se fechou com força ao redor da garganta dela, forçando-a a encará-lo.

— Cecília, tenho sido gentil demais ultimamente? É por isso que você achou que poderia sabotar o aniversário da Blair... e agora falar comigo desse jeito?

O aperto dele ficou mais forte. O ar pareceu rarefeito ao redor dela, seus pulmões lutando para respirar. Um pensamento estranho passou pela sua cabeça — talvez fosse mais fácil morrer bem ali, nas mãos dele.

Pouco antes de a escuridão tomar conta, ele a soltou. Seus olhos carregavam o mesmo desprezo que se reservaria a algo imundo.

Ela ofegou, agarrando a garganta, puxando o ar para os pulmões desesperados. Ele a observava, agora entediado, como se ela fosse um peixe se debatendo em terra firme.

— Em alguns dias, a equipe de pesquisa vai lhe dar um novo medicamento — disse ele. — Os testes em animais correram bem. Se não lhe fizer mal... você finalmente estará livre.

Livre. A palavra não significava nada. Ela não era diferente dos ratos de laboratório — enjaulada, destituída de dignidade, existindo apenas por causa da Blair.

Quando ele se virou para sair, ela se pegou dizendo:

— Rufus.

Ele parou.

— Estamos casados há anos. Houve algum momento — apenas um — em que você gostou de mim? Nem que fosse um pouco?

Sua voz soou quase como uma súplica. Seus olhos carregavam um peso que poderia ter despertado pena em qualquer outra pessoa.

Mas não em Rufus.

Seus lábios se curvaram em um sorriso frio.

— Cecília, pare de sonhar. Você tem a audácia de chamar isso de casamento? Não foi tudo parte da sua armação?

Ela negou com a cabeça, a dor contorcendo suas feições. Por que ninguém acreditava nela? Por que ninguém via a verdade?

Ele continuou, cada palavra afiada como uma lâmina:

— Você procurou por isso. Já que insiste em perguntar, vou lhe dar uma resposta clara. Eu, Rufus, nunca gostei de você. Nem antes. Nem agora. Nem nunca. Satisfeita?

Ela sentiu um aperto no coração; se por causa dos medicamentos ou das palavras dele, não sabia dizer. As lágrimas arderam no canto dos olhos, mas ela se recusou a deixá-las cair na frente dele.

— Eu cometi erros, Rufus. Eu me arrependo deles. Me arrependo de ter cruzado o seu caminho. Me arrependo de ter me casado com você.

E, acima de tudo, pensou ela, me arrependo de tê-lo amado tão completamente a ponto de querer gravar seu nome no meu coração.

Algo no tom dela o incomodou. Ela nunca tinha falado com ele daquele jeito. Por um momento, ela pareceu uma estranha. Mas ele balançou a cabeça, afastando o pensamento.

Cecília era mestre em fingir. Tudo aquilo não passava disso — mais uma encenação.

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