Capítulo 7 Perdoe-os

Quando a luz do dia inundou o quarto, já era quase meio-dia. Cecília não conseguia se lembrar da última vez em que havia dormido tão profundamente — definitivamente não desde ontem.

Ela ficou deitada na cama do hospital por um longo tempo, imóvel. Apenas quando a luz do sol ficou forte o suficiente para arder é que ela levantou uma mão para proteger os olhos.

Uma voz quebrou o silêncio.

— Você acordou. Você dorme bastante, hein.

O som repentino a assustou. Ela se virou, e a familiaridade da voz a atingiu antes mesmo de seu olhar encontrar Rufus — com a boca curvada naquele meio sorriso, meio deboche que ela conhecia tão bem.

Vê-lo ali parecia quase irreal, como se estivesse vendo um fantasma. Mesmo nas noites em que dividiam a mesma cama, ela sempre acordava com um espaço vazio ao seu lado. Nas palavras dele, ele preferia não começar a manhã olhando para algo que só o faria se sentir azarado.

Pelas suas roupas amassadas e a sombra de barba por fazer em seu maxilar, ela se perguntou se ele havia passado a noite toda ali.

— Você... ficou aqui? — A voz dela estava rouca, e havia um lampejo de esperança que ela nem sabia que existia.

Ele não deu a resposta que ela queria. Seus olhos se fixaram nos dela, firmes e indecifráveis.

— O que você acha?

O tom seco de sua resposta trouxe uma pontada de dor, como se zombasse dela por imaginar coisas demais.

Ela apertou os lábios e deixou o silêncio se instalar.

Mas a própria inquietação de Rufus o forçou a falar.

— Com o que você sonhou na noite passada?

Cecília piscou para ele, sem ter certeza se havia ouvido direito.

Ele não se deu ao trabalho de explicar. Apenas esperou.

— Eu falei dormindo? — ela perguntou, franzindo levemente a testa. Era o único motivo que conseguia pensar para que ele soubesse que ela havia sonhado.

A lembrança daquele sonho trouxe uma curva amarga à sua boca.

Rufus não disse nada, com os braços cruzados enquanto estava sentado de frente para ela, esperando pela resposta que o havia mantido acordado e inquieto a noite toda.

Ela respirou fundo e devagar, preparando-se.

— Você não se lembra?

Lembrar do quê?

Antes que ele pudesse perguntar, ela deu um pequeno sorriso autodepreciativo.

— É claro que não. Todas aquelas promessas, aqueles votos... Sou a única que ainda se apega a eles.

— Rufus, você me disse que me encontraria. — Seu olhar não continha malícia, mas uma mistura de mágoa e incredulidade.

Por um momento, o rosto dela pareceu se desfocar e mudar, sobrepondo-se ao rosto de uma garotinha de anos atrás.

Rufus se endireitou na cadeira.

— Que bobagem você está falando? Quando foi que eu te fiz uma promessa dessas?

Sua voz se elevou, como se apenas o volume pudesse encobrir a incerteza que havia por baixo.

Cecília havia carregado essas palavras por anos, e agora queria colocá-las para fora. Ela precisava de uma resposta. O peso disso simplesmente tinha sido grande demais para suportar sozinha.

— Rufus — ela disse lentamente, cada palavra deliberada —, lá no Horizon Hope, você disse que me encontraria... que me protegeria pelo resto da minha vida.

"Eu estive esperando por você."

Ela não tinha a intenção de chorar. Sua voz estava firme, mas as lágrimas vieram mesmo assim, escorrendo rápidas e quentes, incontroláveis.

Rufus abriu a boca, mas algo ficou entalado em sua garganta, roubando-lhe as palavras.

Cecilia enxugou as bochechas com a base da mão. "Todos esses anos, vivi agarrada a essa promessa. Mesmo depois que a família Chapman o levou embora, continuei no convés, apegada à crença de que nos veríamos novamente."

Ela balançou a cabeça, o desespero esvaziando sua voz. "Agora parece uma farsa cruel... e eu sou a tola no centro de tudo, fazendo o meu papel enquanto todos riem."

Após a confissão, ela soltou um suspiro longo e trêmulo. A tensão que carregara por tanto tempo pareceu se romper. Ela pressionou a mão contra o estômago embrulhado, a respiração ofegante, o rosto pálido.

Os testes clínicos tinham feito mais do que apenas deixá-la doente. Seu corpo agora estava frágil demais para suportar qualquer forte emoção.

Mas as palavras dela atingiram Rufus em cheio. As palavras murmuradas durante o sonho na noite anterior haviam despertado suspeitas; a confissão de hoje parecia uma prova.

E, no entanto... como isso era possível? Todas as informações que ele tinha apontavam que a garota do Horizon Hope — aquela que havia se agarrado a ele — era Blair.

"Você está falando bobagem", disse ele, relutante em pensar muito a fundo, com medo do que poderia descobrir.

Ele estava prestes a dizer mais alguma coisa quando ouviu uma tosse do lado de fora do quarto.

Os anos de convivência fizeram com que o reconhecimento fosse instantâneo: era Blair.

Ele se levantou e abriu a porta.

Blair estava parada ali, pálida como papel, amparada por uma enfermeira. "Pensei em vir ver a Cecilia. Não esperava encontrar você aqui também."

Ela não se alterou nem exigiu explicações. Em vez disso, manteve a cordialidade, como se não tivesse ouvido nada.

A compostura dela despertou culpa em Rufus. Ele sabia o quanto ela era gentil, e como os anos de companheirismo dela haviam sido reais. Como ele podia deixar que algumas palavras de Cecilia o fizessem duvidar dela?

Ele falou rapidamente, colocando distância entre si e Cecilia. "Os especialistas desenvolveram uma nova medicação. Vim avisá-la sobre a transição para um novo teste de medicamento experimental."

O sorriso de Blair foi gentil, compreensivo. Ela entrelaçou seu braço no dele, encostando a cabeça em seu ombro. "Eu sabia que você sempre cuidaria de mim. Você tem sido meu cavaleiro desde que éramos crianças."

Rufus pretendia acompanhá-la de volta ao quarto dela, mas ela insistiu em fazer uma visita a Cecilia.

Na cama, Cecilia fechou os olhos, cansada demais para lidar com Blair.

Mas Blair não fez menção de ir embora. Ela se sentou ao lado da cama, apertando a mão de Rufus, tirando força do contato. Seu olhar se demorou em Cecilia, e sua voz soou sincera.

"Eu sei que você tem suportado muita coisa, tomando aqueles medicamentos experimentais por minha causa. Devo a minha vida a você. Mas, por favor... perdoe meu pai e o Rufus. Eles só agiram por medo do que pudesse me acontecer, e recorreram a medidas desesperadas. Se você precisa de alguém para odiar, alguém para culpar... que seja eu."

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